À frente das portas de todos os clubes do Cais do Sodré, umas pessoas com pulseiras amarelas pareciam estar a fazer fila. O que estava a acontecer na pink street? Era a edição deste ano do MIL – o festival Lisbon International Music Network. Estes três dias cheios em musica tiveram como objetivo ligar artistas nacionais e internacionais, e a programação deste ano foi prova de que o talento não conhece fronteiras. Da Bélgica ao Luxemburgo e até o Brasil, vimos e ouvimos algumas músicas incríveis durante estes três dias. Fiquem com o diário do nosso roteiro, que em poucas palavras podemos descrever como incansável e frenético.

Dia 4 – Dois continentes a mil, juntos pela música

Eram quase 22h00. O B’leza começava a encher-se de caras conhecidas e fãs das várias bandas que iam atuar. Uns começaram a noite a pedir um copo, outros juntaram-se em grupos e aproveitaram para meter a conversa em dia. Os fãs mais acérrimos começaram, desde logo, a invadir a frente do palco. Sentia-se o espírito de festa e alegria no ar. O concerto atrasou-se. Eram 22h30 quando Benke Ferraz, guitarrista da banda Boogarins, se chegou à frente para apresentar uma espécie de documentário, realizado pela Ana Viotti, uma das fotógrafas do festival. O projeto foi composto para mostrar a semana de ensaios da banda – uma espécie de making-of que serviu para aquecer os corações do público ali presente. A banda subiu ao palco quinze minutos depois e rapidamente se moldou ao ambiente. Com dois microfones só para ele, Fernando “Dinho” Almeida atraía as atenções do público. Mas não estava só. O baterista, Hans Castro, também merecia o olhar de quem assistia às suas agitadas batidas. Benke apoderou-se do poder da sua guitarra, enquanto Raphael Vaz estava no contrabaixo e, por vezes, no sintetizador. Depois de várias músicas tocadas pela banda brasileira, chegava a hora de os artistas portugueses se juntarem.

Trilogia MIL - Dia 4 – Dois continentes a mil, juntos pela música

O palco parecia pequeno para tanto talento. Os primeiros a subir foram os Capitão Fausto. Por perto de Fernando, ficaram Tomás e Manuel –  vocalista e guitarrista da banda portuguesa. Por sua vez, o “capitão” Francisco juntou-se com as teclas, ao lado do Benke, e o “capitão” Salvador por perto de Hans. Durante 15 minutos viveu-se o bom do psicadelismo. Após a sedução desta banda, foi a vez dos Paus mostrarem o que valem. Falar destes quatro artistas – Hélio Morais, Quim Albergaria, Makoto Yagyu e Fábio Jevelim – é falar de energia. Foram minutos intensos. Makoto, com a sua firmeza no baixo, criou um ambiente apoteótico que fará o público lembrar-se deste grande momento. Por fim, só restava mais um, mas não menos importante, bem pelo contrário. Do meio do público, onde sempre esteve durante os concertos dos seus colegas, saltou para o palco, não fosse ele o tão reconhecido como “homem-tigre”. Foi a Paulo Furtado – The Legendary Tigerman – que calhou o último trunfo. Com a sua guitarra ao peito, trouxe o que de melhor saber fazer – arrasar com o rock’n'roll.

Já no final, e para terminar como devia ser, os Boogarins tocaram a “Onda Negra”, do álbum editado em junho de 2017 – Lá Vem a Morte. A luz do palco apagou e o público aplaudiu sem medo…

Dia 5 – De Espanha à Bélgica

O sol mal se punha quando uma pequena multidão se começou a reunir à frente do Tokyo. Estávamos todos ali para ver a talentosa jovem espanhola Núria Graham. Aos 21 anos, ela já tem quatro álbuns e ali estava para nos mostrar quão talentosa é. O clube estava cheio, literalmente! Ao cabo de dez minutos, ninguém mais teve a autorização para entrar no espaço. Todos ficam hipnotizados pelo controlo e pela precisão da voz desta pequena mulher. Apesar de uma guitarra teimosa, Núria fez um concerto maravilhoso. A rendição do indie está claramente em boas mãos. Continuámos com mais música espanhola. O Sabotage ofereceu o seu palco à banda Candeleros. De repente, estávamos todos nas Caraíbas a dançar cumbia. O público movia-se com os ritmos das percussões elétricas e dos sons afro-caribenhos. O palco mal tinha espaço suficiente para hospedar os seis membros da banda e os seus instrumentos, e a situação era a mesma com o clube, que estava então completamente preenchido por uma multidão feliz. Passámos nesse momento para o país vizinho – o nosso país. O Europa foi palco de uma das bandas mais aclamadas do rock’n'rollThe Poppers são um quarteto lisboeta que se destaca pelo seu power. Com doses de suor e atitude, o vocalista – Luís Raimundo – impressionou o seu público. Nada melhor do que umas guitarradas bem tocadas no meio da pista para colocar toda a gente a mexer. Já no final, Luís convidou os seus fãs a juntarem-se à banda e tocar guitarra. Marcou um dos momentos da noite.

Depois de um jantar express, já havia fila no Musicbox para ver o dueto local favorito: Best Youth. A energia no ar era elétrica. Fácil era, também, perceber que a capital estava com saudades deste dueto do Porto. O Musicbox estava cheio ao máximo. A setlist estava maravilhosamente organizada, misturando músicas que a sala cantava em uníssono, mas também foram incorporando o single mais recente, “Midnight Rain”. O público pedia por mais, mas o tempo era curto. Este momento, compartilhado ao vivo, estava lá apenas para reforçar o entusiasmo com o novo álbum, que será lançado no final deste ano. Dum herói nacional para o outro, saímos então da pink street para nos aproximarmos da ribeira. No B’Leza, Moullinex e os acólitos estavam à nossa espera. O show HYPERSEX é uma carta de amor coletiva para a cultura do clubbing. O pequeno espaço, com vista para o Tejo, não poderia ser um melhor anfitrião. Nesta sala, todos podiam ser quem mais queriam, porque ninguém ali estava para julgar. Este espaço mostrou-se um espaço livre. E assim a multidão dança, e a música deu-nos novamente um pouco de esperança.

Trilogia MIL - Dia 5 – De Espanha à Bélgica

O seu nome já é facilmente reconhecido, quer em Coimbra, quer em Lisboa, quer além-fronteiras. Com um álbum ainda “quentinho” – Misfit –, Paulo Furtado pisou o palco do Musicbox para oferecer o melhor do rock’n'roll – música que pôs toda a gente a cantar.  The Legendary Tigerman  contagia tudo o que está ao seu redor com a energia e presença que deixa em palco. Após “Black Hole”, “The Saddest Girl On Earth”, “Child of Lust”, “Naked Blues” e até a gloriosa “Motorcycle Boy”, Tigerman saltou do palco para a pista e da pista para o balcão do bar. A euforia fazia-se sentir. Mas, quando todos pensavam que este “homem tigre” já tinha dado tudo, ele voltou a surpreender ao tirar a sua bota e fazer dela um microfone. Já passava da meia-noite quando Le Motel – o novo pequeno protegido da cena eletrónica belga – chegou ao Musicbox para fechar o primeiro dia do festival. Apenas duas horas antes, o público dançava junto aos lentos e sensuais Best Youth, mas este festival tem possibilidades infinitas. Agora, e no mesmo lugar, a multidão dançava com batidas eletrónicas rápidas – que se prolongariam até ao final da noite.

Também à meia noite, os The Zephyr Bones tocavam melodias psicadélicas. A banda foi uma das grandes surpresas de Espanha e esteve no MIL para terminar o primeiro dia de concertos do Sabotage. O início surpreendeu negativamente a banda – a corda da guitarra de Brian partiu-se e obrigou-o a perguntar ao público se alguém tinha outra. No entanto, nada impediu a banda de continuar a tocar. Rapidamente voltaram aos seus lugares para mostrar o que andaram a programar ao longo do último ano. Músicas como “Hurricanes”, “Juglar Child on the Carousel”, “I’ve lost my dinosaur” e “Secret Place” fizeram parte da setlist do quarteto espanhol.

Dia 6 – Passando por Portugal até à França

O terceiro dia começou no mesmo local, à mesma hora – mas desta vez para ver uma artista bem portuguesa. O Tokyo estava novamento cheio para ouvir Monday. A banda acabou de lançar One, o primeiro álbum, que é uma peça incrível. Tocaram algumas das suas próprias músicas, para prazer do público, e até nos agraciaram com uma pièce de résistance: um cover de “Love On The Brain”, de Rihanna – que confirma o poder da voz de Cat, a vocalista. O futuro da banda está assegurado, com toda a certeza. O itinerário seguiu o do dia anterior. No Sabotage, havia então garage-punk local. Fugly, a banda do Porto, fez-nos querer balançar a cabeça de trás para frente. A energia no palco era contagiante e todos acompanham depressa a pedalada. O concerto ficou marcado por dois momentos – um do público e outro da banda. Os fãs destes rapazes aproveitaram a adrenalina que se fazia sentir e rapidamente se juntaram para um mosh.  Pedro Feio – o vocalista – entrou no jogo e, num tom de brincadeira, afirmou que se seguia uma balada mais calma. Minutos depois, a banda saiu palco fora e atirou-se para a pista. O público involuntariamente colou-se logo em forma de círculo.

Sem tempo nem para uma pausa, houve que comer a caminho do Lounge. Provavelmente o local mais afastado dos restantes espaços, e o mais pequeno de todos. Por outro lado, pequena não é um adjetivo que usaríamos para descrever a cantora brasileira LaBaq. Com as suas músicas suaves, e nesse espaço acolhedor e de luz ténue, revelou-se a melhor continuação para recuparar forças depois dos Fugly. Ainda que as músicas dela sejam calmas, são também poderosas. LaBaq usou a sua voz para lembrar Marielle Franco, uma ativista brasileira assassinada no Rio de Janeiro no mês passado. A música foi mais do que apenas som, foi também é política. Depois da saída do Lounge, o caminho foi à direita. Dois minutos depois, lá estava o Rive Rouge. Foi aí que Luís Severo atuou. O cantautor também já dispensa apresentações. Saiu do backstage sem que ninguém desse por ele e, rapidamente, de guitarra na mão, estava ao pé do público a cantar pausadamente – sem microfone. Aos poucos, aproximou-se do palco, onde tinha o piano. A poesia começou a ganhar força e as canções emotivas levaram a muitos beijos apaixonados. Já no Viking, assumiu-se a solo Sean Riley. Com identidade própria, o cantor começou por escrever sozinho as suas canções. Afonso Rodrigues faz também parte de outras bandas, como os Keep Razors Sharp, mas desta vez apresentou-se a solo. O concerto intimista contou com a presença dos seus grandes e conhecidos amigos – Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) , Luís Raimundo (The Poppers) e Miguel Ângelo (Delfins).

Trilogia MIL - Dia 6 – Passando por Portugal até à França

Quase ao lado, no Musicbox, atuavam os Mighty Sands. A banda portuguesa nasceu de um amor entre dois dos elementos, mas transformou-se num coletivo. O psicadelismo rock é agora evidenciado. Com dois EPs editados – Big Pink Vol.1 e Big Pink Vol.2 –, a banda é feita de sonho e romantismo. Ao se despedir do público, André Chaby Mendonça – vocalista e guitarrista – puxou pela sua banda e o espetáculo terminou com os sons frenéticos da sua guitarra, baixo e bateria. De volta para onde começámos, mal encontrámos espaço no Tokyo para ver mais uma banda portuguesa. Desta vez, estávamos ali para os Whales. Vindos do Porto, com as suas batidas muito eletrónicas, misturadas com vocais fortes, a banda assegurou sua posição como one-to-watch. Voltando ao Musicbox, o público esperava pelos Keep Razors Sharp. A banda, composta por Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate), estava prestes a deixar o seu público cheio de entusiasmo. A sua presença em palco e a sua energia não passaram despercebidas. Desde “9th”– primeira música tocada – até “Africa On Ice” – última –, o percurso foi intenso e nunca indiferente. O concerto terminou com fortes guitarradas e um poderoso aplauso.

Os dois últimos grupos do festival levaram-nos a França, com os Naive New Beaters e seus uniformes, no Sabotage, e Futuro Pelo e a sua funky vibe, no Musicbox. Os Naive New Beaters têm uma presença impressionante em palco. O cabelo do cantor não pára quieto. A baixista, que estava a dar o primeiro concerto com a banda, revelou-se magnífica e é dona de uma voz que complementa muito bem a do vocalista. E, além de tudo isto, a maravilhosa baterista dava tudo para garantir que ninguém na sala se esqueceria tão cedo destes franceses. E, sem ver o tempo passar, estávamos agora no último ato do festival. O Futuro Pelo estava ali para nos fazer saltar directamente para o clima de verão. O som é up beat e feliz; só dá vontade de ir beber uma margarita à beira da piscina. Que final lindo, para um festival maravilhoso…

Reportagem
Dia 4: Liliana Gonçalves
Dia 5 e 6: Alexandra Agostinho e Liliana Gonçalves

Foto-reportagem: Alexandra Agostinho, Marcos Torres e Liliana Gonçalves
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