Um autêntico nevoeiro deu as boas vindas às várias centenas de pessoas que se dirigiram à Culturgest na passada sexta-feira, de forma a assistir à estreia do disco Ilha de Plástico do trio constituído por Norberto Lobo, Marco Franco e Bruno Pernadas. Um nevoeiro provavelmente provocado pela frescura das ideias que este projecto emana a partir do palco.

Durante a visita guiada à Ilha de Plástico, os músicos vão rodando várias vezes pelos três postos que fixaram no palco. À excepção de Marco Franco que nunca abandona os seus teclados (tanto o clássico como outros mais tecnológicos), acabando por ser o alicerce à volta do qual se edificam as composições das Montanhas Azuis, Bruno Pernadas e Norberto Lobo intercambiam guitarras, pedais de efeitos, caixas de ritmos, vocoders e sintetizadores, como forma de explorar o máximo de ângulos de criatividade possível, potenciando a magia da tríade. É por meio destas ferramentas que elaboram todas as infraestruturas do território da sua ilha, sendo a electrónica analógica a matéria-prima dominante.

Há que mencionar que existe um quarto elemento envolvido no concerto, dado que Pedro Maia foi escalonado para pintar com a sua selecção de filmagens as paisagens sónicas desenhadas pelas Montanhas Azuis. As imagens, sempre abstractas, trouxeram-nos a ideia de frescura gelada, um pouco como efeito desempenhado pelo nevoeiro artificial no meio do qual se procedeu ao arranque da noite. O facto de Pedro Maia não ter recorrido a elementos perceptíveis, abriu a porta à imaginação de quem se fixava nas projecções. Esta vertente cinematográfica do espectáculo transmitiu simultaneamente a ideia de movimento, de forma quase permanente, dando ainda mais sentido ao conceito de viagem que a parte musical nos motiva a fazer.

Trata-se de uma viagem puramente experimental, como todos saberiam quando embarcaram nela, mas que consegue nunca exceder os limites que poderiam levar a perder a audiência, que muitas vezes acaba por se desconcentrar no meio de tanta experimentação. Para isso contribui irmãmente o facto das peças que formam a Ilha de Plástico não serem exageradamente extensas, algo que se regista recorrentemente nestas áreas musicais menos lineares. Por exemplo, no registo de estúdio, apenas o último tema excede os quatro minutos de duração. Isto faz do concerto uma excursão que não é feita a correr, permitindo que o público aprecie e beba cada recanto do destino. Uma óptima proposta até para quem normalmente não consome estes caminhos sónicos mais arrojados.

No final voltou o nevoeiro, assinalando que o perímetro da ilha tinha sido calcorreado com êxito.


Álvaro Graça
Foto: Vera Marmelo