A monotonia, que uma semana pode ter, é algo que pode determinar a nossa disposição de querer, ou não, alargar os horizontes e dar algum movimento às diversas rotinas. Ou, mesmo, a freneticidade em excesso dá vontade de reunir num momento, onde podemos libertar toda e qualquer energia. A música é um dos, muitos, veículos utilizados para ambos os efeitos. E os Yo La Tengo uma banda que nos ajuda de ambas as formas. Foi na quarta-feira passada, dia 6 de Fevereiro, que os americanos voltaram a Lisboa para um concerto em nome próprio. Fica a tradução das imagens que os meus olhos viram, em palavras.

O Capitólio é uma espécie de estufa – demasiado quente, faça frio ou calor. Mas, neste dia, não foi só o calor incomodativo e infernal que nos tirou o fôlego. Os Yo La Tengo são um dos mais importantes marcos da história do indie rock. Inegável. Foram uma das bandas pioneiras, do género, e afirmar o contrário é indouto. Senhores de poucas palavras, subiram a palco e começaram o serão com a canção, “You Are Here”, que abre o disco de 2018, “There’s a Riot Going On”. A sala, então, deixou de se ensopar num entorpecimento causado pelo calor e entrou rapidamente no universo da banda, absorvendo-o por completo. Ganhou-se uma nova vida e cor, dentro do Capitólio.

Os olhos de quem via brilhavam perante um palco magicamente enfeitado de vinis e, convenhamos, pelos três cintilantes talentos que tocavam para nós. Assim que Ira decide ressoar, as primeiras palavras cantadas que ouvimos naquela noite, os arrepios automaticamente instalaram-se e estava lançado o enunciado de um inesquecível concerto. Não só Ira arrepia ao cantar – a doce voz de Georgia que nos aquece o coração e ecoa na mente, nos espectros das nossas memórias das músicas quando estamos já em silêncio, é realmente qualquer coisa de muito bom e inexplicável.

A nostalgia teima em estar presente nos acordes, ora recentes, ora de anos que já lá vão. De olhos fechados é talvez das melhores decisões de como se passar uns belos segundos a viver este concerto. A sentir este concerto. Mas de olhos abertos também – é incrível ver o quão bem eles tocam. O quão bons eles são. Talvez seja genérico de se dizer, mas é verdade: eles tocam aquelas composições, que tanto nos dizem, demasiado bem. E deixa boquiaberto quem os observa com atenção. E a sala, quase lotada, observou e silêncio se fez para que tudo se pudesse ouvir, harmoniosamente. Tocaram durante uma hora seguida onde nos souberam carregar as baterias, desgastadas ou não, de energias muito ou mais positivas com as que já vínhamos. Seguiu-se um intervalo, e voltaram para mais uns longos minutos de belezuras emotivas. “I’ll Be Around”, “Deeper Into Movies” ou “Pablo and Andrea” foram alguns dos muitos deleites de um serão que nos ficará para sempre na memória.

Terminaram com alguns covers e sorrisos que ficam, não só com eles, mas com todos nós. Foi um caloroso, muito desejado e emotivo regresso. As boas coisas da vida provocam sorrisos contagiantes – e um concerto dos Yo La Tengo é dos melhores momentos que podemos presenciar enquanto estamos por cá, a respirar e a ser tanto felizes quanto nos permitimos (ou podemos). Porque não viver a par do bom que a vida tem?

Texto: Alexzandra Souza

Fotografia: Ana Pereira (Música em DX)