A Golden Age da MTV já lá foi, as televisões de música têm quase a mesma importância que a música em formato físico, mas a importância artística do vídeo permanece. Por isto, e não só, cada vez se aposta mais nesta vertente de promoção, o que contribui para a crescente qualidade deste produto. Já não se fazem só vídeos de música, fazem-se verdadeiros filmes musicados. Nesta rubrica abordamos realizadores de videoclipes, que muitas vezes não têm nem o crédito nem a visibilidade que merecem. Entre dois dedos de conversa, ficamos a conhecer melhor as manhas das telas das nossas músicas, a história que contam, e a história de quem as conta, também. Para a quarta edição trazemos Daniel Alves, realizador do videoclipe de “Space Monkey”, dos Them Flying Monkeys.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso até aqui. Qual é que foi o momento em que percebeste que querias dar vida a músicas e estar atrás das câmaras?
Desde miúdo que sempre tive o bichinho da fotografia e do vídeo. Fiz o meu primeiro vídeo com amigos por volta dos 13-14 anos e, como sempre ouvi bastante música, gostava de ver todo o tipo de videoclipes. Pensava que também fosse capaz de fazer algo do género.

É difícil ser realizador em Portugal, especialmente nesta vertente? O facto da música portuguesa estar a passar por um dos seus melhores momentos faz com que haja mais procura? Alguma crítica à indústria de videomaking em Portugal?
Acho que é bastante difícil, sim. É uma área que está a ser totalmente revolucionada em Portugal e não é pelo facto de a música estar a evoluir bem que o vídeo ou a fotografia irão evoluir também. Há ainda muita gente neste país que pouco ou nenhum valor dão a estas áreas. Para além disso, grande parte das bandas faz todo o investimento na gravação da música em concreto enquanto a gravação do vídeo é mais posta de lado.

Enquanto realizador, o que é que mais te inspira? Como é que é o teu processo criativo? Trabalhas sozinho?
Normalmente, apenas arranjo as ideias-base sozinho e depois começo a chatear uns quantos amigos sobre essa ideia. Acho que é bom ter sempre alguém com quem falar e discutir ideias. Em termos de inspiração, é um pouco difícil responder, depende muito do meu estado de espírito, das coisas que me ocupam o tempo na altura, mas, de modo geral, gosto bastante de ver outros vídeos e pesquisar temas aleatórios pela internet para começar a ter uma base do que vou criar.

Se pudesses descrever a tua estética visual em três palavras, quais é que seriam e porquê?
Pessoalmente, acho que sou um pouco de contrastes. Consigo fazer um trabalho que seja super feliz e outro que seja muito melancólico. Gosto de experimentar ideias novas e, como todas as bandas são diferentes, é também necessário haver uma adaptação do próprio realizador à banda e ao conceito desta. Por outro lado, a nível estético há marcas mais pessoais, que gosto de ter presentes em todos os vídeos, desde a cor à edição. Assim sendo, escolheria apenas dinâmica e melancolia.

O universo psicadélico com influências do misticismo de Sintra, dos Them Flying Monkeys, é algo de único! Como é que começou a vossa relação criativa? Foi difícil transformar as palavras e as sensações deles em video?
Nós já nos conhecemos há bastantes anos e somos bastante amigos. Na altura eles estavam a gravar o primeiro EP e o orçamento que eles tinham não era muito. Tentámos sempre pensar em coisas fazíveis dentro das nossas possibilidades. Posto isto, toda a narrativa foi aparecendo de uma forma natural e a própria gravação e pós-produção aconteceu naturalmente, também.

Qual é que foi ponto de partida para o “Space Monkey”. Já tinhas alguma coisa pensada?
O argumento original para o vídeo foi escrito pela banda, só numa fase final é que houve intervenção minha. Eles queriam bastante que aquela ideia funcionasse e o meu papel foi apenas de ver se a imagem e o argumento funcionavam como um todo. A partir daí, alterámos o que era necessário, para criar uma narrativa engraçada e com sentido.

Houve algum videoclipe mais complicado que o outro? A nivel de storybook?
São sempre difíceis, cada um à sua maneira. Todos os vídeos são diferentes. As músicas são diferentes, as bandas são diferentes, os sentimentos entre elas diferem bastante, o que altera obviamente a intenção do vídeo. Por isso, cada um foi um desafio.

Qual é a tua opinião sobre o universo dos Them Flying Monkeys e do estado actual da música portuguesa?
Sou um grande consumidor de música portuguesa, desde hip-hop a metal, ouço de tudo um pouco. Os Them Flying Monkeys, para além de serem grandes amigos meus, são pessoas pelas quais tenho um respeito enorme, pela música que fazem. É bom ver a música portuguesa a crescer, como tem crescido, tanto na quantidade de músicas e bandas que vão aparecendo, como na qualidade do que elas vão fazendo a sua música. Acho honestamente que a música portuguesa está em boas mãos.

Algum conselho para jovens realizadores que estão agora a começar? Projectos futuros?
Sendo que tenho apenas 22 anos e poucos trabalhos feitos acho que ainda estou nesse grupo. De resto, tenho um grande conselho, que serve tanto para os outros como para mim. Se querem começar nesta área, façam coisas. Não tenham medo de tentar, se têm uma ideia façam-na, esforcem-se até que ela esteja pronta. No final, se não funcionar, façam outra e outra e mais outra, mas não parem de tentar. Deem-se ao trabalho e esforcem-se realmente para que as coisas aconteçam.

Em relação a projetos futuros, não sei mesmo o que o futuro me pode trazer. Neste momento estou a entrar numa área mais de fotografia, mas continuo com bastantes ideias para mais projetos.

Punch Redação