Os festivaleiros sabiam muito bem ao que vinham no segundo dia do NOS Alive, nesta sexta-feira 13 que se revelou tudo menos azarenta. O recinto encheu-se relativamente mais cedo, mas nunca esteve em causa o foco do dia: The National e Queens Of The Stone Age. Desconfiamos que, para muitos, estes concertos representavam um reencontro com velhos conhecidos, tão fiéis são os públicos de ambas as bandas, e tão frequentes as presenças delas por cá. E tão, tão, contentes que as bandas pareceram por regressar. Não, este amor não é fiel apenas numa direcção. 

Eels no NOS Alive '18

A tarde começou com Eels, banda onde o cantor Mark Oliver Everett (ou apenas E) se reencontrou, ao longo dos anos. A banda veio apresentar o 12º (!) álbum de estúdio, The Deconstruction, mas o respeitoso público estava presente no palco Sagres não apenas por este. Antes, o público veio por todo o historial de Mark e todas as desgraças que este inclui, que tão bem são exteriorizadas nas músicas dominadas pelas guitarras e a voz rouca do vocalista. Este concerto aconchegou o coração dos atentos presentes.

Do outro lado do recinto, perante o cancelamento dos The Kooks, eram os Blossoms que assumiam ao palco NOS, depois de terem recolhido elogios perante a actuação no palco secundário na edição de 2017. A banda britânica conta com dois álbuns na carteira, o homónimo Blossoms (2016) e Cool Like You (2018). O vocalista, Tom Ogden, parecia-nos partilhar feições com um jovem Alex Turner, mas podíamos estar ainda na ressaca da noite anterior. O concerto foi bastante equilibrado e consistente, mantendo o público interessado ao longo de cerca de uma hora.

Entretanto, começava no palco Sagres o concerto dos experientes Yo La Tengo. A acarinhada banda norte-americana conta com mais de três décadas de carreira e 14 álbuns, mas esta experiência acumulada só trouxe pontos positivos ao concerto deste fim de tarde, onde passaram em revista muitos dos seus êxitos. É sempre interessante ver espelhada em palco a amizade entre o trio, que de forma tranquila transitava entre instrumentos, abdicando da bateria de Georgia nos temas mais calmos. Prometido está um concerto para o próximo ano, em que o álbum mais recente, There’s a riot going on (2015), mais contemplativo e melódico, será o foco principal.

The National no NOS Alive '18
A verdade é que os concertos deste final de tarde serviram principalmente como warm-up para aquilo que a maioria do público que acorreu ao passeio marítimo de Algés mais esperava – as actuações de The National e Queens Of The Stone Age. Falemos dos primeiros. Os The National reúnem uma extensa legião de fãs no nosso país, fiéis, que não se importam (nada!) de os ver duas vezes em menos de um ano, e que apenas se coíbem de passar mais tempo a dançar de olhos fechados porque o que vai acontecendo em palco é demasiado interessante. Se tivéssemos falhado este concerto, talvez ainda nos restassem dúvidas de que esta banda, que tantos demónios transparece nas letras e na forma como são tocados os instrumentos, já é mesmo uma banda de palco principal de festival em pleno direito, mesmo quando o espaço é aberto e se estende por uma área que temos dificuldade em definir com precisão.

Matt Berninger foi o centro das nossas atenções durante a maioria do concerto, cantando muitas vezes de olhos fechados (como em “I need my girl”), interagindo com as video-câmaras como se isso lhe fosse extremamente natural (e talvez até já seja, mas temos dificuldade em acreditar), caminhando de forma irrequieta até às laterais do palco, bebendo, despejando copos para a multidão. Reuniram uma setlist com momentos-chave como os gritos roucos de Matt em “The system only dreams in total darkness” (Boxer, 2007), a muito afinada pelo público “Bloodbuzz Ohio” (High Violet, 2010), o banho de multidão de Matt em “Day I Die” (Sleep Well Beast, 2017). Os primeiros acordes ao piano anunciaram a inconfundível “Fake Empire” (Boxer, 2007), também bastante aclamada pelo público. Para “Mr. November” (Alligator, 2005) estava guardado o momento mais caricato do concerto, que surgiu quando Matt saiu do palco, desafiando o comprimento do cabo do microfone, e foi até ao quiosque da Sagres buscar uma imperial. Sim, o concerto foi muito, muito bom, estes norte-americanos continuam sem nos desiludir.

Tivemos algum tempo para recuperar o fôlego depois do concerto mas, em retrospectiva, claramente não foi suficiente para nos prepararmos para a tempestade de rock and roll que os Queens Of The Stone Age tinham preparada. Neste concerto a banda tocou quase todo o mais recente álbum, Villains (2017), que inclui singles tão fortes que nos parecem ter mais tempo de estrada, como “The Way You Used To Do”. Sem nunca largar a guitarra, Josh Homme alternava entre o seu gingar de cabeça característico e o espicaçar do público entre músicas – repetidos “Are you with me?” traziam de nós o “Yeah!” mais forte que conseguíamos proferir. O público foi incansável e estes norte-americanos apresentaram-se também em óptima forma, o que resultou de forma estrondosa ao longo do concerto. “No one Knows” (Songs for the Deaf, 2002) foi acolhida com suspiros de alegria e teve direito a um incrível solo do baterista, que nos soava a final, mas ainda mereceu mais um refrão. “Obrigado, motherfuckers”, disse-nos Josh ao seu melhor estilo. Nós é que agradecemos.

Surma no NOS Alive '18

Estávamos a precisar de acalmar a nossa pulsação, por isso fomos até ao palco Coreto, onde a pérola portuguesa Surma se apresentava com a sua parafernália de instrumentos, que não cabiam certamente todos na enorme mala de viagem que estava na mesa de apoio. De meias brancas perante a sua mesa forrada com uma toalha de rosas, Surma foi igual a si própria, espalhando simpatia entre os sorrisos e a voz doce, com a qual enfeita as suas melodias criadas com camadas orgânicas, que encaixavam que nem uma luva neste palco. Deixou-se levar num crowd surfing gentil, condicente com a sua música, que a trouxe de volta ao palco de forma suave. Registámos a promessa de que para a próxima toca duas horas – nós vamos estar cá para a ouvir.

Future Islands NOS Alive '18

Estava prestes a começar o concerto de Future Islands no palco Sagres. A icónica banda alternativa, também vinda dos EUA, regressava ao NOS Alive para apresentar The Far Field (2017) mas, mais que isso, para nos lembrar que a noite ainda não tinha acabado e ainda havia boa música para ouvir, dançar e cantar. Samuel T. Herring é extremamente cativante ao vivo, o que torna ainda mais interessantes as músicas que já conhecemos dos álbuns.

Graças à divisão da multidão entre palcos, em Two Door Cinema Club o público do palco NOS descompactou e teve espaço para os passos de dança misturados com saltos a que a música feel good da banda convida. A generalidade das músicas da banda são orelhudas e não nos obrigam a pensar demasiado, portanto eram a receita certa para aquela hora da noite. Dançámos um pouco até que a hora de regressar ao palco Sagres chegou.

CHVRCHES atacaram com “Get Out”, mas nós sentimo-nos mais que convidados a ficar. Apresentando-se qual fada punk, Lauren Mayberry partilhava a maquilhagem exagerada, cheia de glitter, com muitas miúdas presentes. Ficámos estonteados com as suas piruetas infinitas, que coordena de forma surpreendente com os gritos afinados dos refrões. O espectáculo era cénico, e Lauren não era a única responsável – as luzes injectavam a energia das músicas no palco mas também no público, convidando mais uma vez à dança. Em ”Never Say Die” assistimos ao primeiro momento em Lauren parou e inspirou a atmosfera junto ao baterista. Apesar de o trio escocês reconhecer como formação principal Lauren ao centro com dois rapazes atrás, houve um par de músicas em que  Martin Doherty cantou e Lauren tratou do synth, e sentimos que isso resultou bastante bem ao vivo. O concerto acabou já batiam as quatro da manhã e uma das músicas mais antigas estava guardada para próximo do fim – “The Mother We Share” começou praticamente a cappella e com a ajuda do público.

Sexta-feira foi um dia muito intenso, com muitos concertos diferentes. Agora que parámos para pensar, percebemos porque é que no dia seguinte ainda acordámos cansados, tantas tinham sido as emoções sentidas, as músicas cantadas, os saltos, as danças. Revemos velhos amigos com The National, ficámos ainda mais fãs de Queens Of The Stone Age, e tivemos ainda, qual bónus, CHVRCHES, Future Islands, Eels e Surma. Foi um dia e tanto!

Texto: Andreia Duarte
Fotografia: Joana Viana
 (galeria completa do dia 2 disponível no Facebook)

Nota de rodapé: a Punch esteve nos três dias de NOS Alive! Também podes ler as nossas reportagens do 1º dia (12/Julho, Quinta-Feira) e do 3º (14/Julho, Sábado).

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