15 anos depois do lançamento do primeiro álbum sob o atual nome e dois anos depois do último longa-duração, Painting With, os Animal Collective vieram a Portugal apresentar Sung Tongs, no passado dia 21 de Junho, trazidos diretamente pela Galeria Zé Dos Bois para atuar no cineteatro Capitólio, proporcionando uma casa cheia e muita nostalgia.

Minutos antes da abertura das portas, a ansiedade e expectativa no ar ia aumentando à medida que a entrada no Capitólio ia sendo feita ao som de Eric Copeland, que no interior, como DJ, ia aquecendo a sala ao som de batidas techno fundidas com sonoridades tropicais mas também com pequenas amostras psicadélicas. Tudo isto apenas como warm-up para voos maiores. Pelas 23h, o Capitólio apresentava-se lotado de todas as gerações, prova de que, o que estava para vir, não era um mero concerto mas quase uma adoração à dupla Panda Bear e Avey Tare. Com muita serenidade, ambos entraram num palco ladeado por dois imponentes murais, com formas e imagens bem quentes e coloridas, arrecadando um lugar de destaque na performance visual. Sim, porque estes dois senhores são bem mais complexos do que apenas dois músicos. Com uma guitarra acústica e dois microfones para cada, Noah e David, ou Panda Bear e Avey Tare, apresentaram a versão atualizada de muito fascinante trabalho com mais de uma década.

Guitarras soltas, vozes devidamente alteradas e um timbalão no chão foram os interlocutores de serviço, começando logo a abrir a conversa com “Leaf House”. Este clássico rapidamente preencheu o espaço e os corações dos muitos fãs que, em adoração, se viram transportados pelas vozes num eco místico, oscilando entre um sentimento de paz e de pura energia, que fizeram do Capitólio, ainda que a espaços, uma sala de dança. “Who Could Win a Rabbit”, versão 2018, foi certamente um dos expoentes da noite. Desde a intro que foi feita com recurso ao som de água a correr, até à simplicidade das guitarras acústicas acompanhadas pela arrebatadora fusão de vozes de Noah e David. Escutada de olhos fechados e algumas lágrimas, em jeito de oração, a audiência flutuou por entre acordes e silêncios tão bem calculados que também esses soavam a algo de melódico e de difícil descrição. “The Softest Voice” veio para baixar, ainda mais, o batimento cardíaco e para desacelerar o tempo, permitindo que cada nota e cada respirar fosse experimentado ao máximo, sem pressas.

No Capitólio, um ambiente intenso, retro e introspectivo, com um público bem ciente de que estava a experienciar os Animal Collective no seu mais puro estado, simplista. Sem interromper este ambiente mas aumentando a frequência, chegou, para grande satisfação do público, “We Tigers”. Um tema imortalizado que é dos mais adorados da produção destes dois indivíduos da fria Baltimore. “We Tigers” arrancou muita energia do público, muita dança e ainda foi cantado, em certos momentos, em conjunto com o público, formando um coro de felicidade, cumplicidade e muita descontração num concerto até então, muito íntimo.

Antes dos temas finais, Noah dirigiu-se ao público para expressar gratidão, mas mais do que o habitual, “It means a lot for us, thank you all”, foi uma expressão de afecto genuíno, como se ele próprio tivesse viajado no seu concerto com o público ao invés de o ter apenas proporcionado. Para finalizar, houve ainda “Mouth Wooed Her”. Cantado em coro desde o início, foi este o tema que mais aplausos arrecadou da noite, sendo que também foi o que mais lágrimas fez derramar, certamente estas, de intensa felicidade e alguma perplexidade à mistura. A voz ancestral, que ressoava nas colunas, deixou muito desejo a quem esteve presente, por mais mas, a seguir a este tema, houve só tempo para a calmante e mágica “Prospect Hummer”.

Os Animal Collective despediram-se do Capitólio mas também do público português sob uma enorme salva de aplausos, provando serem uma banda digna, e de, culto. O Capitólio, dançou, chorou, gritou, cantou e dançou um pouco mais, neste que foi um concerto carregado de muito significado e nostalgia como não poderia deixar de ser. Para trás ficam as memórias de um dos mais intensos concertos do ano e o desejo de voltar a encontrar Noah e David em palco.

Texto: Duarte Barreiros
Foto: Vera Marmelo