Em semana de grandes concertos, para variados gostos e estados emotivos, fazia falta a quebra de peso que recaía sobre os ombros e a descarga das energias que embargam possíveis felicidades. A semana já ia a meio, e geralmente o pretexto para calçar os sapatos de dança só se concretiza à quinta ou à sexta. Esta semana seria diferente. Gyedu-Blay Ambolley fez a sua estreia em Portugal, no B.leza, na quarta-feira, dia 20 de Fevereiro.

Todos os dias são propícios a celebrações, desde que assim exijam as vontades e estados de espírito. Quarta-feira poderia não ter sido um desses dias, mas o destino quis que fosse uma memorável festa. O relógio marcava as dez e pouco da noite, os termómetros enregelavam os ossos. Os pesados casacos, que protegiam do frio, mais cedo do que imaginaríamos seriam largados no chão ou no bengaleiro destinado a isso – e no lugar dos casacos, estariam bebidas nas nossas mãos ou o cigarro típico do alegre concerto que puxa por estes hábitos mundanos. Ou, então, nada disso e apenas mãos livres que mexem consoante o ritmo manda.

Desde o primeiro segundo que Gyedu-Blay Ambolley pisou o palco, com a sua Sekondi banda, as conversas verbais deixaram-se de parte e deram lugar aos movimentos que celebram o festim voluptuoso e tropical. Referiu o artista africano, a dada altura no concerto, qualquer coisa como saber o que são tempos difíceis e por isso é a sua música o que é. Celebrar as felicidades por entre as tristezas inevitáveis da vida. No entanto, nada interessava focar os tons negros que a vida tende a adquirir – a alegria estava lançada e há que aproveitar a duração do sentimento, que se estendeu por duas horas e alguns minutos. À medida que o concerto ia avançando, cada vez menos as pessoas se empoleiravam à frente do bar, e mais dançavam e esqueciam tudo à sua volta.

O calor glorificante das individuais animações a dada altura tornaram-se unas com a música, com o que se passava em palco. Ambolley permanecia ali, quase imóvel, irradiando uma eufórica e feliz energia – diz-se impossível ou inacreditável o pouco movimento para espelhar um sentimento e multiplicá-lo. O artista diz e demonstra o contrário. A felicidade musical é muito mais que movimentos corporais. Um sorriso e as músicas certas bastaram para enlouquecer uma plateia que quis e consumiu cada segundo do concerto. Admirável, no mínimo, diga-se de passagem. “Akoko Ba” foi uma das muitas que gerou danças que, por sua vontade, nunca haveriam encontrado o seu fim.

Foi uma estreia concisa e bem sucedida. Fica a sensação de que o público aguentaria mais duas horas, em gigantescas e frenéticas danças. É imprescindível que existam mais dias tão contentes e libertadores como este, por 2019 afora. Por mais dias como este. Por mais Gyedu-Blay Ambolley em Portugal.

Texto: Alexzandra Souza
Fotografia: Ao Sul Do Mundo