Tido internacionalmente como o grande símbolo musical português, o Fado é cada vez mais uma das principais exportações e produto de referência nacional. Cantado por vozes graves e sóbrias, ou exaltadas e sofridas, acompanhado por guitarras e vinho tinto, os sacramentos deste género são conhecidos de todos. Salvo discussões sobre a sua origem, há uma linha dura que raramente é esticada.

Contudo, será o Fado um género imutável, apenas permeável a ligeiras variações consoante o intérprete? Ou será ele uma língua viva e mais do que um estilo musical, um estado de espírito, uma declamação ao destino, qual catarse sónica? Se os dogmas são para respeitar e o status quo inviolável, alguém se esqueceu de avisar Pedro Mafama. Neste novo EP, Tanto Sal, o cantor traz a versão 2.0 do seu Novo Fado. Crescendo sobre as bases que estabeleceu no primeiro trabalho, Tanto Sal é mais maduro e consistente.

A batida é algo entre um afrofuturismo misturado com trap, enquanto o auto-tune envolve toda e qualquer palavra proferida. A dimensão musical desenha cenários urbanos e actuais, enquanto as letras falam de problemas contemporâneos. “SAL”, com os seus devaneios hedonistas, e “JAZIGO”, com os seus lamentos, retratam temas comuns a qualquer fadista, ou ser humano no geral. Farra, mágoa, ociosidade e excessos. Os tempos e os locais mudam, as pessoas e os sentimentos não. Mafama continua a expandir este seu universo de trap com funaná, fado com kuduro, e tem, neste seu último trabalho, temas que não vão deixar ninguém indiferente.

Um curta duração que soa a Verão, com tudo o de bom, e menos bom, com ele vem.

Nota: 7.6

Nuno Camisa