A Golden Age da MTV já lá foi, as televisões de música têm quase a mesma importância que a música em formato físico, mas a importância artística do vídeo permanece. Por isto, e não só, cada vez se aposta mais nesta vertente de promoção, o que contribui para a crescente qualidade deste produto. Já não se fazem só vídeos de música, fazem-se verdadeiros filmes musicados. Nesta rubrica abordamos realizadores de videoclipes, que muitas vezes não têm nem o crédito nem a visibilidade que merecem. Entre dois dedos de conversa, ficamos a conhecer melhor as manhas das telas das nossas músicas, a história que contam, e a história de quem as conta, também. Para a quinta edição, trazemos Francisco Miguel Mineiro, realizador do videoclipe para “When Pigs Had Wings”, dos Them Flying Monkeys.

Conta-nos um pouco sobre o teu percurso até aqui. Qual é que foi o momento em que percebeste que querias dar vida a músicas e estar atrás das câmaras?
Sempre fui um apaixonado pelo desenho, teatro, fotografia, música e a paixão pelo cinema surgiu mais tarde. Caí, como que de para-quedas, na licenciatura da Lusófona e não demorei a perceber que tinha caído no sítio certo.
Eu gosto de experimentar, de tentar criar algo novo e, sobretudo, de me deixar levar pelas coisas. Os videoclipes dão-me a oportunidade de fazer isso mesmo, experimentar livremente e deixar-me levar pelas músicas. Mas não acho que esteja a dar vida à música, ela têm uma vida por si só, o videoclipe funciona como uma outra coisa. É outro objeto, outra experiência diferente, se calhar diria que o videoclipe é só uma etapa da vida de uma determinada música, algo que a enriquece.

É difícil ser realizador em Portugal, especialmente nesta vertente? O facto da música portuguesa estar a passar por um dos seus melhores momentos faz com que haja mais procura? Alguma crítica à indústria de videomaking em Portugal?
Devo dizer que a minha experiência é muito reduzida e, por essa razão, talvez não seja a melhor pessoa para responder a esta questão. No entanto, eu acho que não é difícil fazê-lo. Se queremos mesmo e dermos o nosso melhor é possível chegar onde queremos. Acho que o mais importante é focarmo-nos nos nossos objetivos e fazer de tudo para os alcançar. Mesmo que pelo caminho apareçam coisas de que não gostamos, ou que corram mal, o importante é fazer.
O primeiro videoclipe que fiz foi para uma das cadeiras na licenciatura, tivemos uma excelente nota e muita gente gostou do resultado final, mas não passou disso. A banda (que até era conhecida) e a produtora deixaram de responder e o vídeo nunca foi publicado. Para primeira experiência, não era aquilo que estava à espera, mas esse vídeo acabou por me abrir portas para outras coisas, incluindo o videoclipe para os Them Flying Monkeys. Por isso, acho que com vontade e criatividade se vai lá, mesmo que não corra tudo como pretendido.
Não é só a música que está a passar por um bom momento, é Portugal, estamos na moda e temos de aproveitar. Não sei se haverá mais procura, mas o nível de exigência é certamente maior.

Enquanto realizador o que é que mais te inspira? Como é que é o teu processo criativo? Trabalhas sozinho?
Eu trabalho muito sozinho no início dos projetos, sou perfecionista e gosto de limar bem as arestas antes de apresentar a ideia a alguém. Depois de partilhar a ideia, gosto de discuti-la e trabalhá-la com outros, ouvir as opiniões e tentar chegar a algo que seja do agrado de todos os envolvidos, mas consigo ser teimoso com algumas ideias. Para videoclipes, eu limito-me a ouvir a música várias vezes. Normalmente, na primeira vez que a ouço há sempre uma imagem que me vem à cabeça e é a partir daí que começo a construir o resto. Vou ouvindo e escrevendo ou desenhando, tento prestar atenção a todos os detalhes da música, para depois começar a procurar referências visuais que me ajudem a chegar à ideia final.
O que mais me inspira é a minha vida, quando consigo apoiar-me a olhar a paisagem, sentir o vento de leve na cara e relembrar os bons e os maus momentos, aí é que surgem grande parte das minhas ideias. Normalmente são só imagens, personagens, frases, mas com o tempo vão-se transformando.

Se pudesses descrever a tua estética visual em três palavras, quais é que seriam e porquê?
Personagem, Cor e Movimento. Não descrevem exatamente a estética, mas foram as palavras que vieram à minha cabeça. Gosto de me focar numa personagem só, duas no máximo, e de contar histórias do ponto de vista dessa personagem. Gosto de a centrar no enquadramento como se esta fosse o centro do mundo, e de certa forma é. Cor, porque as cores também ajudam a contar histórias e passar sentimentos. Não me canso de trabalhar a cor, como uma parte importante de cada trabalho. Por último, movimento. Gosto de coisas lentas, com tempo para respirar mas, ao mesmo tempo, seja na montagem, no enquadramento, na narrativa, também tento sempre chocar de alguma forma o espectador. Dar-lhe algo em que pensar, algo que desperte uma estranheza em quem está a ver.

O universo psicadélico com influências do misticismo de Sintra dos Them Flying Monkeys é algo de único! Como é que começou a vossa relação criativa? Foi difícil transformar as palavras e as sensações deles em vídeo?
Eles queriam mudar um pouco de estilo, neste videoclipe, mas deram-me muita liberdade criativa. Quem me convidou para o projeto foi o André Rijo (Diretor de Fotografia) e trabalhei sempre muito com ele, o videoclipe é tanto dele como meu. A ideia inicial é minha, mas ele esteve sempre presente no desenvolvimento e nas reuniões com a banda. Na primeira reunião que tivemos, com o Luís, discutimos algumas referências musicais e visuais também, acho que estávamos muito na mesma onda. A partir daí, eles acompanharam sempre as evoluções mas nunca fizeram grandes imposições e acabou por ser bastante fácil concretizar a ideia. Demorámos algum tempo até encontrar as situações certas, para os momentos certos, da música e a banda acabou por ajudar nisso.
A música dos Them Flying Monkeys tem o tal misticismo que falaram e acho que isso ajuda muito à criação de imagens. Têm um mood muito próprio, que nos faz sentir qualquer coisa e não é difícil transformar isso em vídeo, o difícil é talvez tentar descodificar esses sentimentos e criar uma história a partir dos mesmos.

Qual é que foi ponto de partida para o “When Pigs had Wings” Já tinhas alguma coisa pensada?
Depois de ouvir a música, tinha muitas imagens na cabeça mas não as conseguia conjugar. Acabei por prestar mais atenção à letra e ao título e foi daí que veio a ideia. Era uma ideia simples, os porcos voam por isso toda a gente parou a olhar para eles, as duas personagens divertem-se e apaixonam-se neste mundo só deles. E dos Them Flying Monkeys.

Algum conselho para jovens realizadores que estão agora a começar? Projectos futuros?
Eu próprio sou um jovem realizador, ainda a começar. Eu diria para serem criativos, não terem medo de errar, para fazerem e arriscarem. Mesmo quando as coisas correm mal há sempre algo de bom para retirar da experiência. Quanto a projetos futuros, ando a acabar de escrever duas curtas e à espera da melhor oportunidade para as realizar. Videoclipes, infelizmente, não tenho nenhum planeado.

Punch Redação