Recordo muito bem a primeira vez que vi Leo Middea. Foi num evento organizado pelo Sofar Sounds Lisboa, num pequeno jardim de uma casa entre o Príncipe Real e São Bento. Como todos os concertos do Sofar, não sabia o que havia de esperar. Ainda assim, este concerto apresentava um conceito um bocadinho diferente, uma vez que o email enviado na altura incluía um vídeo do artista. Chegou apenas ler a pequena descrição do músico e ver a fotografia dele só, apenas acompanhado por uma guitarra. Estava montado o cenário: um pequeno jardim com um limoeiro, cerca de 50 pessoas, e o Leo – tudo isto numa maravilhosa tarde de Verão.

Assim o Leo se apresentou com músicas bonitas, doces, cheias de história e sentimento. Olhar para ele e não ver um pouco de Chico Buarque e Caetano Veloso seria difícil. Essas influências notam-se na sua musicalidade e até mesmo nas letras. A música brasileira de voz e guitarra tem algo especial. É simples e funciona. Funciona muito bem, diga-se. Leo Middea tem 23 anos e vem do Rio de Janeiro. Embora ainda esteja numa idade tenra, já teve a oportunidade de viajar por vários países e espalhar a sua música. O seu percurso musical começou bem cedo. Aos 14 anos, no decorrer de uma paixão por uma menina, Leo apressou-se a aprender a tocar guitarra e a escrever canções, como uma forma de expressar os sentimentos que sentia na altura. Uns anos mais tarde, em 2014, lança o seu primeiro álbum, Dois. É um disco que fala sobre a agitação constante da cidade, a calmaria da natureza, e o turbilhão de emoções que o amor pode causar.

Dois

Dois é um disco honesto e cru. Algo que não tem nada de mau, pelo contrário! É possível ouvir os sentimentos nele depositados e a forma como Leo se lança ao mundo. O primeiro tema, “O Mochileiro”, não poderia ser uma melhor apresentação do Leo. A letra é simples, Leo dá um “oi” ao mundo e entrega-se ao que está por vir:

“Apaga esses teus planos e
Dá um “oi” pra vida que te espera
Na janela desse teu apê,
Um toque na liberdade,
Já te faz voar.
Cuidado que a vida vem aí,
Sentir o real
E logo após tua chegada
Eu vou estar, por aí.”

A guitarra é o instrumento do qual o músico se faz sempre acompanhar, sendo também o instrumento base para este álbum. O samba, bossa nova, MPB (música popular brasileira), ou até mesmo funk (e algum rock) são os pilares característicos do trabalho do Leo. É música brasileira pura que traz alegria e vontade de dançar. Neste disco é possível ouvir músicas que apenas têm voz e guitarra, como é o exemplo de “Tua Casa”, em que nada mais é preciso. Existem outros temas que são mais complexos, como é o caso de “Bilhete”, onde se ouvem violinos, que poderiam lembrar um filme antigo, e que acaba com uma guitarra em distorção, lembrando um tema forte do rock. Pelo meio existem temas que vivem da construção musical mais simples, onde, gradualmente, ritmos de percussão se vão adicionando. O primeiro disco do Leo é um banquete festivo que enche, e bem, os ouvidos de bons sons, trazendo alegria e esperança.

Após o lançamento deste primeiro disco, e com uma recepção modesta no Brasil, Leo parte para Argentina, onde tem a oportunidade de dar cerca de 23 concertos, em 2015. Esta viagem mais a sul da América Latina serviu, então, como uma rampa de lançamento para alcançar sucesso no Brasil. As viagens de Leo até aqui permitiram que estas fossem fonte de inspiração para a gravação de um segundo álbum, A Dança do Mundo. Pouco depois do lançamento do mesmo, Leo Middea esteve num retiro na Índia, de forma a acalmar a ansiedade gerada pelo sucesso do segundo álbum. Este retiro permitiu também que ganhasse força para iniciar uma tour por diversas cidades brasileiras, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

A Dança do Mundo

Em 2016 sai o segundo disco. Do carimbó ao rock, este novo trabalho é uma colectânea das experiências e aprendizagens feitas durante as suas viagens pelo mundo. Em pouco tempo, Leo conseguiu que o seu disco se tornasse um dos álbuns mais adorados pela imprensa brasileira e portuguesa, sendo colocado em diversas selecções como um dos melhores discos do ano. “Tibethânica” abre, alegremente, este segundo disco. O riff da guitarra começa, segue-se a percussão, terminando nos metais. É uma música que nos deixa felizes e cheios de vontade dançar. As primeiras letras não poderiam descrever melhor as curiosidades de quem viaja. Tratam-se de um recordar de que Leo foi ver o mundo, viajar por aí:

“Em qualquer rua
Palestina, Istambul
Você vai e pergunta
Vou bem e você?
Também
Então tá”

A segunda música apresenta a primeira participação, Vanessa Moreno. “Ciranda”, na sua etimologia, trata-se de uma dança e música originária da Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, onde as mulheres dos pescadores cantavam e dançavam, aguardando o seu regresso do mar. No videoclipe desta música vemos “Leo” (o actor Caique Gueri) a fazer essa dança, mostrando-se à sua companheira.

Continuando com a participação de Vanessa Moreno, é feito o destaque para o quarto tema do álbum. Leo conta que esta música surgiu após uma discussão com a sua mãe, em casa, no Rio de Janeiro. A sua mãe dizia que a música (ou a vida de artista) nunca iria dar certo. “Seria impossível!” Embora argumentando o contrário, Leo também tinha essa dúvida na sua cabeça. Em vez de ficar a pensar em qual seria a resposta certa, Leo decidiu transformar essa dúvida em canção, nascendo assim “Meu Público”.

“Celebração” poderia bem ser todo o mote para este álbum. Tendo a participação de diversos músicos brasileiros, neste tema ouve-se uma autêntica festa, como se Leo tivesse reunido os seus amigos e estivessem juntos a celebrar a música e a vida. “Pedaço do Céu”: não é à toa que estas palavras são escolhidas para o título deste artigo. Cantada por Leo e Bruna Moraes, esta “quase-balada”, acalma os ânimos e apela à bondade passível de ser encontrada no coração das pessoas. É uma música que ao vivo arranca sempre um uníssono “meu coração é um pedaço do céu”, por parte do público.

O último destaque deste artigo é “A Valsa”. Leo Middea perguntou: “O que é a ansiedade para você?” Revelando um videoclipe pessoal e introspectivo. Uma vez mais, em vez de manter os pensamentos para si só, Leo transformou-os em arte. Sob a forma de música e dança, Leo mostra a sua ansiedade perante o mundo. Nos tempos que correm, difícil é alguém não se sentir assoberbado com os milhares de estímulos existentes no dia-a-dia. Para Leo, a música continua a ser uma das mais puras e belas formas de traduzir os sentimentos que dominam a sua mente.

Um ano após ter lançado este disco, Leo mudou-se para Portugal, onde teve a oportunidade de divulgar o seu trabalho, usando também Lisboa como fonte de inspiração para a sua música. Entre estadias em Portugal e noutras cidades da Europa, para dar a conhecer a sua música, Leo vai dando a oportunidade ao seu público de o conhecer um pouco mais – tendo já revelado algumas datas para o ano que se avizinha.

Texto: João Conceição
Fotografia: Zéca Viera