O Teatro Ibérico foi a sala escolhida por Príncipe para celebrar o primeiro aniversário do seu álbum de estreia – A Chama e o Carvão. No passado Sábado, dia 3 de Novembro, este Príncipe português chegou pelo meio de neblina que carregava ainda mais de misticismo a sala do antigo convento franciscano, um claustro caracterizada ainda por arcos e varandas barrocas. O concerto foi uma conquista sem duelo, tanto da parte do trio em palco, como do público. Príncipe apresentou as dez músicas que compõem o álbum, num concerto sem grandes surpresas mas carregado de sensibilidade.

O som da flauta transversal de Sebastião Macedo, o Príncipe que nos levou até Xabregas nesta noite, soou sob as cortinas de veludo vermelho do Teatro Ibérico, ainda corridas. Era “Dalí”, a música que abre o álbum A Chama e o Carvão, e que abria também o concerto da noite. Em palco, Sebastião dava voz às músicas e oscilava entre as guitarras e a flauta, fazendo-se acompanhar por um baixista e um pianista. As primeiras músicas mostraram-nos um Príncipe ainda a adaptar-se ao espaço em que se encontrava, e um público ainda a tentar perceber como reagir à banda, quase aguardando pela autorização para as palmas, no final de cada música –  o clima era de curiosidade e de respeito mútuos.

Príncipe mostrou-se agradavelmente surpreendido pela quantidade de público que preenchia a acolhedora sala, quando a neblina acalmou e as luzes lhe permitiram a análise. Apesar de conhecermos de perto este disco, continuamos a deixarmo-nos surpreender pela distância entre esta persona de Sebastião e o seu papel de baterista nos Ciclo Preparatório. Sob a luz maior, centrando a nossa atenção nas palavras de influências antigas, Príncipe toma partido da sua fragilidade para carregar ainda mais de emoção as músicas.

Príncipe | Teatro Ibérico [3 de Novembro de 2018]

“Duelo” incluiu uma introdução ao piano ainda mais elaborada do que nos lembramos no álbum, criando momentum para o poema de José Régio. As palmas compassadas foram incentivadas pelo baixista, e quase já nos tínhamos esquecido do que aí vinha – mas, quando as palavras declamadas por João Villaret surgiram, as palmas cessaram quase por completo, e não conseguimos conter um arrepio.

Nesta celebração do primeiro aniversário da edição do álbum, a banda parecia tomada por uma calma que também não reconhecemos totalmente ao álbum, mas que funcionou a seu favor. O alinhamento da noite fugiu ao do registo apenas num par de músicas, mantendo-se alguns encadeamentos entre músicas. Uma boa surpresa no alinhamento observou-se, por exemplo, com “toda a beleza” e “a chama e o carvão”. Príncipe, excepcionalmente sozinho em palco, mas acompanhado pela sua guitarra, explicou que “toda a beleza” foi escrita há muito, muito tempo, e que fala da ausência. Foi apenas no final da música que baixista e pianista regressaram, para fechar esta música e abrir a seguinte, “a chama e o carvão”.

Despindo-se da guitarra, e tentando ainda descobrir o que fazer às mãos na sua ausência, Príncipe encerrou o concerto como encerrou o álbum, com “luz cessar-fogo”. E não existiria, provavelmente, melhor forma de o fazer do que com uma música que inclui as palavras “Toda esta guerra tem de acabar / São águas passadas que nos vão afogar / Eu sou o moinho longe do mar  / E as minhas lágrimas estão a secar”.

Texto: Andreia Duarte
Fotografias: Lúcio Roque

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