Lisboa teve o privilégio de receber duas noites da tour Mezzanine XX1, dos enormes Massive Attack. Esta celebra o vigésimo aniversário do icónico álbum Mezzanine (1998) e foi num ápice que os bilhetes para o Campo Pequeno se esgotaram. Nós estivemos na primeira destas noites e foram vários os momentos em que sustivemos a respiração perante o que acontecia diante de nós.

A noite estava fria, mas o público não falhou a chamada. Esta segunda-feira, dia 18, foi a primeira de duas noites dum espectáculo que prometia ter pouco de nostalgia e muito de vivências da banda ao longo destes últimos 20 anos. A escassos minutos das 21h, o ecrã principal iluminou-se com flashes intermitentes, antecipando os primeiros acordes duma inesperada versão dos The Velvet Underground, “I Found a Reason”. Esta foi acompanhada por uma série de trechos de vídeos das últimas décadas – que incluíram uma perdida Britney Spears à procura do cartão da sua máquina fotográfica.

Ainda que soubéssemos de antemão que os Massive Attack se referiram aos espectáculos da tour como “uma ópera destes tempos de incerteza”, não antecipámos uma tão elevada carga emocional. Os múltiplos ecrãs gigantes por detrás do palco serviram como suporte às sequências de mensagens, imagens e vídeos durante a generalidade do concerto, fazendo com que nos sentíssemos perante uma privilegiada sala de cinema documental, com um som de extrondosa qualidade. Tratou-se de um espectáculo claramente pensado ao mínimo detalhe pela banda que tem como membros activos 3D (Robert Del Naja) e Daddy G (Grant Marshall), e concretizado também por Adam Curtis, documentarista inglês da BBC – a mente por detrás da experiência audiovisual do espectáculo. Em palco estiveram quase sempre sete músicos, entre os quais dois bateristas, e pela voz passaram ainda Elizabeth Fraser (Cocteau Twins) e Horace Andy.

Os temas de Mezzanine sucediam-se, intercalados com versões de The Cure, Bauhaus ou Ultravox. As mensagens focaram temas como a globalização tecnológica – ”Em tempos os dados iam libertar-te” foi uma das primeiras frases; focaram política, com trechos de discursos de Trump mas também imagens da revolução francesa; focaram a cultura pop, que não ficou pela Britney mas teve também espaço para o Feiticeiro de Oz e o Rato Mickey; focaram também as guerras que têm assolado o mundo – tendo esta parte incluído trechos particularmente desconcertantes e algo gráficos. Acreditamos que a banda elaborou com este espectáculo uma tentativa de despertar o seu público da dormência, mais recorrente do que gostaríamos de admitir, perante o que acontece à sua volta.

“Angel” e “Teardrop” proporcionaram uma sequência perturbante, que focou o palco através de estratégicas e singelas luzes brancas, o que nos permitiu simplesmente absorver ambas as letras – mantemos sempre próxima a referência “Love, love is a verb. Love is a doing word. Fearless on my breath”. A este par de músicas seguiu-se um sample de “Levels” (Avicii), que pareceu inusitado mas se revelou eficaz na mudança de tom. “Group Four” recuperou os vídeos em background, parecendo-nos todos eles em rewind, como se a banda nos quisesse levar de volta ao passado, talvez de volta ao princípio. “Estamos presos numa espiral sem fim, está na hora de deixar os fantasmas para trás” – foi esta a mensagem final dos ecrãs.

Não existiu qualquer encore e nós estávamos tão atordoados perante aquilo a que tínhamos acabado de assistir que, acompanhados pela generalidade do maduro público, demorámos ainda alguns minutos a abandonar a arena do Campo Pequeno. Felizmente temos na nossa língua uma expressão para o sentimento provocado por estes 90 minutos de concerto: um murro no estômago. Em retrospectiva, apercebemo-nos que não existiu uma única interacção com o público, nenhum “obrigado” ou “nice to meet you”. Essa não nos fez falta absolutamente nenhuma nesta noite – a mensagem passou.

Texto: Andreia Duarte
Fotografia: Everything is New

Alinhamento:

01. “I Found a Reason” (The Velvet Underground)
02. “Risingson”
03. “10:15 Saturday Night” (The Cure cover)”
04. “Man Next Door”
05. “Black Milk”
06. “Mezzanine”
07. “Bela Lugosi’s Dead” (Bauhaus)
08. “Exchange”
09. “See a Man’s Face” (Horace Andy)”
10. “Dissolved Girl”
11. “Where Have All the Flowers Gone?” (Pete Seeger)
12. “Inertia Creeps”
13. “Rockwrok” (Ultravox)
14. “Angel”
15. “Teardrop”
16. “Group Four”