Matthew Bellamy, Dominic Howard e Christopher Wolstenholme formam os Muse, que são, nada mais, nada menos, que uma das maiores bandas da actualidade. Quer se queira, quer não. Dão concertos monstruosamente e incrivelmente brutais, que deixam as emoções saltar, dançar, gritar e, no final, voltar ao lugar onde pertencem. Lançam amanhã, dia 9 de Novembro, o oitavo álbum de uma discografia genial, onde, mais uma vez com sucesso, a banda consegue mostrar a genialidade que vem, automaticamente, agregada à ideia deste trio.

Não são todas as bandas que, tentando abranger vários géneros musicais e andando a experimentar várias praias, conseguem idealizar e fazer algo realmente bom, que, para a incidência desejada, pega e fica. Fica o lembrete que não gostar, não significa que está mal feito. Mal feito é algo que os Muse, simplesmente, não sabem fazer. Mesmo que não agrade, seja a incidir no género pelo qual eles se fizeram conhecer ou outro qualquer, quando querem fazer algo, estes meninos sabem-no fazer. É muito importante sabermos distinguir o que não gostamos e é mau, do que o que não gostamos e é bom. Simulation Theory mostra uma nova fase de Muse, onde a genialidade do costume está presente e o saber fazer também. Mostra uma nova mutação na carreira da banda e uma exploração de novos mundos onde, gentilmente, a banda soube integrar os traços pelos quais se apresentaram ao mundo em 1994. As transições estão bem feitas, as explorações e interligações admiráveis e, o que é estranho, rapidamente se entranha na alma. O conjunto de músicas soa bem. Soa a Muse. Muse não é apenas uma banda banal, que retrata um género musical. São uma banda que retrata um conjunto de genialidades e liberdade para se explorar todos os recantos musicais. O bónus, que falha a todos os que estão presos a uma idealização de que uma banda tem de retratar e ter como única veia um género musical, é que os Muse sabem executar, construir, fazer. Eles sabem como construir sonoridades e interligar tudo entre si, com sentido. É ambicioso de afirmar, mas realista: os Muse são bons em tudo e nem o céu é o limite para a banda. Pode ser uma dispersão musical, mas é uma dispersão coesa e coerente. Que é muito mais do que muitos algum dia sonham conseguir fazer.

Simulation Theory é um álbum retro conceptual, que explora a fundo o argumento da simulação. As capas foram desenhadas por Kyle Lambert (“Stranger Things”) e Paul Shipper (“Avengers: Infinity War” ou “Star Wars: The Last Jedi”), com o objectivo de fornecer ao álbum uma imagem carregada de ficção científica e anos 80.

“Algorithm”, a primeira faixa do álbum, mata a sede dos fãs agarrados às origens da banda. Um piano que nos remota para os tempos do velho e bom Absolution. a bateria de Dominic Howard a ditar o ritmo da música. Um sintetizador carregado do peso e escuridão, pelo tema que a canção aborda, já que Bellamy canta que estamos presos a simulações. E talvez estejamos mesmo. Segue-se “The Dark Side”, uma das canções que já tinha sido revelada pela banda. A introdução de elementos electrónicos na canção, dá movimento e leveza à canção, que fala da vontade de se libertar da dor das simulações, que nos prendem ao chão frio. No quase final da música, quando Matt Bellamy puxa dos seus sempre magníficos falsettos, sente-se essa dor desesperante – a leveza da canção transforma-se em peso. “Pressure”, que também já tinha sido revelada, é uma canção de rock, com palmas à mistura, e que mexe com as ancas. É mais uma que traz até nós acordes que lembram canções antigas da banda, e que fala da tentativa de fuga da pressão de um sistema de vida que nos pressiona. Na nossa opinião, trata-se o melhor single deste álbum, até agora.

“Propaganda” cria desconforto. Cria estranheza e, até, desdém, para quem está habituado a outro registo. O efeito inicial, que grita de modo distorcido ao longo da música, “pro pro pro pa ga ganda” é realmente desconfortável. A presença da influência da faixa “Kiss”, de Prince, é quase descarada. A realidade é que “Propaganda” não quer ser uma música fiel às origens da banda. Esta quer ser uma faixa pop synth com laivos de funk – no que toca a isso, cumpre os requisitos e é bem sucedida. “Break It To Me” começa com uma guitarra carregada que conquista. Rapidamente, sonoridades orientais e até indianas entram na música, criando uma mistura diferente de tudo o que os Muse já lançaram. É enfeitiçante, diferente e engenhosa. “Something Human” é a pop sentimental que quer, e tem, laivos de electrónica pelo meio. Romântica em todas as sílabas, a música não conquista nem à primeira, nem à segunda, mas faz sentido na mecânica que os Muse quiseram construir para este álbum – e às vezes fazer sentido, é melhor do que conquistar.

“Thought Contagion” é significativa e completamente aditiva. Matt Bellamy insiste e persiste em afirmar que fomos mordidos por um crente, uma pessoa que tem fome do novo e que acredita em coisas falsas. Com duas ou três frases, a canção descreve a nossa sociedade, vista pelos olhos de um homem absolutamente genial e com vontade de ser algo mais do que o imposto, e o que é suposto sermos. Segue-se a “Get Up and Fight”, uma faixa pop e imensamente cheesy, que conta com a discreta colaboração de Tove Lo.

“Blockades” é um triunfo, uma pérola, uma jóia no meio das novas explorações musicais da banda. Grita e afirma que as origens da banda não morreram, ainda cá estão e vão sempre estar. Para resfriar os ânimos de uma canção que trouxe as emoções à flor da pele, vem “Dig Down”. A canção foi lançada no ano passado, e é uma canção morna sem grande desenvolvimento, que se prende ao mesmo ritmo, durante quase quatro minutos. Fala sobre a necessidade de termos força perante adversidades, e sobre a necessidade de nutrirmos fé em nós mesmos. Pode não desenvolver musicalmente, mas a letra é uma lição motivadora poderosa. A última faixa de Simulation Theory, “The Void”, é majestosa e das melhores deste álbum. Os teclados espaciais, transcendentais e potentes que gritam Muse estão lá. Letras sobre justiça e sobre visões mundiais que nos tocam a todos. Não nos parece um acaso, o facto de trio ter colocado uma música que tem nas suas entranhas a musicalidade das origens da banda. É um aviso aos fãs: as músicas que lembram as origens dos Muse nunca vão morrer, mas eles vão ter sempre a liberdade para dispersar e construir algo novo.

Acrescentamos ainda que, na versão super deluxe do álbum, existem ainda versões alternativas e acústicas a algumas canções: “Algorithm”, “The Dark Side”, “Pressure”, “Propaganda”, “Break It To Me”, “Something Human”, “Dig Down”, “The Void”. Uma “Algorithm” a soar a um hino de um filme de ficção científica; duas “The Dark Side”, uma sustentada no piano de Bellamy a arrancar suspiros de tão bela que é, e a outra um instrumental arrepiante; uma “Pressure” com a adição de UCLA Bruin Marching Band; uma “Propaganda” acústica, que continua a causar desconforto, e com influências gritantes em Prince; uma “Break It To Me” divertida e dançável; uma “Something Human” a deixar cair o véu cheesy e a tornar-se numa bonita e adorável canção; uma “Dig Down” que deixa de ser morna e passa a ser emocionante e, arranca aquela lágrima marota, ao primeiro acorde; e uma “The Void” de tirar o fôlego e, que consegue o impossível: ser ainda mais majestosa que a original. As versão alternativas e acústicas são uma gentileza, já que lembram imenso as origens da banda. Eles souberam e quiseram conjugar a vontade da banda pelo novo, com a vontade dos fãs que são agarrados às origens – existe aqui um claro amor e carinho pelos fãs.

Não haveria melhor modo de fechar este álbum, um álbum que primeiro se estranha e depois se entranha. Um álbum que provoca desconforto mas, também, um álbum onde podemos encontrar o maior dos confortos. Não é o melhor, mas não precisa de o ser para ser muito bom. Simulation Theory merece ser ouvido e repetido. Os Muse merecem ser celebrados, já que não existem sequer palavras e elogios que caibam na realidade do que esta banda significa, e da importância que tem, para a música em geral. A tour da banda tem passagem marcada em Lisboa, no próximo dia 24 de Julho de 2019. Faltar, significa com toda a segurança, faltar a um dos concertos do próximo ano.

Nota: 7.5/10

Alexzandra Souza