O rock de Filipe Sambado tem simbolismo, tem mensagem e tem poder. Sem grandes artifícios o jovem músico de Lisboa dá-nos um segundo álbum, Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo, muito cru e autêntico. É difícil ter uma voz verdadeiramente independente, mas Sambado mostra que consegue expor as suas ideias e fazer músicas com personalidade. Concorde-se ou não com ele, este é um álbum coeso.

Nasceu em Lisboa e cresceu em Lagos,  no Algarve. Aí despertou o seu lado mais artístico, começou com amigos no meio do hip-pop e também fez teatro. Posteriormente, veio para Lisboa estudar dramaturgia, mas desistiu a meio, acabando por estudar som. O lado mais cénico da sua persona vem daí, do teatro. Ao vermos as suas fotografias, na capa do álbum ou nas redes sociais, percebemos que está ali algo mais do que um jovem que faz música. Há camadas por serem descobertas e cada música é uma nova história, uma personagem que se revela aos poucos. Se formos ouvir os três EPs e o álbum que saíram até 2016, o cantautor sempre teve um lado mais lo-fi. Neste novo trabalho faz canções com mais qualidade, mas não quer deixar esse passado musical recente para trás. Essa é uma das suas características. Na música “Onda” mantém esse espírito punk-rock. Um tema para dançar, com energia e muito directo, que é uma das melhores canções do álbum.

Uma das mensagens mais fortes deste Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo está relacionado com a igualdade de género. Isso é algo que Filipe Sambado encara na sua música e no seu dia-a-dia. As duas músicas que abordam esse tema são: “Deixem lá” e “Indumentária”. No primeiro tema refere o seguinte, “Se eu parecer uma mulher / O que é que isso quer dizer / Visto sempre o que quiser / Dê lá por onde der”. Ter um lado feminino mais visível foi algo que o músico já referiu publicamente e não esconde. No segundo tema, “Indumentária” expõe esse seu lado e tenta ser provocador. Ele canta, “Gosto de vestir saia, pintar os olhos e a boca”.

Uma coisa é certa, Sambado não deixa ninguém indiferente. A sua mensagem, que pode em certa medida não agradar a todos, sobretudo a mentes menos abertas, é um statement forte. Se há algo de que não podemos acusar este artista é de ter uma mensagem vazia. Ele representa o cidadão urbano, homem livre de complexos. Talvez não crie uma legião de fãs para já. Ele não é uma personagem consensual, muito ao estilo do Ney Matogrosso, mas esse é talvez o seu maior atributo. Filipe Sambado é um artista independente e começa aqui a construir o seu caminho.

Nota: 8.0/10

Rodrigo Castro