Não acredito que os Arctic Monkeys, nos dez anos de carreira que se estenderam entre 2005 e 2015, alguma vez tenham tido tempo para parar para pensar. Não digo que os cinco álbuns lançados nesse período, desde Whatever People Say That I Am, That’s What I Am Not até ao AM, tenham sido fruto absoluto da inconsequência e urgência criativa — até porque a jogada comercial que foi AM pareceu-me ter muita estratégia por trás (eu também quereria ser gigante nos States, se tivesse essa oportunidade). Mas, no frenesim que foi a sua carreira nesse período — não estiveram mais de dois anos sem lançar um álbum —, tenho dúvidas que tenha havido tempo para olharem de fora para para tudo aquilo que construíram e para tudo o que se passava à sua volta. Vamos por partes.

Em Janeiro de 2006, aquando do lançamento do seu disco de estreia, a música alternativa era dominada pelo indie rock dos Strokes, Libertines, Interpol, Yeah Yeah Yeahs, etc., e os Arctic Monkeys vieram enquadrar-se perfeitamente numa cena à qual sempre quiseram pertencer — como comprova o próprio Alex Turner no primeiro verso do novo disco: “I just wanted to be one of The Strokes”.

No entanto, enquanto à volta deles tudo mudava, os Arctic Monkeys mantiveram-se praticamente os mesmos. Sim, o Humbug levou-os ao deserto californiano e tornou-os mais dark e agressivos. O Suck It And See fê-los olhar para o amor de outra forma e cantá-lo sobre a perspectiva de terceiros — basta ouvir as histórias de “Love is a Laserquest” ou “Piledriver Waltz”. O AM viu-os abraçarem o rock de estádio e as batidas hip-hop. Mas em todo este caminho, na sua essência, a banda de Sheffield esteve sempre lá.

Entre os 16 e os 26 anos, Alex Turner, Jamie Cook, Nick O’Malley e Matt Helders tornaram-se na maior banda rock da sua geração — com uma pequena ajuda dos Strokes, que perceberam rapidamente que o sucesso não era para eles, e dos Arcade Fire, que não conseguiram manter a qualidade do seu disco de estreia nos lançamentos que se seguiram — sem terem tido tempo para, na sua ingenuidade juvenil, se aperceberem de tudo o que se estava a passar.

Tranquility Base Hotel & Casino, lançado depois de um hiato de 5 anos, é exactamente isso. Uma introspecção, uma pausa para pensar, uma conversa para dentro.

Tranquility Base Hotel & Casino é o Alex Turner vestido com roupas caras, num bar fancy de um hotel em Los Angeles, a cantar, com toda a confiança, algumas das suas mais inteligentes letras de sempre sem se importar se alguém quer ou não saber.

São 11 canções onde a ficção científica combina na perfeição com o passado. Onde se olha para o futuro enquanto se reflecte sobre tudo aquilo que já se viveu. É uma distopia que nos leva para um lugar onde já nada mais existe para além do narrador daquelas letras que, alheio e indiferente ao vazio à sua volta, as canta como se nada mais importasse.

Em “One Point Perspective”, vemos Alex Turner a divagar sobre a fama enquanto canta “Dancing in my underpants / I’m gonna run for government / I’m gonna form a covers band and all (…) I lost my train of thought”. Em “The Ultrachesse”, reflecte sobre o presente e canta “Still got pictures of you on the wall / I suppose we aren’t really friends anymore”.

Pela primeira vez, a voz de Alex Turner soa-nos familiar mas não têm a mesma capacidade que sempre teve de nos levar para um lugar seguro e confortável. A banda está lá, mas ao mesmo tempo não está. Não é a mesma coisa, não soa à mesma coisa. E esta situação de desconforto, de estarmos no sítio certo à hora errada, acaba por marcar todo o disco e ser a sua principal característica. Os quatro rapazes de Sheffield, agora adultos, param para pensar em tudo o que lhes aconteceu e naquilo em que se tornaram e, para o bem ou para o mal, obrigam-nos a fazer o mesmo.

Independentemente de todas as canções que o compõem, dos arranjos inteligentes e da produção refinada — que ficou, mais uma vez, a cargo do genial James Ford —, o grande trunfo de TBH&C é prender-nos aos devaneios de Alex Turner e conseguir-nos pôr exactamente na mesma posição que ele. Estaremos nós crescidos o suficiente para acalmar também? Para trocar as guitarras pelo piano, os refrães de estádio pelos versos de poesia, as cervejas baratas numa rua do Bairro Alto por um whisky no Foxtrot?

Por muito reconfortante que fosse ouvir “I Bet You Look Good On The Dancefloor” replicada vezes sem conta, numa clara analogia à eterna juventude, os Arctic Monkeys perceberam, primeiro do que os seus fãs, que isso não seria possível.Depois de dez anos a crescer em conjunto, com alguma displicência saudável perante um assunto tão importante, é tempo de pararmos nós também para pensar sobre isso. E entre situações novas e desconfortáveis, constantes viagens ao passado e pressões para que tudo dê certo, agora que estamos conscientes de quem somos e do que nos rodeia, vale a pena recordar um dos mais marcantes versos de todo o disco, pelo meio de todos os inevitáveis devaneios, enquanto apreciamos mais um conjunto de canções por parte dos Arctic Monkeys que, ainda que provavelmente o seu pior esforço até à data, não deixa de ser brilhante: “Take it easy for a little while”.

Guilherme Correia