Liquid Springs é o álbum de estreia dos lisboetas Ditch Days, banda que já dispensa apresentações em solo português. Editado em 2016 e produzido por Miguel Vilhena (Savanna), este longa-duração é um casamento entre o indie rock despreocupado da década de 2000 com a dream pop dos anos 80 e 90.

Logo que começam os primeiros acordes de “Back In The City”, sente-se a abrir uma caixinha de onde saem o sol e o cheiro a verão. As guitarras, tanto mais “sujas” ou mais limpas, viajam entre este universo da dream pop e do indie rock, deitando um olho a mais qualquer coisa, algo mais na onda psicadélica. Acompanhadas por uma bateria sempre muito certa, com momentos mais “espalhafatosos”, porque isto também é rock, por um baixo cheio de groove e sintetizadores hipnotizantes, o culminar encontra-se nas letras das canções que dão história às melodias coloridas que saltam desta “caixinha”. Neste momento, encontram-se em digressão pela Europa, digressão essa que culminará no concerto das Punch Sessions, dia 24 de março, no belíssimo Titanic Sur Mer, onde se juntarão aos já anunciados Them Flying Monkeys e Flying Cages.

1. “Back In The City”
A batida relaxada e os riffs de guitarra reluzentes são uma óptima maneira de abrir este trabalho, que promete ser uma viagem pela nostalgia dos tempos de verão. Com um início muito ao estilo do dream pop, o auge da música é a secção em que o peso das guitarras e do fuzz entram em acção, muito à semelhança de Pavement.

2. “Zowee”
Talvez a faixa mais indie deste primeiro trabalho dos lisboetas. As guitarras e a bateria barulhenta dos versos lembram The Strokes, mostrando uma faceta mais irreverente e acelerada do grupo. A melodia quase gritada acompanha o vocalista durante o final do tema, contribuindo com alguma rudeza para a atmosfera de “Zowee”.

3. “The Days Are Just Packed”
Guitarras lustrosas servem de base para sintetizadores e coros, sempre usados com parcimónia, porque tudo o que é em demasia perde o seu brilho. Esta mistura traz-nos uma música que serviria perfeitamente como banda sonora para uma roadtrip de verão com os amigos.

4. “Nostalgia”
Aqui encontra-se uma veia mais psicadélica e experimental da banda. Outro ponto muito positivo é a dimensão visual da música e das histórias cantadas pela voz de Luís Medeiros. A habilidade para criarem imagens soalheiras e alegres é de notar.

5. “Melbourne”
Um início só com uma guitarra, envolta em efeitos, que se vai abrindo para dar entrada aos restantes membros (notar a linha de baixo cheia de swing que aqui aparece).  O beat é relaxado e faz-nos viajar por esse imaginário dos passeios ao ar livre em que a brisa quente nos toca a cara, tal e qual o belíssimo vídeo que acompanha este tema.

6. “9 Tracks Make An Album”
Na sexta faixa do título de estreia dos Ditch Days somos apresentados a uma voz que, ao que parece, é mais uma sample, instrumento muito utilizado pela música pop. Progressão harmónica simples, que permite ao teclista fazer uma linha melódica “brincalhona” e muito simples para fazer de “9 Tracks Make Na Album” um género de interlúdio.

7. “Blue Chords”
Riff sujo, mais uma amostra do indie rock que está na génese da banda, e uma linha de baixo corpulenta. Apesar do que o título possa indicar, a estrutura de um blues é bastante simples, a harmonia aqui apresentada tem muito que se lhe diga. Uma das músicas mais consistentes deste trabalho.

8. “In Films”
Faixa muito simples com alguns picos de entusiasmo. Bateria um pouco quadrada, melodias vocais semelhantes ao que já tinha sido feito, e linhas de baixo direitinhas. Mais uma vez não podia faltar uma sample. Das coisas mais dreamy de Liquid Springs.

9. “Countryside Nightlife”
Para fechar o trabalho escolheram uma faixa cheia de energia. Baixo retraído, para dar espaço a momentos de delicioso pormenor do baterista. Quando tudo parece terminado, eis que os rapazes decidem carregar no peso dos pratos e puxar pelo do fuzz e do reverb para fecharem mais uma malha que demonstra grande maturidade, na forma como foi pensada.

Francisco Botelho de Sousa