O grande auditório da Aula Magna encheu-se para acolher o concerto dos Unknown Mortal Orchestra, na passada Terça-feira, dia 30 de Outubro. Pecado nosso, já não tínhamos presente quão especial é esta sala de espectáculos. Talvez pelo peso que a frente fria impôs em nós, a semana parecia já demasiado longa, e este concerto foi exactamente aquilo de que estávamos a precisar: uma viagem para outra dimensão.

Iguana Garcia inaugurou a sala à hora certa, estabelecendo o mood psicadélico que a noite pedia. Sozinho em palco, não perdeu tempo a criar as camadas que rapidamente nos fizeram esquecer a chuva lá fora. Nos parcos segundos em que se dirigiu ao público, convidou-o a “seguir o flow e a curtir o som” – que a música era mesmo o mais importante, atrevemo-nos a acrescentar. Foi quando o baixo chegou que nos deixámos ir, para não mais voltar. “Eu já pensei em deixar de ser feliz, para ser normal” (da música “60KF“) eram as palavras que nos faltavam, mesmo sem saber – e estas fecharam a primeira parte.

Os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra tocaram os primeiros acordes sob luzes de cores quentes, e uma neblina que nos obrigava a procurar de onde vinham as palavras “if you need to, you can get away from the sun“. O quarteto rapidamente perdeu o frontman Ruban Nielsen em palco, assim que este decidiu brindar com os técnicos de som e brindar o público com um passeio atrevido pelos corredores da Aula Magna. Mais uma vez, a música sobrepunha-se, em importância, às palavras. Ainda assim, quando elas chegavam, eram sob vozes afinadas, que coroavam as melodias compostas por todos os elementos da banda. Quase fomos surpreendidos pelo final desta primeira música, que se estendeu por cerca de 15 minutos. Os temas que se seguiram subiram em ritmo e, não nos levem a mal, mas apreciámos o regresso da acalmia, com “Ministry of Alienation”. Esta foi introduzida com o primeiro “obrigado” da banda. De facto, o que nos cativa mais neste grupo são as viagens proporcionadas, as palavras arrastadas, os pares entre as harmonias hipnotizantes, a seriedade do baixo, os devaneios da trompa. Talvez o facto desta banda ser familiar justifique, de alguma forma, a química que transparece – e que proporciona momentos assombrosos.

Ruban voltou a mostrar a sua irreverência, passeando entre cadeiras das doutorais para cantar literalmente no meio do público, enquanto o guitarrista incentivava as palmas compassadas. “Multi-Love”, pelo meio da sua temática particular, relembrou-nos as indecisões que as cadeiras desta sala nos trazem. Por esta altura já o público do auditório superior se encontrava todo em pé, contrastando com os, talvez mais tímidos, das doutorais. Ainda não tinha passado uma hora de concerto e já o público se via obrigado a exigir o encore. A segunda parte ofereceu-nos ritmos agitados, com “Hunnybee” e “Can’t Keep Checking My Phone”. Ambas as músicas tomaram partido da pista de dança que se tinha instalado na sala. Se ainda restavam demónios por exorcizar, os passos de dança trataram deles.

Tratou-se de um concerto incrível, e que não nos pareceu defraudar as expectativas de ninguém, em qualidade – e eram muitos os discos de vinil debaixo dos braços, à saída. Na nossa opinião, só pecou por curto, que nós queríamos continuar a dançar.

Texto: Andreia Duarte
Fotografias: Alexandra Agostinho

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