Foi um serão de índole vincadamente íntima aquele que decorreu ontem no Musicbox, em mais uma das acções inaugurais do Gig Club, que vai semeando concertos acutilantes pelo panorama nacional. Conforme anunciado, Ryan Karazija apresentou-se sozinho em palco, num exercício que raramente executa, mas o qual cumpriu com mestria, sabendo rentabilizar o ambiente quase caseiro que o momento criou com a partilha das histórias que motivam e inspiram as suas canções. Tanto as conhecidas como as novas, porque houve a oportunidade de conhecer em primeira mão três temas que farão parte do próximo disco de Low Roar.

Munido apenas de viola e teclado, os quais foi intercalando ao longo do alinhamento (ver abaixo), Ryan usou dois microfones (um com som normal e o outro atulhado de efeitos) para oferecer maior preenchimento à sua actuação a solo. Com os efeitos do segundo microfone foi, aqui e ali, quase replicando os teclados, sintetizadores e cordas que normalmente se escutam nas composições de Low Roar como colectivo. O vocalista, que dignamente representou o projecto que o próprio chefia, decidiu contar o contexto da maior parte das canções que interpretou no Musicbox, de forma a tentar adaptar-se a este formato a solo. E em boa hora o fez, dado que se mostrou um excelente comunicador e é sempre enriquecedor entrar mentalmente pelos bastidores das canções.

Dado não saber como decorreria o concerto, Ryan confessou que não planeou o alinhamento do mesmo, apenas decidiu a priori guardar o troço final para pedidos especiais que o público tivesse, e aos quais lograsse acorrer, dado nem todas canções estavam na ponta a língua. Dessa forma, “Vampire on My Fridge” e “Gosia” foram escolhidas pela audiência, sendo que esta última formou o encore do espectáculo e soou especialmente bonita. A interação com a plateia tinha atingido o seu clímax um pouco antes, quando o vocalista californiano perguntou se algum dos presentes arriscava a cantar “Bones” com ele, visto precisar de recrutar alguém para fazer as vozes que a islandesa Jófríður Ákadóttir assinou em estúdio. E o recrutamento foi coroado de êxito dado que houve realmente um voluntário com coragem para o acompanhar. “Bones” foi um dos temas em que o piano brilhou tendo sido “I’ll Keep Coming” o primeiro momento da noite a integrar o teclado que Ryan tinha em palco, tocada tal e qual como foi composta pelo músico no sofá de sua casa.

As canções novas mostraram-se bastante interessantes, ainda que tenhamos ouvido as versões embrionárias, com destaque para “222”, que versa sobre uma relação que Ryan entretanto terminou em Varsóvia, tendo por título o número do autocarro que lhe permitia encontrar-se com a ex-namorada em questão. Curiosamente, os Low Roar detinham já um tema sobre ex-relações com um nome baseado em transportes públicos (no caso, “St. Eriksplan”, nome retirado duma estação de metro em Estocolmo). Outro dos temas do álbum vindouro debruça-se sobre a relação com os seus pais e a percepção da mortalidade dessas pessoas que lhe são tão queridas. Ryan revelou que a sua mãe chegou a viver uns anos em Lisboa, mercê de um programa de intercâmbio de estudantes, daí ter partilhado com ela algumas fotos do seu passeio pela cidade no período que antecedeu o concerto.

Foi um serão único, ao longo do qual o público não parou de absorver as inspirações que fazem rugir as canções de Low Roar, além de poder escutá-las em formatos extremamente únicos, dado que por norma não são abordados pela banda.

Uma merecida menção final ao público que marcou presença neste concerto, dado que revelou um comportamento irrepreensível, respeitando na íntegra a fragilidade da música em questão. Sabemos que não deveria ser assinalado, mas cada vez mais testemunhamos o inverso, daí a ressalva. Aguardemos pelo regresso de Ryan em conjunto com os restantes elementos de Low Roar, eventualmente para dar a conhecer o futuro disco, conforme o próprio deixou no ar.

Alinhamento:

- Friends Make Garbage

- Just a Habit

[new song]

- I’ll Keep Coming

- Easy Way Out

- 222

- Breathe In

[new song]

- Bones

- Dreamer

- Vampire on My Fridge

- St. Eriksplan

   [encore]

- Gosia

Álvaro Graça