A música pop em Portugal viveu de personagens icónicas como José Cid, António Variações, Carlos Paião, as Doce ou até mesmo o Herman José. Estes artistas conseguiram misturar referências várias, usar a língua portuguesa de forma única e trazer uma portugalidade mais viva e alegre. Os anos 80 passaram, vieram os 90 com o rock, o grunge, a música cantada em inglês e uma quase rejeição da língua portuguesa por parte do público mainstrem. A história, o cancioneiro, as lendas vivas estavam lá. Com a viragem do milénio, novas tendências surgiram e a nossa língua e cultura ganharam novo folgo. Através da escrita (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe ou Afonso Cruz), da comédia (Os Gato Fedorento) ou nas artes plásticas (Joana Vasconcelos e Vhils). Mas, sobretudo na música, Diabo na Cruz, Manuel Fúria, Tiago Guilul, Samuel Úria ou B Fachada. São muitos os artistas e as bandas que surgiram desde então. Os Ciclo Preparatório cresceram nesse ambiente a fervilhar de novos acontecimentos, festivais e canções de amor. Cresceram e deram música bonitas para todos dançarem.

Quando os três amigos, João Graça, José Pape e Sebastião Macedo, se juntaram com ajuda e estímulo de Pedro Tróia (Azul Tróia e Os Capitães da Areia) e decidiram criar os Ciclo Preparatório, longe estariam de sonhar onde esta aventura iria chegar. O seu primeiro single foi lançado em 2012, música essa que foi mencionada no CD Novos Talentos Fnac. “Lena Del Rey” abriu as porta para um imaginário pop que cruzava referências e tradições portuguesas, Lena D’Água com musas americanas da pop moderna, Lana Del Rey. São dois mundos que chocam, mas que se conjugam facilmente. Aliás, esta música é eficaz, fica logo no ouvido e fala dos encantos das adolescentes e millennials da nova geração da música portuguesa.

Há dois aspectos que é importante dar relevo nos Ciclo. Primeiro, é uma banda que, apesar fazer música pop, se rege por valores mais tradicionais, mas sempre presentes nas sociedades ocidentais. A tradição, a família ou os bons costumes são a estrutura base de uma banda que não tem medo de esconder quem é. Em segundo lugar, o contraste entre a cidade e o campo. A maneira como se apresentam ou até mesmo o videoclipe do primeiro single, que se passa numa capela de uma antiga quinta burguesa. Isso é tudo relativo a um estrato elevado da sociedade, mas que não fica alheio à cultura popular. Eles têm balanço, fazem músicas para os seus amigos, mas todos reconhecem os seus temas, nem que seja por fazerem referência a músicos e modos do passado.

Em 2013, os Ciclo Preparatório editam o álbum pela NOS Discos, As Viúvas Não Temem a Morte. É um pergaminho que ficou desde então para nos acompanhar no saudosismo de tempos passados ou então para, simplesmente, passar numa festa para pessoas de um certo requinte. O certo é que desse trabalhou saltou uma colaboração com Lena D’Água, o tema “A Volta ao Mundo com Lena D’Água”. Esta colaboração não é de estranhar. O primeiro single já prestava uma homenagem singela. Contudo, nesta volta ao mundo, ficamos a conhecer a verdadeira magia da banda, fazendo uma música que nos leva a sonhar e desejar que todas as cantorias pop cantadas em português fossem assim.

Esta viagem não acaba aqui, há muitas bandas que precisam ser desenterradas, que se foram perdendo no caminho do tempo. O Heróis do Mar são certamente uns heróis que muitas vezes são esquecidos. Os Sétimas Legião ou, até mesmo, os Rádio Macau. Os Ciclo Preparatório não têm a responsabilidade de trazer esses nomes de volta, mas podem dar continuidade a um legado que começou e vai perdurar durante muitas décadas. O pop, o arraial e a tradição vão ter sempre lugar na nossa música. Os Ciclo estão encarregues de nos reavivar a memória.

Rodrigo Castro