Neste ano em que o Verão teima em não se afirmar, e as manhãs nos deixam esquecer dos óculos de sol em casa, foi quase sem nos apercebermos que os esgotadíssimos três dias do NOS Alive chegaram. Ainda a tentar esquecer o trabalho deste 12 de Julho, calçámos os ténis e dirigimo-nos até ao nosso querido passeio marítimo de Algés para um dia em que dividíamos as nossas expectativas entre as nossas paixões mais antigas (Nine Inch Nails, Arctic Monkeys) e as mais recentes (Sampha, Jain). As portas abriram-se e nós deixámo-nos levar.

A francesa Jain apresentou-se com o característico macacão azul eléctrico da capa de Soldier (2018), para não correr o risco de não a reconhecermos. Um palco Sagres compostíssimo sugeria a enchente que se preparava para esta noite. Com uma boa disposição contagiante, Jain dá uns ares a Villanelle mas apenas nos tentou matar pelo cansaço, tal era a sua energia em palco. Interagindo com o público entre músicas, recorrendo a expressões como “cool” sempre carimbadas pelo seu sotaque francês, acarinhou bastante o seu mais recente single, “Allright“. O público correspondeu dançando os ritmos electrónicos pincelados de percussões árabes, ritmos africanos e reggae, que podiam perfeitamente caracterizar um fim de noite.

Jain no NOS Alive 2018

No palco NOS, o maior deste festival, Bryan Ferry pautava um concerto muito mais calmo, mas que já acolhia uma respeitável quantidade de público. O ícone dos Roxy Music tem uma carreira com mais de 45 anos, entre bandas, colaborações e álbuns em nome próprio. Clássicos como “‘Slave to Love”, “Avalon” ou “Don’t Stop The Dance” acolheram os refrões mesmo dos mais distraídos até então.

Bryan Ferry no NOS Alive '18

Os Wolf Alice vieram até Lisboa para apresentarem o segundo álbum, Visions of a Life, num palco Sagres em que o público já era obrigado a tomar partido das laterais da tenda. Com o seu rock and roll mais pesado, a sensual vocalista Ellie Rowsell encantava com a sua poderosa voz, arrastando as frases para gáudio dos fãs. Um concerto forte que preparou os festivaleiros para um dos momentos mais aguardados da noite.

Os Nine Inch Nails apresentaram-se a preto e branco nos ecrãs gigantes, mas talvez isso tenha sido apenas um truque para nos prender ainda mais ao que se passava no centro do palco. Esta tão bem guardada confirmação, que só surgiu quando os passes gerais já se encontravam esgotados, reuniu a massa do público para um concerto frenético. Trent Reznor e companhia não deixaram os seus créditos por mãos alheias, afirmando-se por entre os seus mais e menos recentes êxitos. “The Hand That Feeds” surgiu após uma das poucas pausas, enquanto ainda recuperávamos o fôlego, resultando em saltos coordenados por parte do público. O tom de prece de Trent em “Hurt” foi de tal forma comovente que quase nos parou a digestão com o refrão: And you could have it all / My empire of dirt / I will let you down / I will make you hurt. Tememos que a nossa prosa não seja suficiente para descrever quão incrível este concerto foi, por isso ficamo-nos por este par de momentos.

Os Snow Patrol foram os próximos a tomarem conta do palco NOS. O público deste dividia-se entre fãs dedicados e grupos que conversavam enquanto não surgia a “Chasing Cars”, êxito maior duma banda que já ultrapassou os 20 anos de carreira. No palco Sagres, Khalid apelava a um público genericamente mais jovem, alinhado com a sua tenra idade, 19 anos. Ainda que os gritos iniciais nos tenham lembrado um concerto de Ivete (ou de Father John Misty, vá), tal era o fervor das demonstrações de paixão das fãs nas primeiras filas, rapidamente nos conseguimos abstrair perante os ritmos de R & B. O público tinha as letras tão bem decoradas quanto as bailarinas tinham as coreografias, e o norte-americano soube aproveitar isso fazendo a sua voz sobressair a sua voz apenas nos momentos certos, mas dirigindo o microfone ao público com frequência, incitando-o. Enquanto isto acontecia, Paus + Holly Hood tocavam no palco NOS Clubbing, com o seu hip-hop acelerado pelos vídeos vertiginosos que passavam em loop nos ecrãs, confirmando a oferta para diferentes públicos pelo qual prima o NOS Alive.

Khalid no NOS Aive '18
Os Arctic Monkeys (ou simplesmente Monkeys, conforme as luzes do palco pareciam indicar) mantiveram-se bastante fiéis ao mais recente disco, Tranquility Base Hotel & Casino, tanto no alinhamento como nos trajes que apresentavam, extremamente retro (tanto que, mal reparámos que os óculos de Alex Turner eram iguais aos de The Legendary Tigerman passámos a ter dificuldade de dissociar as duas imagens). Este álbum vincou de tal forma o concerto que quase nos pareceram despegados os êxitos anteriores que apresentaram pelo meio, como se o seu tempo estivesse artificialmente mais lento para não destoar. Reconhecemos que ainda nos estamos a habituar a esta nova persona duma banda que nos traz tão boas memórias, mas a massa de público pareceu responder de forma bastante positiva ao concerto dos cabeças de cartaz da primeira noite de festival. A fase final deste concerto trouxe o ritmo mais acelerado que tanto associamos a Arctic Monkeys, aquecendo as almas presentes com o pezinho de dança – I bet that you look good on the dance floor / I don’t know if your looking for romance or / I don’t know what you’re looking for, cantámos, quais jovens inconsequentes. 

O palco Sagres acolheu Sampha no seu primeiro concerto em Lisboa, caracterizado por cores quentes. O artista, reconhecido por colaborações com artistas como The XX, SBTRKT ou Drake, apresentou-nos o seu álbum de estreia, Process, que mescla R & B com electrónica, trazendo Sampha muitas vezes os teclados como adição à sua voz poderosa. Don’t think about it too much, cantava, à medida que o público vindo de Arctic Monkeys preenchia o espaço que ainda restava. Tratou-se de um concerto digno de nota em que nos deixámos seduzir pelos recorrentes falsetes.

Sampha no NOS Alive '18

Estava encerrado o primeiro dia deste festival que nos sabe a casa, tão bem conhecemos os atalhos entre espaços, os truques para ficarmos mais próximos das filas da frente, as expectativas que temos sobre os artistas de cada um dos palcos. O concerto que mais nos ficará na memória será Nine Inch Nails, mas respiramos fundo porque ainda faltam mais dois dias e as memórias tendem a misturar-se, com o tempo. The dream is real, pelo menos por mais dois dias.

Texto: Andreia Duarte
Fotografia: Joana Viana (galeria completa do dia 1 disponível no Facebook)

Nota de rodapé: a Punch esteve nos três dias de NOS Alive ’18! Também podes ler as nossas reportagens do  2º dia (13/Julho, Sexta-Feira) e do 3º (14/Julho, Sábado).

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