A editora Cuca Monga já é uma família grande, onde há muitos primos, todos se dão bem e há um muitas afinidades. No entanto, cada um tem a sua identidade, cada banda e cada artista tem a sua maneira de fazer música. Eles até podem ter as mesmas referências musicais, mas conseguem ter uma abordagem distinta ao criar as suas canções e fazer algo relevante. Os Ganso são um dos primos desta família. Na verdade, eles são o primo que tem piada, que consegue animar o resto da família num serão de domingo. Os jovens de Lisboa fazem música para entreter e divertir quem os vais ver e ouvir, com as suas canções a destacarem episódios curiosos do seu dia-a-dia, ou brincar com as palavras, ou até com private jokes. O mundo dos Ganso é um mundo familiar onde todos se sentem bem.

Tal como acontece em muitos casos, os primos mais velhos assumem um papel influenciador muito importante. São eles que muitas vezes indicam o caminho e mostram os livros, os CDs ou filmes que valem a pena ver. Neste caso, os Capitão fausto assumem este papel de primos mais velhos. Quando vemos as duas bandas em palco é notório o estilo, as expressões ou até as parecenças que as bandas partilham. Apesar de virem da mesma família, é possível separá-los e distinguir o que cada um faz. As suas personalidades são diferentes, mas complementam-se. Cada um tem o seu desígnio artístico.

Os Ganso como banda começaram o seu caminho em 2014, quando Thomas Oulman, um dos membros da banda, decidiu comprar uma bateria num acto autodidacta, descoomplexado. Como a sensação de estar sozinho a embarcar nesta veia mais artística não lhe parecia certa, desafiou o seu amigo João Sala para tocar consigo, e depois vieram Luís Ricciardi, Miguel Barreira e Gonçalo Bicudo. Todos eles eram amigos e conhecidos do liceu. Não tinham nada perder, nem tinham muita experiência, mas queriam arriscar – assim nasciam os Ganso.

Um dos primeiros locais onde começaram a surgir ideias foi a pequena localidade de Mogofores, perto de Anadia, onde João Sala tem um poiso familiar, e onde José Cid também descansa. De lá saíram as primeiras canções, como “Idalina”, personagem local, e “Pistoleira”. Essas duas canções fizeram parte do seu primeiro EP, Costela Ofendida, que saiu em Novembro de 2015. Um primeiro trabalho que já reflectia influências dos Capitão Fausto, do José Cid ou do Samuel Úria. Neste primeiro trabalho já havia espaço para experimentação, para brincarem com a música e com as palavras e, sobretudo, espaço para errarem. Foi um EP sem medos e que resultou bem. Acima de tudo, os Ganso perceberam como a sua música resultava melhor.

Contudo, havia ainda muito por onde explorar. O grupo junta-se então à editora Cuca Monga, fundada por Joaquim Quadros (radialista da Vodafone FM). É nesta família que conseguem finalmente dar azo a outras pretensões, junto dos primos Capitão Fausto e Luís Severo. Em Alvalade, onde estes gravam e ensaiam, puderam dar continuidade a um trabalho diário de aperfeiçoamento. Sem grandes demoras, depois do EP puseram mãos à obra para lançar o primeiro álbum. Enquanto isso, partilhavam palco com os projectos paralelos dos Fausto e rodavam um pouco pelo país para ganhar tarimba de palco.

Pá Pá Pá nasce em Abril de 2017. O primeiro álbum dos Ganso tem uma capa juvenil, mas neste trabalho a maturidade nota-se pela maneira como querem construir a sua música. Aliás, os Ganso assumem-se desde o princípio como uma banda algo irónica, que não se leva demasiado a sério e que se quer divertir. Numa entrevista à Antena 3, eles dizem isso mesmo: “a risota é uma maneira de estar na nossa vida e naquilo que criamos”. Neste conjunto de canções há esse lado irónico, com músicas como “Brad Pintas” e “Grilo do Nilo”, mas também músicas instrumentais como “Dança de Sabão” deambulam por terrenos mais incertos. Este segundo momento funciona bem como um todo e dá uma boa continuidade ao EP.

Sem grandes pretensões, mas com uma leveza na sua maneira de estar, os Ganso seguem um caminho consistente. O futuro próximo dirá se ficaram próximos da sua família ou se ficaram a descansar por Mogofores. Na sua música há um lado lúdico e vivo, que faz com que haja uma certa curiosidade por ouvir mais histórias e conhecer outras personagens. Se entretanto surgirem outros primos, nós estaremos cá para os conhecer.

 Rodrigo Toledo