A aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar, é parecida com muitas outras aldeias de Portugal. Contudo, o festival Bons Sons muda o cenário deste espaço rural durante uns dias. A aldeia transforma-se num arraial para os vários artistas portugueses mostrarem o que se faz de melhor na música em Portugal, seja rock,  pop, electrónica ou música mais tradicional. O ambiente, o espaço e o espírito da aldeia é que fazem deste festival algo único.

Este ano deu-se o caso do meu grupo de amigos decidir ir ao Bons Sons e acampar por lá durante os quatro dias. Já fomos a outros festivais juntos, mas nunca acampámos. Hoje trago-vos a história das nossas férias por lá. Partimos seis no dia 9 de Agosto, quinta-feira, de Lisboa. O sétimo elemento, juntou-se a nós no dia 11.

Fizemos algumas compras antes de partir e chegámos a Cem Soldos logo a seguir ao almoço, dois de nós. Assim que estacionámos, fomos tratar das nossas pulseiras e, daí, directos ao campismo. Quando lá chegámos, percebemos que as melhores zonas já estavam ocupadas, e tivemos de procurar um pouco para perceber qual seria o melhor local para montarmos as tendas. Andámos um pouco e, já longe da entrada e da zona das casas de banho e dos chuveiros, encontrámos um local vazio e bom dentro do possível. Entretanto os nossos amigos chegaram, montámos tudo, mas sem a certeza se iríamos ter muito sol a bater nas tendas de manhã ou não.  Sem grandes medos fomos para o festival e carregámos as nossas pulseiras com dinheiro. Quase todos pagamentos dentro do recinto funcionavam com a pulseira, os preços do festival eram acessíveis e havia muitas opções.

O primeiro concerto que assistimos foi dos Jerónimo no palco Giacometti. Este palco é o sitio perfeito para assistir a um concerto ao fim da tarde e sente-se a verdadeira vibração da aldeia, com um restaurante ali ao lado e com as pessoas a assistirem aos concertos dentro das suas casas ou à janela. De seguida fomos ver os The Lemon Lovers no palco Zeca Afonso. O rock alternativo da banda do Porto é fácil de gostar, dá para dançar e há um certa leveza na sua musicalidade.

A noite ainda nos reservava grandes concertos, como era o caso de Salvador Sobral. O vencedor do festival da Eurovisão cantou no palco Lopes-Graça, mesmo no centro da aldeia. Foi a primeira vez que ouvi o Salvador ao vivo. Ele fez-se acompanhar de uma banda, onde se destaca o nome do Júlio Resende no piano, aliás, é ele que o acompanha noutras aventuras. Este foi um concerto essencialmente jazz, onde Sobral mostra os seus atributos vocais e de improviso. Também podemos considerá-lo um performer, que gosta do inesperado e do absurdo. Foi um bom concerto, mas sentia-se sempre a expectativa para que cantasse o “Amar pelos Dois”, que destoa do resto do repertório mais jazz do Salvador. No entanto, o público reagiu bem à sua performance e mostrou reconhecimento pelo trabalho do cantor até agora. Depois, naquele mesmo palco, Selma Uamusse mostrou ritmos mais quentes e vibrantes, sempre com um energia positiva.

Bons Sons '18 – Selma Uamusse

A primeira noite acabaria com nomes ligados aos sons da cidade. Primeiro Slow J no palco Zeca Afonso, que deu um concerto cheio força. O rapper de Setúbal mostrou porque é um dos nomes mais fortes do hip-hop, actualmente. Quem fechou a primeiro noite foi o músico Xinobi, em modo DJ set. Além de ser um artista ligado à música electrónica com muito talento, Xinobi é um DJ muito virtuoso, talvez dos mais interessantes a nível nacional e internacional. É um prazer ouvi-lo passar música e conhecermos novas sonoridades.

Bons Sons '18 – Slow J

Daí voltámos para as nossas tendas. A realidade de qualquer campismo num festival de verão em Portugal é meio selvagem. Neste festival notei que estavam pessoas de todas as idades, mas no campismo havia uma geração mais nova, concentrada entre os 16 e os 25 anos. Havia muito barulho, muita sujidade, e, principalmente, uma certa falta de civismo, triste num festival tão bonito quanto o Bons Sons. Se no primeiro dia ainda tudo parecia de aspecto mais limpinho, no último dia o cenário era completamente diferente, e as regras e os espaços já possuíam dinâmicas próprias. 

O segundo dia começou com o que eu menos queria, que era o sol a bater na minha tenda por volta das 10h30. As casas de banho, apesar de terem um vertente mais ecológica, não estavam dimensionadas para o grande fluxo de pessoas. O começar do dia foi lento. Eu e os meus amigos tomámos o pequeno-almoço nas tendas e depois partimos para a praia fluvial da Aldeia do Mato, a cerca de 24 km, que tinha condições para tomar um bom banho na barragem de Castelo de Bode, para descansar à sombra e usufruir do bar, para quem quisesse comer qualquer coisa. Durante essa tarde estivemos aí um pouco a descansar, fomos almoçar num restaurante ali perto, e depois regressámos para dormirmos uma sesta e para um último mergulho. Apesar de ser apenas o segundo dia de festival, o cansaço já pesava.

De seguida voltámos para o campismo em Cem Soldos, onde tomámos banho e fomos para o recinto. Apanhámos o concerto de João Afonso e as influências do seu tio Zeca Afonso no seu repertório. As suas canções de intervenção têm um toque mais contemporâneo e uma carga menos política. No festival já se notavam mais pessoas, mais confusão, mais famílias e muita diversão. Um dos entretenimentos principais era o Jogo do Hélder, um dos jogos tradicionais que estavam espalhados por todo o recinto. As pessoas da aldeia também estavam presentes e foi possível ver a interacção constante entre o que é da aldeia e o que é da cidade. Este contraste é uma das dinâmicas mais interessantes de se ver no Bons Sons.

Bons Sons '18 – Mazgani

A noite continuou com Mazgani, com um rock mais pesado e melancólico. Depois tivemos 10000 Russos com uma sonoridade ainda mais alternativa e uma performance bastante consistente. Sara Tavares subiu ao palco para recordar as suas origens, reavivar memórias passadas e dar um concerto muito contagiante. Este concerto teve direito a pedido de casamento no palco, por parte de um dos voluntários que faz o festival há muitos anos, e que por lá conheceu a sua noiva.

Bons Sons '18 – Sara Tavares

Com o bom feeling a pairar no ar fomos ver os Mirror People. A pop-electrónica do grupo liderado por Rui Maia é eficaz e mete muita gente a dançar. A noite acabou com a boa loucura de António Bastos e o Forol DJ set.

António Bastos e o Forol DJ set

A segunda noite foi complicada, houve muito barulho e tivemos direito a concerto de flauta de um artista pouco inspirado. De manhã acordámos já bastante moídos. Aproveitámos e fomos conhecer outra praia fluvial a 12 km, Alverangel. Não tão boa como a praia do primeiro dia, pois os acessos eram mais difíceis e não havia apoio de praia, mas deu para tomar banho e descansar.

Bons Sons '18 – quartoquarto

O primeiro concerto que assistimos nesse dia foi quartoquarto, vencedores do festival Termómetro.  Muito ligados à palavra, têm músicas muito carregadas de sentimento e mostram sempre emotividade. Os concertos que se seguiram foram mais virados para música tradicional portuguesa, Miguel Calhaz, no palco Amália, e Zeca Medeiros, no palco Zeca Afonso. Medeiros mostrou-se muito confortável em palco e conquistou o público com a sua autenticidade e teatralidade.

Bons Sons '18 – Zeca Medeiros

Sem grandes demoras, Sean Riley & The Slowriders subiram a palco para dar um concerto rock cheio de coolness, mas o grande concerto da noite foi o de Paus. A banda de Lisboa lançou este ano o álbum Madeira, com novas sonoridades e com vídeos únicos. Foi um dos concertos mais marcantes do festival.

Bons Sons '18 – Paus

O funk também teve lugar nos Bons Sons, com os, que mostraram um ritmo acelerado e aqueceram para um dos concertos mais esperados do festival. Conan Osiris subiu ao palco Aguardela e mostrou o seu pop-fado-trap bizarro, mas muito carismático. A personagem de Conan é acompanhada por um dançarino, que se mexe sem pudor. O público delirou com este concerto e havia um interacção constante. Conan saiu de palco, mas queria-se mais. A noite fechou com o Colorau Som Sistema.

Cais do Sodré Funk Connection

O quarto e último dia chegava, infelizmente. Fomos almoçar a Tomar, uma cidade bonita e com um visual muito próprio. Daí os meus amigos seguiram para a praia do dia anterior e eu decidi ir para o festival mais cedo. O objectivo a ver Monday, que lançou um dos álbuns mais bonitos deste ano, e que deu um concerto nos Bons Sons para mostrar esse mesmo trabalho. Cat Falcão, acompanhada pela sua banda, mostrou músicas tristes no verão quente da aldeia, que reserva espaço para todo tipo de sentimentos.

Bons Sons '18 – Monday

Os Peltzer no palco Zeca Afonso mostram um indie electrónico com muito ritmo e boas influências. Depois, no palco Giacometti, Luís Severo, vestido com uma camisola do Oriental, deu um concerto para uma pequena multidão, que o esperava para cantar as suas músicas consigo. Severo compõe de uma forma exemplar e simples, fazendo com que qualquer pessoa se identifique com o cantor em palco.

Luís Severo

Mais tarde, no palco Lopes-Graça, os Dead Combo davam um concerto de raiva. A sua música é isso mesmo, levar as guitarras ao extremo e trazer ritmos singulares. A dinâmica entre este duo é mágica e isso percebe-se em palco.

Bons Sons '18 – Dead Combo

Posteriormente também aconteceu um dos momentos da noite naquele mesmo palco, que foi a actuação de Lena d’Água e Primeira Dama com a Banda Xita. As músicas pop de Lena d’Água são divertidas, mas com os novos arranjos ficam mais modernas e mostram como a Lena pode ser cool outra vez.

Bons Sons '18 –

No palco Zeca Afonso tocaram depois os Linda Martini, que editaram um álbum homónimo este ano. O seu rock português já é uma referência para qualquer apreciador do género e em Cem Soldos, mais uma vez, não falharam. A festa de encerramento ficou ao cargo de Foque + Godot, música electrónica acompanhada pelo palhaço Godot, que fez uma actuação meio assustadora, mas também com imenso power. Fomos para as tendas, e acordámos no dia a seguir já habituados ao ritmo dos dias anteriores. Mas infelizmente tivemos de arrumar tudo e ir para casa.

O Bons Sons tem espaço para muito artistas e géneros. Esta edição fica marcada por isso mesmo. Em Portugal faz-se muito boa música, seja qual for a sua sonoridade, e neste festival há espaço para isso. A programação e o espaço do festival fazem já deste evento uma referência. Os artistas sentem-se bem, quem vai gosta, e a aldeia vive de forma diferente. Uma coisa tenho a certeza, espero voltar a Cem Soldos e ter outra vez umas boas férias.

Rodrigo Castro

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