Relatos acerca da minha partida foram sobejamente exagerados. Estará o rock morto? Desde a morte de Kurt Cobain que esta pergunta é feita. Ao princípio era só um pensamento agoirente, em seguida era apenas murmurado e por fim é dito e repetido, vezes sem conta. Para os fãs mais acérrimos, o rock nunca passará de moda nem mudará de forma. Para os ouvintes ocasionais, soa datado e aborrecido, parado no tempo há mais anos do que muitos têm de vida. A verdade é que está, de facto, morto. Mas está ao mesmo tempo vivo, qual gato de Schrödinger musical. Devaneios científicos à parte, como pode algo estar ao mesmo tempo vivo e morto? É em Madeira, quarto longa duração dos PAUS, que está a resposta.

Com a proliferação da piratia primeiro, e das plataformas digitais depois, as comportas da música mundial foram abertas para jamais tornarem a ser fechadas. Desta democratização da primeira arte houve um crescimento na cultura musical geral, aumento a exposição do simples mortal a todo uma panóplia de facetas e géneros. Sem sombra de dúvida, o rock de verso refrão verso refrão, com os seus três acordes e instrumentos, está morto e enterrado. Mesmo as bandas mais saudosistas e revivalistas, adoptam (e bem!) novas sonoridades e instrumentações, oferencendo um produto vintage, feito com técnicas modernas. Contudo, o rock está bem e recomenda-se, pois há bandas que nunca deixaram de desafiar o normal e, para felicidade dos fãs nacionais, uma delas mora aqui no burgo. Madeira, gravado na íntegra no estúdio HAUS em Santa Apolónia, é uma extensão do universo sónico da banda, que aposta nos pontos onde ela sempre foi forte, experimentações várias e díspares.

Se Clarão é assumido pela banda como o seu álbum mais matemático, Madeira será um dos mais alternativos, com um psicadelismo quase tropical, que paira ao longo dos pouco mais de trinta minutos, ancorado pela instrumentação musculada que sempre os caracterizou. Apesar de composto na sua totalidade em solo continental, é inegável que algum ritmo ou nuance insular sangrou para o resultado final. “970 Espadas” e “Sebo na Estrada” têm teclas e batidas que lembram terras africanas ou sul-americanas, para logo darem uma volta de cento e oitenta graus, até a um rock de viagem, com tanto de progressista como de banda de jam. “L123″, “Madeira” e “A Mutante” são os temas que vão deixar os fãs de rock mais directo mais satisfeitos, mas mesmo estas canções têm camadas e texturas complicadas e densas, que deixarão os ouvintes mais curiosos a rodar o disco vezes e vezes sem conta. Por esta altura do campeonato, os PAUS são das bandas mais reconhecidas em território nacional, e com um respeitável impacto além fronteiras, destacando-se pela sua irreverência e vontade, ou mesmo, necessidade de arriscar, riscar e começar de novo.

Depois da participação, e vitória, no último Red Bull Culture Clash, dividindo o palco com os rappers Holly Hood e Mike el Nite, estes quatro veteranos da música nacional continuam a desbravar caminho e a desafiar constantemente o que está a ser feito dentro do rock e mais além. Resta-nos aproveitar tudo o que novo trabalho traz com ele (músicas, vídeos, documentário a estrear dia 22 de Abril na RTP2) e tentar apanhá-los ao vivo, porque se isto soa bem confinado e limitado dentro de um estúdio, os resultados ao vivo serão certamente ainda mais épicos.

Nota: 8.3/10

Nuno Camisa