Será possível uma pessoa, sozinha, encher os olhos, os ouvidos, as medidas todas, e ser uno com várias artes que são o fio condutor de um concerto, que deixa de ser só um concerto e se torna num espectáculo? Sim, e já foi provado por vários artistas, até – portugueses ou não. A Negra é um desses artistas. Esta é precisamente a descrição do projeto de Sara Ribeiro, não só atriz e música, como um pedaço de arte viva. Fomos ao concerto no Musicbox, na passada sexta-feira, dia 11 de Janeiro – para começar o ano em grande.

Ao entrar no Musicbox, naquele dia, a primeira coisa que nos saltou à vista foi provavelmente a decoração do palco. A árvore e a iluminação usada sobre a mesma davam um ar estranhamente aconchegante, e permitiam aos olhos redescobrir, vezes e vezes sem conta, a beleza do simples palco. A Negra estava projectado no fundo do palco. O que é A Negra? Achávamos que sabíamos mas, na realidade, acho que ninguém estava preparado para o desenvolvimento de calor e efusões que aconteceram ali. Podemos avançar que foi uma óptima surpresa.

Mal ela entrou em palco, foi como se o mesmo ganhasse outra vida. O carisma transbordava a jorros e os movimentos eram tão descoordenados, sendo ao mesmo tempo coordenados, transformando-os numa contradição constante. Era como se ela encarnasse cada nota tocada pelos músicos que a acompanhavam (Hugo Novo – GNR, Loopless – no teclado e Márcio Pinto – Terrakota, Olivetreedance – na bateria). Mas tudo ao mesmo tempo, num turbilhão constante de encarnar várias coisas ao mesmo tempo, tornando-a num poço de variadas emoções que lutam entre si, para decidirem qual o grande destaque. A Negra cantou sobre temas actuais da nossa sociedade – quase todos, temas que arrancavam sorrisos, fosse pela sinceridade ou pela maneira como ela os interpretava. Para A Negra não há lugar para poupança de latim, seja este meigo ou não. Durante uma hora ela esteve aqui e ali, em vários géneros musicais que se ligavam pelo carisma e a linha condutora de pensamento, que Sara Ribeiro nos induz a ter ao longo do espectáculo. Esteve em vários timbres; em várias danças frenéticas e incansáveis; em várias expressões faciais, que acusam a sua costela de atriz.

Versatilidade, é a palavra de honra para descrever o concerto que foi uma genuína e muito boa surpresa. No fim, deixou um Musicbox a pedir por mais, mas sem sucesso. É como nos teatros. Quando acaba, acaba. Querem mais, voltem. E de certeza que voltarão.

Alexzandra Souza
Foto: Teresa Lopes da Silva