A rebentação das ondas em Oeiras trouxe consigo os SEASE, que deram à costa para nos mostrar que o trip-hop também tem lugar em terras lusitanas. SEASE resulta da combinação das palavras “sea” e “ease”, ou não fosse o mar uma inspiração transversal aos três protagonistas deste projecto. Se dúvidas houvessem, os nomes dos seus álbuns acabariam por esclarecer. Ora vejam.

When Lost At The Ocean, A Fellow Comes Out é o EP de estreia, que lançam depois de se terem conhecido, anos antes, no Cais do Sodré. Miguel Laureano, Rita Navarro e Gonçalo Vasconcelos aproveitam a primeira faixa, “Sea + Ease (intro)”, para revelarem não só a sua música como a origem do nome da banda. Aqui, os fãs de The XX revisitam, inevitavelmente, o histórico do trio britânico, reconhecendo semelhanças e pontos em comum. No entanto, os temas seguintes provam que os SEASE desenvolveram uma sonoridade própria, que vai muito para além de qualquer inspiração que possam ter. Em “Alone together” a voz de Inês Laranjeira junta-se à da vocalista Rita Navarro, para um contraste e harmonia incrivelmente perfeitos. A combinação das vozes resulta tão bem que a vontade é de a voltar a encontrar enquanto navegamos pelas faixas seguintes. “Shipwrecks” tem uma dinâmica totalmente diferente das anteriores, com a voz de Rita a protagonizar o tema. Na canção número três reconhecemos nos SEASE o experimentalismo e a sede de inovar, característicos de uma banda que acaba de se estrear. Já no quarto tema do disco, a sensualidade da voz de Rita é apenas ultrapassada pela inteligência dos pormenores melódicos, como o som do mar que ouvimos numa segunda camada. Apesar de intitulada de “We sunk”, a faixa parece-nos chegar a bom porto. O EP termina com “Antigua”, que recupera a energia positiva do trio de Oeiras e nos deixa com vontade de ir para a pista de dança enquanto aguardamos novos lançamentos!

Em Maio de 2017 a banda partilha connosco o primeiro longa duração, vincando o estilo e caminho que querem tomar. The Way The Waves Hit The Beach é a continuação do projecto de electrónica iniciado em 2013. Chega-nos igualmente minimalista mas mais maduro e complexo. “The Ax” inicia o disco com a pujança necessária a este regresso por que os fãs ansiavam. O cartão de visita do LP sugere aquilo que as restantes faixas confirmam: uma determinação que outrora estava ofuscada pela timidez de quem está a iniciar o seu percurso.  Destaque para “Atman”, o single de apresentação do álbum que, embora possa não ser o mais marcante e viciante, deixa notória a evolução em termos de produção e composição. Efectivamente, em The Way The Waves Hit The Beach cada elemento respira, tem o seu espaço e tempo, e resulta tanto individualmente como no conjunto. Em “Drivers” e “Olokún” apaixonamo-nos pelo piano que marca e conduz cada uma das canções de uma forma sublime. Por outro lado, as cordas protagonizam um momento muito especial em “Peugeot Azul” e introduzem “Beacon” de uma maneira tão bonita que não conseguimos mais esquecer aqueles acordes.

Movido por uma calma e serenidade que transporta para a sua música, o trio editou, este ano, um novo EP que funciona quase como uma extensão do álbum anterior. Wave Motion é composto por três músicas bastante diferentes mas que resumem o cenário musical a que os SEASE nos habituaram. O disco começa com “Santori”, claramente influenciada pelo ritmo e linguagem do jazz e soul. A segunda faixa, “Manta”, destaca-se pela ausência de letra. Porém, recorre a harmonias vocais que dançam ao som da música durante pouco mais de um minuto, num momento romântico que todos querem guardar. O ritmo mais agitado de “Onda”, o single de apresentação do EP, contrasta com o anterior e confere-lhe uma energia diferente. No entanto, a ideia de fragilidade é comum e toca ambos os temas.

De facto, as canções dos SEASE parecem ter uma fragilidade inerente, na medida em que tudo nos parece exposto de uma forma muito sincera e crua. Ainda assim, há uma espécie de determinação e força que são transmitidas para a música, que fazem com que temas como a perda, o amor, a expectativa e a saudade sejam aqui descritos de um modo leve e natural, que aconchega e não pune, que tranquiliza e não entristece. Como o mar, a música dos SEASE é tão bonita quanto nós estamos dispostos a explorar e reparar.

Francisca de Castro Lousada