Surma é Débora Umbelino, um nome que já atravessou fronteiras e não só no nosso coração. De Leiria para o mundo, com apenas 23 anos, Surma é um pequeno grande prodígio nacional, que tenciona chegar a todo o lado através da sua música. Estivemos à conversa com a mesma para tentar perceber um pouco mais sobre o mundo musical de Débora e como surgiu Antwerpen, o primeiro álbum de Surma, com selo da Omnichord Records. Aqui fica a simplicidade e genuinidade de uma pessoa encantadora, como a Débora, que um dia vai conquistar o mundo antes do pequeno-almoço!


Começando pelo nome Surma – uma tribo do sudoeste da Etiópia, passando por Antwerpen – a maior cidade da região de Flandres e da Bélgica, ainda encontramos palavras como “Drög” ou “Begrenset” que nos soam realmente estranhas. Resta-nos o teu: Débora. Afinal… quem és tu?
[Ah ah] Boa pergunta, sou apenas uma pessoa estranha que não gosta de se fixar numa coisa em específico! O nome, Surma, veio na altura em que estava a ver um documentário sobre tribos indígenas e ficou-me de tal maneira na cabeça que senti que tinha que ser aquele, também muito por causa dos costumes e da rotina que levavam. Revi-me muito neles, não pensam no futuro e não dão importância a bens materiais.

Quanto a Antwerpen, o nome é como que um elo de ligação entre a fase inicial de Surma e esta nova fase de “cara lavada”. Gravei o meu primeiro single em Doel (Bélgica), onde fiquei a dormir em Antuérpia durante três dias. Senti-me inacreditavelmente em casa, naquela cidade. Veio daí a decisão de dar este nome ao álbum, como que uma homenagem ao local, por me ter aberto muito os horizontes na altura!

Nomes das músicas… pensei neste álbum como um álbum do Mundo, não me quis fixar apenas numa língua só, como o português ou o inglês. Quis dar a minha própria interpretação às músicas, dando essa mesma liberdade, mutuamente, às pessoas que as ouçam! Quero que criem uma ligação própria às músicas.

Das conhecidas “Masaai” ou “Wanna Be Basquiat”, “Hemma” foi sem dúvida o ponto de viragem para uma sonoridade que ninguém esperava no teu álbum de estreia. Achas que Antwerpen é o ponto de partida para uma fase mais experimental e madura da tua carreira, ou uma evolução dos sons que tinhas vindo a lançar?
Sem dúvida alguma! O primeiro ano de Surma foi como que um “gap year” para mim. Estava a tentar descobrir qual o caminho que queria seguir e qual a minha sonoridade. Antwerpen foi essa mesma solidificação, ao longo desse ano, e a maturação dos sons que sempre estiveram na minha cabeça.

Há uma inquietude, uma vontade de mudar que te tem caracterizado na tua carreira musical, e muito do teu percurso até aqui. No entanto, o álbum tem uma linha consistente do início ao fim, e uma tranquilidade constante. Foi premeditado?
A produção do álbum foi muito genuína! A maior parte dos sons e da produção foi feita na estrada, devido aos concertos que estava a ter na altura. Foi muito complicado conciliar estúdio com a vida de estrada. Foi tudo feito muito no momento. A Casota Collective ajudou-me mesmo muito neste processo, eu costumo dizer que estas músicas tanto são minhas como deles, pois todos nós lhes demos a nossa própria essência! Podemos encontrar de tudo, de castanholas a cair no chão, a folhas de cadernos a rasgarem-se, metal das luzes a fazerem de batida, e muitos mais sons estranhos. Foi um processo muito divertido e muito genuíno de se fazer.

Sabemos que “Hemma” é inspirada e dedicada à tua avó. O que mais te inspirou para fazeres o resto do álbum?
Antuérpia, a viagem que fiz aos países nórdicos e a minha família. Foi uma junção de vários factores. Todas aquelas paisagens que vi, o frio que se fazia sentir, as pessoas com quem tive contacto, tudo me fazia pensar em variadas coisas no momento. Abriu-me mesmo muito os horizontes.

Muito deste álbum foi gravado no estúdio dos First Breath After Coma, agora a sede Casota Collective. Alguma desta interação entre artistas passou para o resultado final, ou este é acima de tudo um trabalho com mão artística somente de Surma?
Este processo foi tudo menos solitário! Foi um processo colectivo, vejo-os muito como irmãos mais velhos, damo-nos muito bem em termos de ideias e de sinceridade. Adorei trabalhar com a Casota e sinto que posso fazer de tudo o que me vem à cabeça com eles. Este álbum é meu e da Casota. Eles foram essenciais para todo o processo! Criámos uma amizade ainda maior que a que tínhamos até então.

És conhecida por ao vivo nunca tocar uma mesma música da mesma forma. Achas que os temas evoluem com o passar do tempo, quase como matéria orgânica?
Sem dúvida que sim. Os concertos, a experiência e os comentários que vais tendo, de pessoal que te vê pela estrada, são essenciais para o teu crescimento. Eu absorvo imenso os comentários e críticas de cada um, tentando sempre fazer mais e melhor a cada concerto. E é isso que te faz crescer, não só como músico mas também como pessoa e artista. A estrada é essencial para cresceres ao vivo. Vais ganhando um à vontade incrível com as pessoas, permitindo-te improvisar cada vez mais ao vivo.

Em palco estás sozinha, sempre rodeada por mil e um instrumentos. Com tantos botões para carregar e tantos loops minuciosos para fazeres, como consegues sequer lembrar-te de respirar?
[Ah ah] Não lembro! Só me lembro de entrar em palco e de sair. O momento que começo a tocar apago completamente de tudo. Fico na minha própria bolha, não penso em mais nada! É como se o meu cérebro tivesse um botão on-off. Fica off assim que começo a tocar! É uma sensação de alívio extrema. Entro no meu próprio mundo.

Tocas guitarra, baixo, sininhos, teclados, estudaste contrabaixo e já te vimos a explorar o violino. Qual é que é o instrumento que ainda te falta saberes tocar?
Todos esses [ah ah]. Não sinto que seja uma pessoa fluente em todos os instrumentos. Quero sempre aprender mais e melhor. Mas talvez harpa, seria o instrumento que amava saber aprender a tocar.

Foi muito difícil passar as músicas do álbum para formato concerto?
Muito difícil, ainda está a ser e ainda estou nessa fase. Sou um pouco perfeccionista e nunca está nada bem para mim. Precisa de estar perfeito e ainda estou a ver o que posso melhorar a nível de concerto. Talvez para o Verão já esteja como quero.

Vais manter o formato “one-woman-band” ou estás a aceitar candidaturas para um par de mãos extra, ao vivo?
Nunca digas nunca. Eu gosto sempre muito de tocar com malta, é um background que tens, a que não estás habituada, e que me agrada mesmo muito! Mas gostaria de continuar com o formato “one-woman-band”, pois dá-me uma liberdade fenomenal para fazer aquilo que quero, no momento que quero. Mas considerarei sempre esse par de mãos extra ao vivo.

Um dos primeiros concertos que deste foi em Cem Soldos, no Festival Por Estas Bandas, em 2015. Agora rumas ao outro lado do oceano para marcares presença no SXSW, em Austin, Texas, nos Estados Unidos da América. Qual é que foi a sensação de seres o primeiro nome português a ser confirmado na edição 2018 do festival?
Ainda hoje não acredito que vou lá! Só quando chegar o dia e estiver a entrar no avião é que caio em mim! Quando o Hugo me ligou a dar a notícia não acreditei! Assim que recebi o email da organização do festival, a dizer que tinha sido confirmada foi uma euforia lá em casa que não sei descrever! Foi das melhores notícias que recebi até hoje! Lembro-me de chorar baba e ranho assim que li o email!

Com o teu talento, dedicação e genuinidade, com certeza que conseguirás conquistar o mundo antes do pequeno almoço. Qual é que será o próximo passo para a Surma? E para a Débora?
O futuro a mim não me assiste. Não gosto muito de pensar no que aí vem, entro num vórtex um pouco pesado para mim. Gosto de viver as coisas com calma e com os pés bem assentes na terra. Só quero que continue como tem sido, ou ainda melhor, e logo se vê o que o futuro nos dirá.

Texto: Adriana Lisboa
Imagens: Sílvia Fernandes @Bons Sons