“Sem música, a vida seria um erro” e, sem Paredes de Coura, a música não teria um habitat. Assim sendo, foi no passado dia 15 que o recinto principal da Praia Fluvial do Taboão abriu portas pela primeira vez, em 2018, aos milhares de festivaleiros que se deslocaram até às margens do rio que corre pelas entranhas do Alto Minho ou, mais especificamente, até Paredes de Coura. Por lá aspiravam, durante uma semana, a presenciar a 26ª edição daquele que é um dos festivais mais consagrados a nível nacional e ibérico, e que este ano contou com nomes como King Gizzard & The Lizard Wizard, Pussy Riot ou Arcade Fire.

Depois dos Grandfather’s House terem aberto esta edição do Vodafone Paredes de Coura, foram os Linda Martini que fizeram o recinto saltar durante uma hora de concerto. Começaram com muita raiva e velocidade, ao som de “Gravidade”, tema do novo e quinto álbum, que prima pela voz inconfundível de André Henriques e pelas já características guitarras endiabradas, que dão energia e alguma testosterona adicional a esta malha. O moche pit ainda estava a aquecer quando alguns “clássicos” começaram a soar das colunas. “Panteão” foi o tema escolhido pelos Linda Martini para fazer o público recuar até Turbo Lento, álbum lançado em 2013. Seguiram-se êxitos como “Unicórnio de Sta. Engrácia”, “Dez tostões” ou “Amor Combate”. Para fechar uma atuação incendiária, os Linda Martini recuaram, e bastante, trazendo de volta a Paredes de Coura “Amor é não haver Policia”, tema de Olhos de Mongol, primeiro longa duração do atual quarteto.

Paredes de Coura '18 – Linda Martini

O mote para a noite estava lançado: a festa seria feita ao som de riffs endiabrados, devaneios distorcidos e explosões rítmicas. Quem se seguia?! Nada mais nada menos do que King Gizzard & The Lizzard Wizzard (ou K. G. & L. W.). Este consagrado grupo de oito australianos subiu ao palco com a missão de, agora com o recinto completamente cheio, manter os níveis de adrenalina induzida ao seu mais alto ponto. Conhecidos pelas suas atuações energéticas e imperdíveis performances com luz e imagem, era com muita expectativa que o público esperava este conjunto composto por duas baterias – sim, leram bem –, três guitarras, um baixo e ainda uma gaita e teclados.

A abrir com “Digital Black”, mostrando um rock progressivo, fundido com umas tiradas de folk pelo meio, esta malha de apenas dois minutos e quarenta segundos deixou antever o espetáculo que viria aí. Sem abrandar ou, pelo contrário, acelerando e muito o concerto, os K. G. & L. W. deram ao público treze minutos de riffs, teclados a vibrar e duas baterias siamesas, tal a sintonia. Referimo-nos pois ao tema “The Lord of Lightning”, que faz parte de um dos cinco álbuns lançados em 2017, Murder of the Universe. Se a festa em todo o recinto era muita, no palco também não foi pouca. Stu Mackenzie, vocalista e estrela de companhia, e Ambrose Kenny Smith, vocalista, guitarrista e harmonicista, personificaram por completo a energia cujo trabalho tenta transmitir, contribuindo para um concerto de topo nas margens do rio Coura. ”RattleSnake” foi, sem dúvida, o tema mais aplaudido pelo público presente, mas seguido de perto por outros clássicos como “Crumbling Castle”, “Cellophane” e, ainda, “Muddy Water”.

Na despedida e para fechar o palco principal, King Gizzard & The Lizzard Wizzard fizeram Paredes de Coura saltar. “People-Vultures” nas colunas e volume no máximo foi a combinação escolhida, e esta resultou num moche com quase 30 metros de diâmetro e muita, muita gente a saltar pelo recinto fora, ao som da voz alucinante de Mackenzie e de uma mixórdia instrumental deliciosa, entre baterias a um ritmo alucinante e duas guitarras que prenderam desde a primeira nota.

O palco principal fechou no primeiro dia após The Blaze, com muita energia em palco e deixando altas expectativas para o segundo dia de festival. No palco secundário, a noite prosseguiu com o estreante Conan Osiris, cujo concerto era muito esperado em Paredes de Coura, para apenas 45 minutos depois Nuno Lopes e o seu DJ set fecharem o recinto até o dia seguinte.

Durante o dia o andamento foi outro. Com muito sol e muita paz, é quase sempre ao som de música mais calma que a vida se vai fazendo naquele que já foi eleito como um dos melhores festivais da Europa, em 2005, pela edição espanhola da revista Rolling Stone. Galo Cant’Às Duas e, depois, S. Pedro deram vida ao palco do rio e a todos aqueles que desfrutavam de um dia normal de praia – neste caso fluvial – até então.

Ao final da tarde, X-Wife abriu o recinto e os The Mystery Lights o palco secundário, às 19h, mas apenas para os festivaleiros mais dedicados. Como sabem todos os que já estiveram pelo festival, não é fácil sair da praia fluvial do Taboão com um tão bom e quase palpável ambiente. Exemplo disso foi talvez o concerto do grupo britânico Shame, que começou exatamente às 19h40.

Paredes de Coura '18 – Shame

Se, pelos primeiros acordes, a tarde parecia estar entregue a um cego e violento punk, depressa nos vimos enganados por este jovem quinteto cuja lírica tem fortes visões políticas. Com um salto para crowdsurf logo no fim da segunda música, Eddie Green, vocalista, levou o pequeno mas apaixonado grupo de fãs presentes à loucura. Acrescentamos, mesmo, fazendo deste um concerto que não esquecerão tão rapidamente, tal a intensidade e energia produzida em palco e nos três saltos para crowdsurf que Eddie viveu. Encerrando a performance deste grupo com uma atratividade fora do comum, Eddie Green despediu-se dizendo: “Shame, Shame, Shame. That’s our name. Perspective who is surrounding you. Smile. Enjoy yourself. This is Entertainment!”. Foi sob um enorme aplauso dos presentes que os Shame abandonaram o habitat natural da música.

Paredes de Coura '18 – Surma

Mais tarde, no palco secundário, foi a vez da artista Surma, oriunda de Leiria, subir ao palco. Eram 22h22 quando a primeira nota soou e percebeu-se, desde então, que aquele havia de ser um concerto diferente em Paredes de Coura. Produzindo uma sonoridade calma mas intensa, Surma, acompanhada em palco nos primeiros temas, proporcionou um ambiente algo xamânico, muito graças ao piano que acompanhava as diversas e distorcidas vozes de Surma. Tratou-se de um concerto de one-woman-band que ficou marcado pela perplexidade generalizada, perante tal fusão de sons. O órgão cheio e envolvente, a par da percussão e, claro, da voz de Surma, transportaram toda a “sala” para outros voos. Houve ainda tempo para alguma interação com o público, na qual a artista de Leiria se mostrou muito à vontade e muito próxima dos seus fãs. Acabou agradecendo aos seus “irmãos mais velhos” da CASOTA Collective, por a acompanharem em palco, e tocou ainda uma versão do seu tema “Maasai”, despedindo-se assim do público que presenciava tal atuação em jeito de oração.

O segundo dia da 26ª edição bem que podia acabar assim, mas havia muito mais reservado para os festivaleiros presentes. Os Fleet Foxes subiram ao palco principal captando todas as atenções do recinto. Com muita expectativa no ar e “Grown Ocean” nas colunas, deu-se início à passagem da Crack-Up Tour, que serviu de apresentação do novo álbum deste conjunto originário de Seattle, pelas margens do rio Coura. Com um folk-rock refrescante e eclético, os Fleet Foxes vieram alegrar ainda mais a noite com a sua muito bem disposta melodia, composta por sonoridades variadas, passando pela country music até ao indie-rock. No entanto, é sempre a voz de Robin Pecknold a liderar, uma voz que prende o nosso olhar ao céu e o nosso sorriso às orelhas.

Paredes de Coura '18 – Fleet Foxes

A demonstração do novo álbum, Crack-Up, lançado em 2017, continuou com “Cassius” e fez-se a transição para “Naiads, Cassadies” sem interrupções, para êxtase do público. Com ritmo mas optando pela consistência, os Fleet Foxes deram um concerto muito sólido e coerente, mostrando muito respeito pelo mar de gente que enchia a tão característica encosta que serve de anfiteatro natural. ”Blue Ridge Mountains” foi o tema escolhido para encerrar esta passagem tão mágica dos Fleet Foxes por um dos mais emblemáticos palcos nacionais.

Sem vacilar – e muito bem escolhido, na nossa humilde opinião – a organização do Vodafone Paredes de Coura atirou os Jungle, cabeça de cartaz deste dia, para o palco principal, logo a seguir a Fleet Foxes. Estes geraram uma ressurreição energética em massa no recinto principal, pois foi “Platoon”, um dos temas estruturantes do novo álbum homónimo, que abriu o concerto, mostrando muito soul. Em comunhão com um espetáculo de luzes intenso, os Jungle transformaram o recinto principal na maior e mais inclinada pista de dança do país.

Com teclados vibrantes e explosivos, nas mãos de Josh Lloyd-Watson, os Jungle provaram ser uma possível definição do soul moderno, onde as influências não ficaram por mostrar – falamos, mais especificamente, do sample da voz de Gil Scott-Heron. Sempre muito acarinhados em qualquer interação com o público, é de realçar o papel e a tremenda voz de Nathalie Miller, que foi, sem dúvida alguma, a preferida dos fãs presentes.

Paredes de Coura '18 – Confidence Man

O momento mais alto chegou quando os primeiros acordes de “Happy Man” soaram nas colunas e, aí, soube-se que não dançar deixou de ser opção. Este foi um momento memorável pela beleza da expressão corporal, na sua forma mais natural e descabida. Um dos melhores concertos do festival fechou o palco principal no segundo dia da 26ª edição no habitat natural da música. A noite continuou com Confidence Man e Young Marco, no after-hours, para os mais resistentes.

Paredes de Coura '18 – Lucy Dacus

Sexta-feira, 17 de Agosto, em Paredes de Coura foi sinónimo de algum cansaço de campista, mas também de terceiro dia de festival e de muita experiência vivida. Foi nesse sentido que, pelas 18h40, nos deslocámos até ao recinto principal para ver a cativante Lucy Dacus. Com uma voz potente mas muito doce, Lucy começou por dizer que sentia o dever de pedir desculpas pelas ações recentes do seu país, os EUA, e prosseguiu com o seu indie-rock muito melódico e calmo, evidenciando uma maturidade lírica bastante aprofundada e cativante. Foi um concerto íntimo, para ver em pé, sentado ou mesmo deitado na relva, com a luz já a meio gás, num final de tarde em Paredes de Coura. O cenário idílico deu toda uma outra dimensão a este muito intenso momento.

Horas mais tarde, e quase uma estreia em termos de estilo musical nas margens do rio Coura, Skepta, o cabeça de cartaz para o terceiro dia, sobe ao palco em torno de muitos aplausos e curiosidade para presenciar o grime deste jovem britânico. Primeiro tema, segundo tema e objetos voam para o palco. É o público de Paredes de Coura a mostrar desagrado pelo muito visível playback e pela quase apatia em palco. O concerto foi interrompido pela organização pelo arremesso de objetos e muitos assobios. Tratou-se de um concerto fora do normal em Coura, que nem mesmo quando “Shut Down”, um dos singles de Skepta com mais sucesso, explodiu nas colunas, recuperou a corrente. Alguns sapatos foram mais uma vez atirados na direção de Skepta e do grupo que o acompanhava em palco. Até ao fim da sua atuação, Skepta manteve a toada e abandonou o palco sob o coro de alguns assobios e tímidos aplausos. Uma atuação,  a única em todo o cartaz, que ficou aquém, e muito, das expectativas depositadas nela.

No after-hours, Pussy Riot, um grupo feminista e ativista de punk vindo da Rússia e, mais tarde no mesmo palco, Lauer, um DJ e produtor alemão com inspirações em house e disco music, encerraram o terceiro dia. O dia cheio de simbolismo, com umas surpresas pelo meio, deixava antever um último dia de festival eletrizante, com a presença de nomes como Curtis Harding, Dead Combo e ainda Arcade Fire.

Acordar no último dia de um festival é sempre um misto de sensações. A praia fluvial cheia, muita música em pequenas colunas, sorrisos, abraços e muito sol, num dia que se pôs perfeito para a atuação de Curtis Harding, a ter lugar ao final da tarde no palco principal. Com os últimos raios de sol a incidirem na afamada encosta, o muito alegre e cativante soul de Harding teve especial impacto pela beleza natural daquele habitat da música. Quer fosse pela pandeireta, pela bateria, pelo baixo ou pela doce voz que ecoava, ficar indiferente não era opção e, com o dia esgotado, nada melhor do que Curtis Harding para abrir as hostilidades.

Feitas as apresentações ao recinto, Dead Combo prosseguiram com o “aquecimento” para Arcade Fire. Tocando uma mistura de Odeon Hotel e temas anteriores a este álbum, os Dead Combo fizeram a festa desenrolar em português, com muita mestria na produção musical e segurança em palco. Houve ainda espaço para homenagear o falecido Zé Pedro com a música “The Egyptian Magician”, seguramente uma das melhores faixas portuguesas dos últimos anos.

Paredes de Coura '18 – Arcade Fire

A noite prosseguiu e o momento da noite, e talvez para muitos do festival, chegou. Os Arcade Fire regressaram a Paredes de Coura 13 anos, e muito sucesso, depois. A abrir com “Everything Now”, passando por uma homenagem à voz do soul e R&B, Aretha Franklin, e acabando com os acordes de “Walk on The Wild Side”, de Lou Reed, os Arcade Fire deram um dos espetáculos do ano na praia fluvial do Taboão. Com uma bola de espelhos no tecto e dois ecrãs adicionais, a banda canadiana deu “tudo agora” no encore ou, na versão original, “Everything Now”, e ainda um dos grandes clássicos, “Wake Up”.

Paredes de Coura '18 – Arcade Fire

Houve muita emoção no regresso deste gigante mas humilde  grupo, pela entrega e qualidade, que lembrou a primeira passagem por Paredes de Coura. A banda cumprimentou o público como se de um amigo de longa data se tratasse. Proporcionou-se, assim, um final do 26º Vodafone Paredes de Coura muito bonito e feliz, como apenas poderia ser, naquele que é o único e verdadeiro habitat natural da música. Resta sorrir e esperar por 2019, que de 14 a 17 de Agosto há muito mais para viver e recordar.

Texto: Duarte Barreiros
Fotografia: Alexandra Tavares (mais fotos no nosso instagram!)

 

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