Matt Flegel (voz, baixo), Michael Wallace (bateria), Scott Munro (guitarra, sintetizador) e Daniel Christiansen (guitarra) formam os Preoccupations, outrora conhecidos como Viet Cong. São uma banda proveniente do Canadá que, desde 2015, marcam o mundo do post-punk de uma maneira forte e eficaz. Lançam o ano passado o terceiro álbum de estúdio, New Material (pela Flemish Eye, no Canadá, e Jagjaguwar, nos Estados Unidos) e, com isso, ganham uma voz ainda mais sólida e compacta.

Depois de dois álbuns muito bons, Viet Cong e Preoccupations, o terceiro só poderia ser igualmente bom ou alcançar um nível de qualidade ainda maior. É difícil entender se alcançaram um maior nível de qualidade pois, este é tão bom quanto os seus antecessores. De uma coisa estamos certos: é diferente, mais maduro, mais obscuro. Tudo amadureceu: a voz de Flegel, o instrumental, as composições… Idem. Eles são quatro músicos que apenas querem fazer umas músicas porque isso os faz felizes. O que eles muitas vezes não reconhecem é a importância que, de facto, têm neste mundo da música. E a importância deste álbum, seja pela sua qualidade musical ou o tema que aborda, é fulcral e todos esses factores tornam este álbum, num dos mais significativos do ano passado. Como dito por Flegel, vezes sem conta, New Material é uma ode à depressão, à sabotagem de nós mesmos. É um grito que serve para exprimir emoções inexprimíveis. O que pior sentimos não deve ser visto com vergonha. Deve antes ser falado, exprimido. E é isso que a banda faz aqui.

“Espionage” retrata isso mesmo. É a primeira faixa do disco e, também, a primeira composição de Scott Munro para a banda. É um aviso de atenção às emoções que não querem sair do lugar. É sobre o peso que elas carregam, sobre a urgência de mudança de estado emotivo (e não só) – é sobre a mudança no geral. E mudar é difícil, muito difícil e por vezes a falta dela tira-nos o sono e causa dor. “Change is everything, changes everything, changing everything, (but it’s nowhere to be found)” – não é esta a história de quase todas as nossas vidas? “Decompose”, a seguinte faixa, tem um sample da guitarra do Matt. É tudo synth, diz a banda. “Disarray” é vista por Flegel como a mais optimista do disco – diz ele que é a sua versão do otimismo. Na realidade, parece mais um catártico pessimismo. O instrumental carrega uma espécie de nostalgia ferida. “Everything you’ve ever been told is a lie” – soa como o desabafo de alguém que está cansado de ser desiludido. No fundo, uma música que deixa tudo fluir e ir, de modo consciente e pacífico.

“Manipulation” é marcante no que pretende e consegue transmitir. Quase uma chapada de luva branca sobre manipulações – e elas acontecem todos os dias sejam em que contexto forem. “Please don’t remember me like I’ll always remember you”, canta Flegel que descreve esta canção como a mais pessoal do álbum. A bateria, praticamente em loop, leva o protagonismo em “Antidote” que, é daquelas que mais tarde fica-nos a pairar na cabeça. “Solace” é talvez das melhores faixas deste álbum. “Seeking solace in shadows”, canta Flegel. A realidade é que os frios mas, ainda assim, doces e reconfortantes acordes encontramos o consolo necessário de qualquer coisa que estejamos a precisar. Segue-se “Doubt”, a mais viciante do álbum. A que fica em replay dois dias se for preciso e nunca cansa. Talvez seja da bateria flamejante de Wallace. Ou talvez, seja só o conjunto de tudo. Flegel não canta muitas palavras – mas também não precisa. A energia que a música emana, fala por si só. E é magnífica. O álbum acaba com um instrumental, “Compliance”.

Os Preoccupations não são bons – eles são excelentes. Incrivelmente excelentes. E preenchem qualquer espaço vazio de compreensão externa, que nos possa faltar. As músicas compreendem as emoções mais negras que possamos ter e são, no fundo, um reconforto gigante. New Material foi um dos álbuns do ano de 2018. E Preoccupations uma das melhores bandas dos últimos tempos. É indiscutível.

Nota: 8.0/10

Alexzandra Souza