O ritual das caminhadas, o deambular de sala em sala e os cenários improváveis repetiram-se mais uma vez este ano na Avenida da Liberdade, em Lisboa. O festival organizado pela Música no Coração voltou com um nome diferente, Super Bock em Stock, mas sempre com o mesmo intuito dos outros anos: divulgar novos artistas e a música emergente. Se em anos anteriores o rock e o pop dominavam o cartaz, agora já começa a haver mais espaço para outros géneros e, sobretudo, para o hip-hop. Os grandes destaques do primeiro dia foram para Johnny Marr e Capitão Fausto. Outros artistas como Conan Osíris ou Masego souberam mostrar um interessante cruzamento de géneros.

A deambulação começou muito perto ali do Coliseu dos Recreios, que é o ponto nevrálgico deste festival. Os Conjunto!Evite foram uma das primeiras bandas a abrir o festival, na Garagem EPAL, normalmente dedicada a sonoridades mais cruas e associadas ao garage rock. A verdade é que deram um concerto cheio de energia, onde predominaram as guitarra e as canções longes e melódicas. O rock progressivo desta banda da metrópole de Lisboa mostra várias nuances interessantes, e ficamos curiosos por ouvir o álbum que vai ser editado já no principio de 2019. Na plateia, a assistir a este concerto, encontrava-se também um dos pais do rock português, Tim dos Xutos e Pontapés,  também pai de dois membros da banda, Vicente e Sebastião. O seu legado está assegurado.

Na praça da alegria a sonoridade era mais calma, mas não menos impactante. Com apenas 22 anos, Beatriz Pessoa já pisou vários palcos no nosso país. Nesta edição do Super Bock em Stock, a artista iniciou o concerto com o seu tema bem conhecido “Everyday Fights”, seguido de “You know” e “Feminina”. Podemos dizer que Beatriz não é só para os ouvidos dos mais novos. Na sala do hotel Maxime estavam pessoas das mais variadas faixas etárias, que permaneceram até ao final do concerto para ouvir a voz doce da artista. A sua setlist contou também o tema feito para Cristina Branco – “Namora Comigo” –, “uma fadista de que eu sou muito fã”, disse Beatriz.  Para terminar o concerto, a cantora, meia pop meia jazz, cantou o tema “Vento”, que recebeu muitos aplausos e assobios calorosos por parte do público.

Super Bock em Stock'18, dia 1 - De chá e torradas

Foi na sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, que os nova-iorquinos de Public Access TV se estrearam em Portugal. Com um som típico do indie rock americano, a banda conseguiu encantar os fãs. “Viemos de longe para vocês” disse John Eatherly, cantor e frontman da banda – e é com muito gosto que nós os acolhemos. A banda demonstrou uma energia sem limites, e a sala ficou a dançar. Pelas 20h45, no teatro Tivoli BBVA, dava-se início a mais uma bela surpresa. Em cima do palco estavam os elementos da banda Xita (António Queiroz, Inês Matos, Martim Brito e João Raposo), com Manuel Lourenço – Primeira Dama, que deram início ao concerto. Não demorou muito tempo para subir ao palco, aquela que na década de 70 foi considerada um ícone da pop-rock – ”Sem mais demoras, meus senhores e minhas senhoras… o momento que tanto ansiavam – Lena D’Água!”, apresenta, com entusiasmo, Manuel Lourenço. Não dava para ficar indiferente a toda aquela energia envolvente, que resultou da mistura do indie rock e do pop. As luzes apagadas do Tivoli faziam surgir um ambiente mais intimista. Notava-se o conforto do público que, por vezes, se ouvia baixinho a cantar as músicas da banda.

A arte de rimar é dar a ilusão de um casamento destinado entre duas palavras… Manuel Fúria faz da sua obra uma rima constante, onde as peças encaixam como se para aquilo tivessem nascido. Este é um Mestre do Renascimento Moderno, pai de uma das oficinas de músicos mais prolíficas da nova era da música portuguesa. Assim como Andrea del Verrocchio, a oficina de Fúria criou e ensinou uma geração que foi buscar os Horácios e Vitrúvios do Portugal dos anos 80, contrabalançando o paganismo do rock clássico com uma devoção ao messianismo cristão. De volta ao Coliseu (dos Recreios), o concerto de Manuel Fúria foi um reflexo desta oficina, que começou há uma década e que nela formou grandes artistas eclécticos e abriu portas para uma nova atitude. Em palco, os seus pupilos furiosos, a maioria com título de capitania (uns mais Fausto outros mais d’Areia), lembram-nos que um bom mestre vive para ver os seus pupilos singrarem.

A jeito de despedida do seu último álbum, Viva Fúria, o concerto teve muitos convidados que fizeram uma analepse do percurso de Manuel Fúria e os Náufragos nos últimos anos a solo. Samuel Úria e Márcia, velhas amizades, cantaram “Procuro a Claridade” e “Corações com Fome”. De seguida, dois Ex-Náufragos, de nome Tomás, um draculiano e o outro paternal, trouxeram ao palco mais ecletismo com um violino e um bandolim, relembrando o passado folk de Fúria, no primeiro álbum Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo. O grande apogeu do concerto foi a subida a palco de um outro grande escultor renascentista, Miguel Ângelo – o Delfim dos Delfins – com uma voz que nos transportou para o período clássico das vacas gordas, em que havia mega produções e os músicos não tinham vergonha de fazer solos de voz. Miguel cantou “Aquele grande Rio”, o single que sintetiza a missão de Manuel Fúria e os Náufragos de nos levar “para lá dos montes, para depois do Mar”. Por fim, para que Fúria Morresse, acenderam-se os fogos da inquisição a mando e ao som d’os Bispo, num momento que deu para dançar – queimando Fúria, como herege que é na cultura vigente. Agora, resta-nos esperar que das cinzas este pequeno príncipe do folk renasça como rei do rock. Cá estaremos para lhe beijar o anel.

Super Bock em Stock'18, dia 1 - De chá e torradas

Já na Estação Ferroviária do Rossio, o comboio era outro. Estávamos perante outros brilhantes artistas nacionais. João Firmino (Pir), Margarida Campelo, Joana Espadinha, António Quintino e João Pinheiro – são estes os cinco nomes que formam a banda Cassete Pirata. Pir iniciou logo o concerto pedindo ao público que se fizesse ouvir. “Façam barulho, Lisboa!”, diz. O pátio estava cheio de fãs da banda lisboeta que dançavam e cantavam sem parar. “Bora lá Lisboa, tudo a saltar”, continua o vocalista. “És grande!”, retribuía um fã. Antes de iniciar a música “Pó no pé”, Pir pediu um grande aplauso para o seu produtor Benjamim, que se juntou à banda e tocou pandeireta. Deste concerto também fez parte o tema “Vou sem Norte”. O vocalista volta novamente a mostrar a sua satisfação de estarem ali. “Estamos muito contentes por estar aqui. É o nosso primeiro festival da capital e estamos muito contentes por ter esta malta toda a ver-nos. Obrigado”, agradece Pir, que aproveita ainda o momento para anunciar o próximo single ”Próxima Viagem”. Foi com a música “Outra vez” que o público se soltou e terminou gritando em harmonia “ohohohohoh”.

Demos um salto à Casa do Alentejo para ver o sul-africano Nakhane. Numa sala cheiíssima, e num lugar lindíssimo, todos estávamos hipnotizados. O cantor deixou uma mensagem de liberdade, usando a música para nos lembrar que estamos todos unidos. Há esperança, desde que haja pessoas para dançar e música para tocar. Ao mesmo tempo, descendo um pouco até ao Largo de São Domingos e entrando no Palácio da Independência, encontramos uma bela sala onde tocaram os Prana. Lançaram este ano o terceiro álbum, Ser Nenhum, e aproveitaram esta ocasião para se darem a conhecer melhor ao público da capital. Num estilo muito ligado aos Ornatos Violeta e à musica portuguesa dos anos noventa, a banda de São João da Madeira foi sempre muito emotiva, com temas pesados, também a condizer com a sala onde estavam. Não pudemos ficar até fim porque o rock britânico nos esperava no Coliseu dos Recreios.

Johnny Marr editou este ano Call the Comet e era isso mesmo que trazia na bagagem, mas este músico é muito mais do que isso. Sendo um dos ex-membros da icónica banda The Smiths, também colaborou com os The Pretenders, os The The, entre outros. As suas influências vão desde o rock britânico mais clássico, até ao rock épico americano. Na sua actuação no Coliseu pudemos encontrar um pouco de tudo. Claro que o momento de maior apoteose foi quando Marr tocou The Smiths, para uma plateia que não estava completamente cheia, mas que vibrava com este saudosismo. O guitarrista britânico é um bom performer, percebe cada momento do concerto e sabe como ser eficaz.

Super Bock em Stock'18, dia 1 - De chá e torradas

O concerto de Marr estava a ser bom, mas havia que espreitar uma banda de nome comprido que tocava na Estação do Rossio, um dos melhores deste festival e com certeza com a melhor vista, onde se vê o Castelo de São Jorge sempre iluminado. The Harpoonist & The Axe Murderer é uma banda de blues,  folk e rock, vinda de Vancouver, no Canadá. São compostos apenas por dois membros, Shawn Hall e Matthew Rogers. Shwan toca essencialmente harmónica, e esteva o concerto todo com um ritmo acelerado, o que contagiava a plateia, que aderiu facilmente a estes ritmos. Matthew esteve mais preocupado com a percussão e com a guitarra. A dupla não desiludiu e teve uma atuação sólida.

Também a essa hora, foi num Capitólio esgotado e com fila até à Avenida da Liberdade que um outro cantor sul-africano entrou em palco. O festival sempre apostou na diversidade musical e o risco vale sempre a pena. Masego seduz o fãs com a sua música, a que ele próprio chama de TrapHouseJazz. Do início até ao fim, a audiência cantou em conjunto. Masego voltou no encore com “Navajo”, a seu maior hit, e acabou a atuação com o júbilo do público.

Super Bock em Stock'18, dia 1 - De chá e torradas

A noite acabava para aclamação de um dos maiores nomes da música portuguesa nos últimos anos, os Capitão Fausto. A banda de Lisboa voltou ao Coliseu dos Recreios depois de lá terem atuado em Dezembro de 2016. Agora, a situação era diferente, e o palco já não estava no centro. A afluência era grande e o fato de já não existirem outros concertos acontecer ajudou a que se desse um ambiente familiar. O concerto foi certinho, com os Fausto principalmente a irem ao seu reportório mais forte, que resultaria melhor num ambiente de festival. Também houve espaço para os novos temas, do álbum que será editado muito em breve, contudo as novas canções têm uma sonoridade diferente e mais inocente. Num desses momentos, em que Tomás Wallenstein tocava piano sozinho uma das novas canções, o público não aderiu. Aquele que podia ser um dos momentos mais interessantes do festival ficou apagado por culpa do público. Os Capitão Fausto conseguiram mostrar que se sentem já muito confortáveis em grandes palcos, mas precisam de trazer novas dinâmicas para que o público fique cativado. O grupo contou ainda com a participação de três jovens como coro, sendo uma delas a irmã do Tomás – Catarina Wallenstein.

O primeiro dia acabou com a sensação de dever cumprido, mas com ânsia de ver as surpresas da segunda etapa do Super Bock em Stock.

Texto: Rodrigo Toledo, Liliana Gonçalves, Alexandra Tavares
Fotografias: Liliana Gonçalves e Alexandra Tavares