O segundo dia do Super Bock em Stock começou chuvoso, cinzento e húmido. Este seria o mote para o resto da noite, que teve bons momentos, mas que deixou a sensação de que estávamos perante um festival mais pobre que em anos anteriores, e que precisava de nomes mais fortes e com potencial de crescimento no futuro. Contudo, The Saxophones, Tim Bernardes e Charles Watson, entre outros, provaram ser muito competentes, numa avenida que acabou numa festa atabalhoada dos Jungle.

O primeiro momento da noite abriu com Éme, da família Cafetra. Ao início começou a solo, mas logo de seguida Lourenço Crespo invadiu o palco com o seu teclado. Com eles estiveram outros membros desta editora lisboeta, entre os quais Mariana Pita (Moxila). “Mais reforços, alerta vermelho. Ok, estão prontos para a festa? Eu espero que também estejamos prontos para a festa!”, diz Éme, rindo. Este bando move-se e cria em conjunto uma sinergia única, que mostra as suas vivências da cidade. O artista brincou com o facto de inicialmente não ter ninguém na bateria – “Nós temos baterista, mas ele é muito pequenino e não se vê”. Cantando principalmente o seu álbum Domingo à Tarde, Éme encheu a Garagem Epal de amigos e fãs, mostrando sempre uma ironia que o carateriza e que é muito próprio deste conjunto.

Super Bock Em Stock, dia 2

Fomos mais acima, um bocadinho, e foi no Cinema São Jorge que se deu a segunda paragem. A sala começou um pouco vazia, mas ao longo do concerto de Zé Vito víamos o público chegar. O cantor, compositor e guitarrista já conta com quatro discos. O último foi lançado no dia 16 de Novembro e intitula-se Além Mar. O artista ficou conhecido com o seu álbum Já Carregou, que foi premiado como melhor álbum independente de 2014, pela editora/livraria Saraiva Brasil. É na combinação de diferentes ritmos que Zé Vito se sente confortável, como pudemos presenciar neste concerto – uma junção de reggae, com funk e até indie. Este concerto contou ainda com a participação especial de Marco Oliveira, cantor e compositor com raízes no fado. O artista juntou-se a Zé para a música “Cada um com sua crença”.

A caminhada seguiu para o Maxime, que agora é um hotel e perdeu o carisma de outros tempos. Encontrámos uma sala intimista, luxuosa e escura. O ambiente perfeito para April Marmara se dar a conhecer. Acompanhada por mais três mulheres e um homem, o folk desta jovem cantora encheu a sala e deixou todos encantados. April lançou este ano o seu álbum de estreia, New Home, que mostra influências fortes desta nova indie feminina, que tem trazido coisas muitos interessantes à cena musical. Certamente voltaremos a vê-la em palcos maiores, no futuro.

Descemos depois até ao Teatro Tivoli, para ouvir e ver o fabuloso brasileiro Tim Bernardes. Não seria de esperar outra coisa… a sala encheu e houve até quem não conseguisse assistir ao concerto por esta estar completa. Lá dentro o ambiente era intimista. As luzes apagaram-se e apenas um holofote iluminava Tim Bernardes, as suas guitarras e o seu piano. Mal se ouviram os passos de Tim a aproximar-se do palco, o público recebeu-o imediatamente com aplausos. O concerto começou com a música de abertura do álbum recomeçar, intitulada precisamente com o mesmo nome – “Recomeçar”. No entanto, foi com a segunda música, “Talvez”, que o público se entusiasmou mais. Na setlist contavam também os temas “Tanto Faz” e “Pouco a Pouco”. Atrevemo-nos a dizer que foi um dos artistas mais aguardados da noite, apesar de não ser a primeira vez que pisou os palcos portugueses.

Super Bock Em Stock, dia 2

O Cinema São Jorge foi novamente o nosso destino. Charles Watson caiu que nem um anjo branco no palco. Cheio de carisma e muito conversador com o público, mostrou belas canções, principalmente vindas do seu último álbum Now That I’m River. A sonoridade é sempre elegante e deixa-nos introspectivos. Não houve nenhum momento de emoção extrema, mas quem quiser um artista para ouvir numa noite de chuva à lareira – aqui está ele. Virámo-nos depois para baixo, e fomos até à Casa do Alentejo. A fila para ver Lola Marsh chegava até ao coliseu. Infelizmente, o espaço da sala EDP não era muito, e muita gente não teve a oportunidade de ver o belo concerto da banda israelita de Tel Aviv. Lola Marsh é formada, desde 2013, por Gil Landau e Yael Shoshana Cohen. Em 2016 lançaram o seu primeiro EP, You’re Mine, e em 2017, o seu álbum de estreia, Remember Roses. As vozes do público sumiram e só se ouvia o irresistível indie pop daquele duo. Yael mostrou-se segura em cima do palco, e até agradeceu ao público em português – “Obrigado”, disse a cantora. A sua postura em palco cativa qualquer pessoa numa plateia. As suas danças leves e a sua voz doce, tornaram o concerto mais nostálgico. No entanto, Gil também não ficou atrás, com a sua postura firme e de quem sabia bem o que estava a fazer. Esperamos vê-los em breve, novamente.

Super Bock Em Stock, dia 2

Seguimos para o concerto de Holly Miranda. Holly não encheu o Tivoli, como era de esperar. Mas isso não quis dizer rigorosamente nada. A sala estava novamente às escuras e Holly chegou até nós com um tom celestial. O concerto começou com a artista e a sua guitarra, instrumento que começou a tocar tinha apenas 14 anos. No entanto, foi quando trocou a guitarra pelo piano que aconteceu o momento mais bonito daquele concerto. Primeiro Holly, com a sua voz meiga e suave, começou a tocar a música “Imagine”, de John Lennon, e logo, de seguida, a cantora aproveitou o momento para se expressar. “Há alguns meses a minha mãe morreu, e eu escrevi esta música sobre isso”. Holly tem até uma música com o nome da sua mãe – “Gina” -, no álbum Mutual Horse. Foi provavelmente um dos momentos marcantes da noite para os fãs da artista.

Uma das desilusões da noite foram as U.S. Girls. Não tanto por culpa própria, mas pela qualidade do som que se fez ouvir. O projeto liderado por Meghan Remy apresentou-se num Coliseu a meio gás, e que motivou muitas movimentações na plateia. In a Poem Unlimited foi lançado este ano, e teve uma boa receção por parte da crítica. No dia a seguir foram tocar ao ZDB e talvez tenham tido melhor som e público mais recetivo.

The Saxophones eram uma das bandas mais esperadas da noite. A sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, encheu rapidamente. A banda norte-americana é formada pelo casal Alexi Erenkov e Alison Alderdice, mas também veio acompanhada por um baixista. Este duo editou em 2018 o álbum songs of The Saxophones. Na sua entourage vieram também com seu filho, ainda bebé, e com os avós para os ajudarem nesta tour pela Europa. As músicas da banda estão cheias de intimidade e cumplicidade, deixam-nos agarrados e a querer conhecer melhor aquele casal. A simplicidade destas canções é difícil de catalogar, mas têm um tom invernoso e aconchegante.

Numa noite que tinha sido pautada por momentos mais pesados e melancólicos, o Coliseu esperava por um fecho triunfante dos Jungle. A banda londrina tem uma sonoridade muito característica e começou bem a festa. Contudo, os problemas técnicos fizeram com que tivessem de interromper o concerto duas vezes. O ambiente esmoreceu, o público não se deixou contagiar e a festa acabou sem brilho. For Ever foi o álbum editado este ano, mas não trouxe nada de novo à sonoridade dos ingleses que editaram o seu primeiro álbum em 2014, Jungle.

O Super Bock em Stock cumpriu num dos objetivos, trazer novos nomes. Apesar de já ser um festival com historial, este talvez tenha sido um dos anos mais fracos em termos de cartaz. Num festival onde se tem de fazer escolhas, há que dar opções credíveis e diversificadas ao público. O festival tem de ter a capacidade de fazer uma reflexão e perceber como pode ser mais eficaz, sem comprometer o seu compromisso de divulgação e promoção de novos artistas.

Texto: Rodrigo Toledo, Liliana Gonçalves, Alexandra Tavares
Fotografias: Liliana Gonçalves e Alexandra Tavares