Na passada quarta-feira, dia 7 de Novembro, fomos assistir à apresentação do disco The Animal Spirits, de James Holden acompanhado dos seus T he Animal Spirits. Num mundo criado por si, onde a liberdade é expoente máximo, a eletrónica e o jazz dão voz ao que as palavras não conseguem transmitir. O belo auditório da Culturgest foi o local escolhido para a pregação de um dos pedaços do seu tão único mundo, que durou cerca de uma hora e poucos minutos. 

Começou a horas e, desde o primeiro segundo, foi uma explosão sonora e visual. Sentia-se no ar um frio cortante, que obrigava a tirar do armário o casaco e a malha mais quente, e o cachecol mais aconchegante; e, ainda assim, dava para sentirmos os ossos gelarem. Foi a propósito desse frio que ousamos dizer que o concerto foi um banho de calor para as nossas almas e corpos, já que a inevitável dança provoca movimentos no corpo, que por sua vez aquecem. Foi um concerto sentado, o que não impediu, de todo, os corpos de se movimentarem ao ritmo dos variados sons que invadiram o auditório. Os efeitos visuais eram ricos e arritmados, de acordo com o que os músicos tocavam. Até mesmo os próprios músicos, ao executarem movimentos, traziam uma abundante fórmula aos olhos de quem teve o gosto de ver o concerto.

O músico passou o concerto sentado em cima da sua mesa colorida e bem enfeitada, em posição de meditação (e à altura dos seus instrumentos, claro); manteve sempre um sorriso na cara, cativante desde o primeiro momento. Curioso como alguém tem a elasticidade de não se cansar de estar sentado daquele modo, e chegar ainda de forma ágil a todos os instrumentos. Musicalmente falando, a extensão sonora é tão vasta e requintada que requer um ouvido atento. De outro modo, é impossível alcançarmos a real imensidão deste mundo de The Animal Spirits. James Holden, facilmente, cumpre a missão de nos fazer perder as nossas individuais realidades, e convida-nos a visitar este seu universo. Podemos garantir que todos aceitaram o seu convite e, nem por um momento, houve a abstração da magia que estava a ser feita em palco. Foram poucas as palavras que trocou com o público português, em contraste com as sensações transmitidas (que foram muitas, sem dúvida). A electrónica pintada de jazz, em todos os seus secretos recantos, encantou e maravilhou e deu, também, vontade de mais. Nada foi cantado, mas não havia sequer essa necessidade. Afinal de contas, as coisas mais belas da vida são sentidas e não faladas.

Este concerto foi, portanto, uma boa surpresa, que nos aqueceu numa fria noite de quarta-feira, e deu cor ao banal dia rotineiro de trabalho (ou de aulas). Saímos rendidos.

Texto: Alexzandra Souza
Fotografia: Vera Marmelo