O mundo dos Ditch Days é um mundo parecido com o de muitos millennials, cheio de recordações, boas memórias de infância, filmes que passavam na televisão ao domingo à tarde e música para fazer sonhar. Os quatro rapazes de Lisboa tiveram outros projectos antes de formarem esta banda e conheceram-se na faculdade e noutras vilas. Começaram a tocar no final de 2015 e editaram, logo em 2016, o primeiro álbum Liquid Springs. Também nesse ano fizeram parte do disco dos Novos Talentos Fnac, ao lado de nomes como Luís Severo ou Surma. Nas suas redes sociais, identificam o seu estilo como sendo indie e dream pop e nós aceitamos esse tag ao seu género musical.

Partir logo para o álbum com nove canções foi uma jogada inteligente por parte da banda, dando logo a conhecer-se com um formato mais longo e não partilhando canções aos poucos. Liquid Springs remete para um lugar imaginário, tal como explica a banda numa entrevista à Antena 3: “pensámos em criar um Estado imaginário, uma cidade imaginária: fizemos um brainstorming, a pensar em nomes que reflectissem isto. Criámos a nossa Springfield, dos Simpsons. Springs é o nome associado a várias cidades americanas — Colorado Springs, Palm Springs — e confesso que fomos lá pela fonética, que achamos muito bonita. Inspirava bons sentimentos e soava bem. Liquid remete-nos para algo de verão, flexível e absorvente”.

As inspirações são muitas, neste álbum, mas podemos dizer que os filmes e as séries conseguem ser uma paisagem óbvia para estas músicas. Se formos ver o Facebook dos Ditch Days, vemos lá referências a Annie Hall ou a Twin Peaks. Esse lado visual pauta também algumas das músicas. É o caso de “In Films”, que menciona o filme “Submarine“, de 2010. Essas referências mais inocentes e românticas vão caracterizar o que é a banda e o seu álbum de apresentação. Há um sentimento de querer voltar aos lugares da infância, onde tudo parecia mais familiar ou confortável. Na primeira música do álbum, “Back In The City” fala-se precisamente de ir aos lugares onde eram felizes. Também a canção “Nostalgia” vai ao encontro desse sentimento nostálgico “Those kids don’t know they’re having fun, / ‘Cause they are so young / Dreams made of plastic water guns /And caramel buns”.

Para além do álbum, estes sonhadores lançaram posteriormente, na época do natal de 2016, o tema “Wacky Races”, que é acompanhado por um videoclipe também saudosista. Este foi filmado numa Feira Popular, ao estilo da que existia em Lisboa e que vai renascer brevemente noutro espaço da cidade. O tema foi só mais uma maneira de recordar certas situações do nosso passado recente, que por vezes não se vão repetir. Este exercício de memória pode parecer irrelevante, mas não é. A geração dos millenials cresceu com a certeza que ia estar num mundo melhor, mas a realidade não mostrou isso. Mostrou um mundo mais imperfeito, em que os jovens não tiveram as mesmas oportunidades que os seus pais, em que houve uma crise financeira brutal e que o mundo é muito mais competitivo. Por isso, não é de estranhar que haja muitas pessoas que queiram voltar aos lugares onde eram felizes.

Os Ditch Days sabem para que audiência é que falam, e fazem-no de maneira simples, mas eficaz. O álbum que lançaram exprime um sentimento concreto, mas não quer dizer que não haja mais camadas aí por explorar. Se calhar têm um lado mais eufórico para mostrar, ou até mais adulto. Mostraram nesta primeira fase uma faceta mais virada para o passado, mas talvez tenham uma visão positiva sobre o nosso futuro.

Rodrigo Castro