A Golden Age da MTV já lá foi, as televisões de música têm quase a mesma importância que a música em formato físico, mas a importância artística do vídeo permanece. Por isto, e não só, cada vez se aposta mais nesta vertente de promoção, o que contribui para a crescente qualidade deste produto. Já não se fazem só vídeos de música, fazem-se verdadeiros filmes musicados. Nesta rubrica abordamos realizadores de videoclipes, que muitas vezes não têm nem o crédito nem a visibilidade que merecem. Entre dois dedos de conversa, ficamos a conhecer melhor as manhas das telas das nossas músicas, a história que contam, e a história de quem as conta, também. Para a terceira edição trazemos João de Sá, realizador do videoclip “Your Friends” dos Flying Cages.

O vídeo da música “Your Friends”, dos Flying Cages, exibe o que aparenta ser a claustrofóbica pressão do mundo e a necessidade de escape. Em termos de composição, a infância pode ser causadora de estragos e isso o vídeo retrata de uma forma muito bem feita. Tanto o boy como a música precisam de libertação, e a passagem de um sufoco para o mar que purifica é uma referência a essa mesma expressão de liberdade, de uma prisão a que nos condenamos muitas vezes.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso até aqui. Qual é que foi o momento em que percebeste que querias dar vida a músicas e estar atrás das câmaras?
Bom, basicamente tudo começou com o meu fascínio por televisão. Sempre vi muita TV, e tinha um fascínio por aquele mundo. Estudei multimédia e, quando chegou o momento da escolha do estágio, surgiu a oportunidade para ingressar a Academia RTP. A partir daí, percebi logo o que queria fazer. Juntar isto à música foi fácil. A música sempre fez parte da minha vida e sempre fui um músico de garagem. Houve um ano na minha vida em que percebi que podia entrar em concertos sem pagar se fosse fotografar, foi um ponto de viragem. Passei esse ano a ir e fotografar concertos praticamente todos os fins de semana, enquanto trabalhava numa produtora de vídeo durante a semana. De fotografar concertos a realizar vídeos musicais, foi um saltinho.

É difícil ser realizador em Portugal, especialmente nesta vertente? O facto da música portuguesa estar a passar por um dos seus melhores momentos faz com que haja mais procura? Alguma crítica à indústria de videomaking em Portugal?
Eu não me considero um “realizador de videoclipes”, na realidade só fiz três ou quatro. Actualmente, tenho a minha produtora de vídeo, Neva Films, e trabalho muito com cultura, mas quase tudo numa vertente mais documental. Quanto ao mercado, eu acho que dá para todos. Eu não me queixo, trabalho com a sala de concertos mais bonita do país, Theatro Circo, e com umas das mais excitantes, o gnration, e sinto-me realizado.

Enquanto realizador, o que é que mais te inspira? Como é que é o teu processo criativo? Trabalhas sozinho?
Geralmente trabalho sozinho. A inspiração é relativa, tanto vem de um vídeo estranho que encontrei no Vimeo, como de um poster com design interessante. Não penso muito nisso, mas tento ir recolhendo objectos de que gosto, e acabam sempre por ser elementos com um design gráfico apelativo. Acho que no fundo sempre quis ser designer também.

Se pudesses descrever a tua estética visual em três palavras, quais é que seriam e porquê?
Ui, não faço ideia, nem sequer sei se tenho uma estética minha, isso é mais fácil para quem está de fora identificar esses traços. Mas tento sempre não me repetir, inovar e experimentar sempre.

O universo indie rock dos Flying Cages é no, mínimo, peculiar e intenso! Como é que começou a vossa relação criativa? Foi difícil transformar as palavras e as sensações deles em vídeo?
Conheci-os porque o Rui era amigo da minha namorada, dos tempos académicos em Coimbra. A relação criativa não foi difícil, na realidade eu é que me pressionei a mim mesmo para este vídeo. Eles foram bastante abertos com ideias e deixaram-me logo à vontade. Uma das partes que eu mais gostei foi que eu ainda não os tinha visto ao vivo, só conhecia a música. Então só estive com eles, pela primeira vez, no dia das filmagens, e estive o dia todo a tentar adivinhar pra mim mesmo quem é que tocava cada instrumento, e acertei em todos. As personalidades deles encaixam e percebe-se, logo ali, a dinâmica da banda.

Qual é que foi o ponto de partida para o “Your Friends”? Já tinhas alguma coisa pensada? Houve alguma dificuldade no que diz respeito ao storybook?
Na verdade houve uma primeira ideia que chegámos à conclusão que não iria resultar, já nem me lembro bem como era, mas envolvia um casal a correr pelas ruas de Coimbra, em slow-motion. Este foi o único videoclipe em que fiz um storyboard e levei para o dia de filmagens. Convidei também o meu irmão, para me ajudar a verificar que não me esquecia de nada do que tinha pensado para filmar. O que não queria era começar a editar e chegar à conclusão que não tinha imagens suficientes, ou alternativas suficientes. Mas acho que correu bem, eu gosto do resultado.

Qual é a tua opinião sobre o universo dos Flying Cages e do estado actual da música portuguesa?
Eu gosto do som deles e estão a traçar um bom caminho. Eu acho que a música portuguesa está na melhor época de sempre, sem papas na língua.

Algum conselho para jovens realizadores que estão agora a começar? Projectos futuros?
Façam, experimentem, não tenham medo. A quantidade de pessoal que eu vejo a sair dos cursos com a formação técnica, mas sem ter posto mãos à obra, é assustadora. É preciso fazer coisas e as oportunidades aparecem. Não planeio muito o futuro nem traço objectivos, vou andando e agarrando os projectos que aparecem. Não tinha piada se já tivesse a vida toda planeada.

Punch Redação