Nos intervalos das suas outras aventuras musicais, Tiago Brito, a identidade civil por detrás deste recente projecto, sempre se entreteve a compor e a produzir sozinho, apreciando a liberdade e facilidade que as tecnologias hoje oferecem. Através dum mero computador, uma mente criativa pode dar eco aos seus devaneios, até aos mais complexos. Com Casabranca fomos bafejados com a possibilidade de conhecermos estes rasgos individuais, que têm sido publicados a conta-gotas, como que para que sejam sugados segundo a segundos pelos ouvintes à escuta.

Não surpreende que o espectro de Casabranca seja completamente oposto ao das demais aventuras musicais de Tiago Brito. É, aliás, o que normalmente acontece quando um músico avança por um caminho a solo, a par da sua experiência em conjunto. Analisemos individualmente as composições que Casabranca nos apresentou até ao momento. “Estudo do Meio” foi o tema que abriu as portas ao universo Casabranca, e que é de facto uma boa apresentação do projecto. Remete-nos para uns The Whip, embrulhando com uma melodia sons conscientemente toscos que atravessam toda a música, acabando por formar a espinha dorsal da mesma, e fazendo abanar o pezinho de quem ouve.

Já fomos a Manchester ao mencionar The Whip, e no segundo tema voltamos lá, dada a homenagem aos New Order feita no nome do mesmo. “Nova Ordem” é provavelmente o tema mais dançante do lote que conhecemos, com os diferentes ossos da música a juntarem-se progressivamente até ao irresistível esqueleto final, que faz abanar os demais esqueletos. “Ondas Curtas” traz-nos um ritmo mais pausado, mas de batida calórica, populado por imensos efeitos especiais, acabando por tornar-se a faixa mais experimental assinada por Casabranca, daquelas aqui examinadas. Olhando para o título, “Teclas Pretas” faz-nos imediatamente pensar que, depois de “Nova Ordem”, Casabranca decidiu novamente usar o nome de uma banda famosa para baptizar um dos seus temas. Não sabemos se assim foi, e até ouvimos um riff de guitarra que nos relembra Dan Auerbach. Mas são as teclas e os sintetizadores quem acaba por mais cintilar ao longo desta composição, trazendo à baila alguma sonoridade a la Jean-Michel Jarre, por exemplo.

O nome da banda surgiu da admiração pelo trabalho de Julian Casablancas, mas também não há muito do compositor norte-americano aqui, apesar do maior experimentalismo que explora agora a bordo dos Voidz. Não será de espantar que, no final de cada actuação, alguém clame: PLAY IT AGAIN, TIAGO!

Álvaro Graça