Foi em 2017 que os Plastic People começaram a ganhar terreno na indústria musical portuguesa, ao vencerem o concurso EDP Live Bands. Isso valeu-lhes a atuação no NOS Alive e no Festival MadCool, em Madrid, nesse mesmo ano. O Vilar de Mouros requisitou-os este ano para um belíssimo concerto. Lançam agora Vísions, álbum de estreia, considerado por nós como sério candidato a melhor álbum revelação português do ano. João Gonçalo, André Frutuoso e JT já tinham dado sinais de que estaríamos perante um excelente prognóstico, com o lançamento do single “Riding High On Acid”. Após a audição do álbum, o que antes era apenas um palpite, tornou-se numa certeza.

Produzido pelos próprios, em colaboração com Nuno Roque, a banda de Alcobaça estreia-se nos discos de forma notável. Durante dez aprazíveis e enérgicas canções, a banda mostra-nos o seu mundo eletrizante e único, com alicerces cimentados no post-punk, rock e alternativa, que nos fazem lembrar clássicos da música mundial (The Velvet Underground, Joy Division, The Jesus & Mary Chain e, até mesmo, David Bowie).

O sentimental romance punk está presente em cada acorde, sentido até ao íntimo, pelos instrumentos constituintes, e em cada sílaba dita pela cativante voz de João Gonçalo. “Wake Up!” desperta-nos a atenção para a viagem estimulante e traz a sensação familiar de influências de Robert Smith, principalmente na voz do cantor. Eles teimam que estão vivos e cremos que, para ficar vincados na música portuguesa, também. Segue-se uma viagem romântica, com acordes que fazem o coração sorrir e apaixonar: “Night”. É das que marca e se decora logo, pela necessidade futura de repetição, persistente e insistente, da audição da música. “Riding High on Acid” foi a primeira música que chegou até todos nós, já que é o single de estreia da banda. Andy e a sua viagem intergalática, com sentimentos confusos acerca do que é ou não real – o título explica bem o porquê da confusão, se olharem com atenção.

Sobre ilusões e expectativas românticas da vida que nos caem pelo chão, são feitos os temas deste disco. Chegamos então até “Running”. Fugir de más experiências, que pura e simplesmente não nos saem da cabeça, sem conseguirmos ser bem sucedidos… quem nunca?! Quando não existem mais palavras a dizer, devemos apenas seguir em frente, dizem e bem os Plastic People. “Strange Love” é dinâmica, é vivaz e dá vontade de levantar da cadeira e dançar um pouco e, “Seven Weeks”, com teclados comprometedores e fascinantes, dá continuidade à corrente de dança. “Ghosts” prende-nos, logo, pelas notas daquele baixo inicial que apaixona à primeira vista. Acordes que dão vontade de fechar os olhos e, apenas sentir a música fluir dentro de nós. “Wondering Now”, um romantismo agridoce, que revela um estado de negação relativo a algo que está sempre a acabar e a voltar. É a voz desesperada que pede para ser ou não ser. Intermédios nunca são boa ideia. “Visions”, a faixa que dá nome ao álbum, é carregada de pequenos arranjos românticos, encantadores. Tanto à primeira audição, como à segunda ou à terceira. “Holy Hands” finaliza com grande eficácia e potência o álbum, que tem tudo para ser um dos melhor do ano da música portuguesa.

Visions é muito mais que apenas uma ótima estreia. É uma imaculada estreia. Uma estreia sem espaço para grandes imperfeições e, a partir daqui, o céu é o limite para este trio. Devem eles orgulhar-se do seu trabalho e todos nós também. Portugal continua a mostrar que há espaço para grandes talentos em solo nacional, e se ainda não ouviram Visions não percam mais tempo. Seja para acompanhar o jantar, a conversa com o amigo ou mesmo o banho relaxante após um dia fantástico ou até um dia difícil. Oiçam, e oiçam, e oiçam. Merece toda a repetição. É na banal repetição de algo bom que está a beleza da vida.

Nota: 8.6/10

Alexzandra Souza