Quem é Linda Martini? O que é Linda Martini? Será uma banda de quatro veteranos do hardcore nacional? Ou a grande banda de rock nacional, capaz de esgotar salas nos quatro cantos do país? Será a italiana que aparece na capa do álbum homónimo? Ou uma banda de culto, capaz de apelar às mais variadas gerações? No fundo é todos e não é nenhum, é uma banda adulta mas com energia de adolescentes, que toca punk com nuances piscadélicas e ritmos africanos. É, também, uma banda inconformada, que a cada novo trabalho apela às suas origens e trilha novos caminhos.

É esta vontade de se desafiar e de experimentação constante que levou a banda ao novo trabalho, o homónimo Linda Martini. Em muitos aspectos, este trabalho é um novo começo e um regresso às origens. Se o nome e a escolha do produtor, Santi Garcia, que já produzira o primeiro longa duração, Olhos de Mongol, nos trazem uma certa nostalgia por tempos já idos, a forma de composição e gravação, com a banda a optar por permanecer junta, na totalidade do tempo do processo criativo deste novo trabalho, é uma novidade para estes músicos já calejados.

Todavia, não é só ao nível logístico e de bastidores que esta dicotomia passado/futuro existe. De facto, o confronto, ou antes, a dualidade destes dois Linda Martini, transparece para a música. “Gravidade” e “Boca de Sal”, lançados como singles, apelam a novos pela sua acutilância e energia, e atraem maduros com os seus breakdowns experimentais e fora da caixa. “Domingo Desportivo”, “Semi Tédio dos Prazeres” e “Se Me Agiganto” expandem o repertório psicadélico/jam e quase progressista da banda, propícia para fãs mais antigos e exigentes, mas com trovoadas instrumentais, que não deixam os viciados em adrenalina a seco. Em comparação com o anterior, Sirumba, é notória a diferença ao nível de produção e composição. Enquanto Sirumba é polido e luzidio, Linda Martini soa sujo, abafado e por vezes claustrofóbico. O efeito é deliberado e resulta no LP com a tonalidade mais pesada de uma carreira que conta já com mais de quinze anos. Os antes rasgos de Fugazi e dos saudosos If Lucy Fell estão ainda presentes, mas aparecem apenas a espaços, na nuvem de distorção e ruídos quase shoegazing que é este álbum.

Linda Martini é um dos LPs mais complexos da banda. A entrada de rompante com “Gravidade” e “Boca de Sal” enganam quem espera um novo Casa Ocupada pois, à medida que os temas passam, é menor a descarga de energia sem freio, e mais pensada cada nota, interacção e palavra. É um álbum que cresce quando tocado ao vivo, misturado com outros temas clássicos da banda, sendo, no entanto, notável a forma como, quase sem querer, os novos temas vão entrando nos ouvidos e cabeça. A sensação de surpresa e descoberta não cessa nem com dez ou vinte audições, havendo sempre lugar para mais um pormenor, detalhe ou efeito que nos escapou ou que se apresentava de outra forma.

O tempo julgará se algum destes temas será alguma vez um hino da mesma forma que “Amor Combate” ou “Cem Metros Sereia”, ou proferido nas mesmas discussões de “Volta” e “A Severa (Ver de Perto)”, contudo, é certo que Linda Martini contribui para uma carreira já invejável e cimenta, mais ainda, o seu lugar no panteão da música nacional.

Nota: 8.7/10

Nuno Camisa