Por onde começar neste mais recente trabalho de um dos rappers mais singulares da praça? Como resumir, nuns curtos parágrafos, o trabalho de dias, meses, anos (?), de um dos mais obcecados perfeccionistas da música em Portugal? Será justo dar uma opinião, que por muito bem intencionada, nunca será completamente objectiva e informada, de um dos artistas que mais reverência e seguidores fiéis mobiliza? É impossível identificar todas as referências, alusões, imagens e provocações feitas ao longo deste curta duração, pois, assim é Nerve, denso ou directo, intenso ou simples, erudito ou vernacular.

Auto-Sabotagem é o mais recente trabalho lançado por Tiago Gonçalves, vulgo Nerve. É o seu terceiro trabalho de curta duração e, sem contar com aparições em projectos escolhidos a dedo, o primeiro trabalho desde o marco na música em português, que é Trabalho e Conhaque Ou A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança. Objectivamente, as temáticas são constantes ao longo de uma carreira que conta já com mais de dez anos. Paranóia, dúvida, esquizofrenia e psicose, diferentes sentimentos e emoções de um artista que nunca se inibiu de explorar as facetas mais negras da psique humana. O jogo de palavras e as metáforas a dois, três níveis, mantêm-se, assim como os seus ataques à massificação e simplificação da palavra no hip hop. Será Nerve o salvador desta vertente mais poética do género, um salvador da lírica, decidido a quebrar barreiras? Não, nem por sombras. “Gasto no que gosto a saliva, sem me pesar nos bolsos a guita.”

É cada vez maior o distanciamento de Nerve para a cena hip hop actual. Fã assumido da Def Jux, é, tal como a editora de El-P, ferozmente independente, tendo escrito, produzido, gravado, misturado e ilustrado todo este EP, com a breve ajuda de outros dois forasteiros, alheios aos hits e views, Notwan e Dwarf. O Mestre André, talvez o mais antigo colaborador de Tiago Gonçalves, toca saxofone em qautro temas, conferindo um véu acústico inebriante, confundindo ainda mais o ouvinte nesta descida a cantos mais recônditos. A Dwarf coube a masterização, a árdua tarefa, que é iguais doses ciência e arte negra, de limar e polir arestas, sem nunca perder a tónica dominante do trabalho.

Este trabalho, apesar de curto, e claramente uma antevisão para o próximo longa duração, é de certa forma semelhante àquilo que Água do Bongo foi para Trabalho e Conhaque Ou A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança, não deixa de ter novidades, ou antes evolução na génese do rapper de Abrantes. A teatralidade, quase declamação de “Loba” traz à memória um solilóquio shakespeariano ou um poema pessoano, com a sua rejeição de valores vazios de arte e conteúdo. A agressividade que lança a outros artistas é também mais cerebral, embora mais cruel e sádica, denotando uma maior maturidade e confiança (certeza?) em cada um dos seus versos, rimas, palavras.

É inútil e redutor tentar avaliar um trabalho pertencente a uma obra tão rica, cuidada e densa como a de Nerve. Dá ideia que, a cada tema, ele se destaca mais de tudo o que já foi feito na língua de Camões, estando agora apenas a competir consigo mesmo. Tal como qualquer um dos anteriores, resta-nos apenas ouvir, ler, reler, dissecar e conjecturar, o significado e objectivo de cada sílaba em Auto-Sabotagem. “Eu só vim visitar p’ra, crescer e multiplicar buzz, e sim, para toda a família, unida, a descobrir e citar e descodificar Nerve.”

Nota: 666

Nuno Camisa

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