O mundo está, ultimamente e cada vez mais, repleto de novas bandas que aparecem todos os dias. Bandas boas e bandas más. Músicas que ouvimos que nos deixam de queixo caído e, outras que nos arregalam os olhos pelas piores razões. E ainda bem que assim o é. Mas, a realidade nua e crua é que, quando nos perguntam por uma banda preferida é raro vir ao pensamento aquela banda que apareceu há dois, três ou cinco anos. Geralmente, dizemos um nome épico ou uma banda com já alguma bagagem. Mas, como em tudo na vida, há excepções: e os Preoccupations são mesmo isso. Uma excepção. Uma banda recente, (aparecem em 2012), e que já marcam terreno em vários corações com o título de “banda preferida”. Tocaram esta sexta-feira que passou, no RCA Club, com o selo da At The Rollercoaster. E eu estive lá para vos contar tudo.

Era previsível que fosse esgotar – estamos a falar da, provavelmente, melhor banda recente da cena do post-punk. E, ao entrar no RCA Club adentro, naquele dia, tal foi verificado: uma sala que abarrotava de uma ansiedade urgente de ouvir as canções que marcam vidas. O RCA Club não é o melhor sítio em termos auditivos – o som deixa sempre um pouco a desejar. Mas nem isso impediu os canadianos de darem um concerto, que se prevê, um dos melhores do ano. Com um ligeiro atraso – tudo o que é bom, demora a chegar – os Preoccupations subiram a palco. Não foram homens de muitas palavras, nem precisaram de o ser. Apenas eles ali a tocar, naquele momento único e singular, bastavam para encher corações e matar vontades de ouvir aquelas canções, que se sabem na ponta da língua de tanto se ouvir em casa.

O público merecia-se mais explosivo e pareceu não entender sobre o que estava perante – uma das melhores bandas da actualidade. Eles merecem explosão, euforia, alegria, letras que não precisam de ser sabidas na ponta da língua mas que merecem ser sentidas. Ser sentidas com todos os ossos que temos. Sim, a dicção de Matt nem sempre é a melhor, mas não precisa de ser. As palavras cantadas, pelo timbre excepcional e muito especial de Flegel, são absorvidas por quem o ouve e fundem-se com os sentimentos de uma forma especial. Até mesmo quando não entendidas o ritmo dá-nos um fio condutor. Verdade seja dita, o coração não precisa de palavras para entender sentimentos, do mesmo modo que os nossos ouvidos não necessitam de entender o que Flegel diz. A sua expressividade diz-nos tudo e isso basta.

Os Preoccupations são especiais – há algo de muito especial neles. Quase inexplicável. Algo emotivo que faz que dos seus concertos resulte uma espiral de sentimentos contraditórios. E foi mesmo isto o concerto: uma ode às expressões pessoais, do que de cada um sente ao ouvir estas canções que nos falam de depressões, problemas (sejam eles quais forem). É uma espiral que nos traz alegria mas, também, vontade de deitar lágrimas, raivas e sentimentos incompreendidos cá para fora. Eles são quatro tipos muito especiais – embora apenas se vejam como quatro tipos que fazem música normal. A questão é que é muito distante disso: seja por Wallace, que é um elemento essencial e provavelmente um dos melhores bateristas da actualidade; pelo timbre de Flegel; o mundo em que Dan se coloca à parte de tudo, e até da banda; ou a singularidade de Scott. É distante disso porque não é bom – é excelente, único, excepcional e nenhuma palavra faz qualquer tipo de jus a eles. É de destacar “Death”, pela forma como Wallace, incansavelmente, nos deixou de queixo caído e com um sorriso parvo na cara. É como se o baterista e a bateria fossem apenas um – e que mais bonito é ver um músico a ser não só músico, como também a ser músico e instrumento que toca? Wallace, se calhar, não se apercebe mas não há muitos como ele. Ele é uma apoteose. E muito mais não há a dizer.

Percorreram os três álbuns de uma carreira curta, mas indubitavelmente genial. Portugal já não os via desde 2016, quando deram um concerto explosivo no Musicbox. O desta noite foi também ele explosivo e muito bom. Atrevo-me mesmo a dizer que estive perante um dos concertos do ano. A sala preencheu-se de emoções que gritavam, e saltavam e explodiam aqui e ali. Emoções, elas, que prometeram não ficar quietas – até mesmo depois do concerto terminar conseguia-se ver a euforia, ainda, presente em alguns corpos.

À medida que o concerto ia avançando, podíamos ver a qualidade a melhorar. O concerto a aquecer, e aquecer, e a terminar numa explosão sentida. Experienciou-se, também, a sensação triste de que o tempo escapava-nos pelos dedos. Sim, à medida que aquecia e melhorava e tínhamos cada vez mais a sensação de conforto e que de estávamos em casa, tínhamos também a certeza de que o concerto estava quase a encontrar o seu final. Tudo o que é bom, também, acaba. E, este concerto encontrou o seu fim, após uma hora e uns quantos minutos de um concerto que é completamente inexplicável em palavras. A energia que eles emanam é algo que se aconselha e recomenda a se ver. É um pote que jorra felicidade afora e que nunca se extingue. É uma luz ao fundo do túnel que nos reconforta mesmo nos piores momentos da vida. É uma terapia – seja a música deles ouvida em casa ou indo-se a um concerto. De uma coisa estou certa: soube a pouco. Foi excepcional, mas de tão bons que são, de tão bom que foi, soube a pouco.

Os Preoccupations são especiais. Muito especiais. E o concerto foi especial, muito especial. Não passem uma vida inteira sem ver estes quatro senhores ao vivo. Eu garanto-vos que a vida ganha outro sabor e que é um momento inesquecível – daqueles que sabem a tudo e mais alguma coisa. Daqueles que valem toda a pena. Daqueles sem grande espaço para uma descrição, seja ela com palavras escritas ou com ditas. Daqueles especiais, muito especiais.

Texto: Alexzandra Souza
Fotografia: Daniel Jesus (Música em DX)