Muitos poderão achar a sua música pouco ortodoxa e de difícil percepção. Nós afirmamos que tudo aquilo que os Xiu Xiu criaram desde seu início é arte autêntica, que transcende aquilo que estamos à espera de ouvir num álbum musical. Neste mês de Fevereiro temos nova obra de arte acabada de sair, pronta para ser apreciada e sentida: Girl with Basket of Fruit.

Este é o 11° trabalho da banda californiana de rock experimental/noise pop, formada em 2002. Como se a música destes já não fosse um pouco estranha, digamos assim, conseguem ainda surpreender com este trabalho, trazendo-nos um álbum muito mais sombrio e mórbido do que o habitual. Este representa com muita clareza os podres do mundo e da humanidade, de uma maneira pesada mas concisa.

O nome Girl with Basket of Fruit é uma referência à pintura de Caravaggio “Rapaz com Cesto de Frutas”. No entanto, ao invés da felicidade e beleza que emana esta pintura, a banda queria mostrar o outro lado do mundo, um mundo sem beleza, perigoso e agressivo.

“Amargi Ve Moo”, o terceiro tema, é talvez o tema mais mórbido do álbum, falando de doenças, mutilações, decapitações e morte, num ambiente sonoro bizarro e inquietante. Trata-se de uma experiência sem dúvida inigualável. “Mary Turner Mary Turner” é a sétima música do disco e conta-nos a história de uma grávida que foi queimada e mutilada, por reivindicar a inocência de seu marido, e teve o seu bebé arrancado do seu ventre. Esta atrocidade aconteceu na Geórgia em 1918. “It Comes Out As A Joke” é um tema perverso, um tema que fala de atos sexuais extremos, dá algumas pistas de bondage e até atos masoquistas com as passagens – “Knuckle short knife in the ribs, It comes out as a joke.” ; “Blowing with c***, c***, bedroom. Filled with smoke, bedroom.”

“The Wrong Thing” é dos temas mais críticos do album, se não o mais crítico. É um tema que, com ajuda da sonoridade inquietante e melancólica, aborda o tema da escravatura na América nas passagens” Charismatic, a trapped rabbits” e “No boat back to where we came from”. Fala também de sacrifícios e rituais que existiram, ou ainda existem.

Estamos no início do ano mas não é arriscado dizer que estamos perante um dos álbuns mais fora da caixa do ano. Um trabalho muitíssimo artístico e complexo, que para a maioria das pessoas garantidamente fará jus àquela conhecida expressão “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É um trabalho que excederá com certeza as expectativas dos fãs de Xiu Xiu e que irá surpreender bastante quem não conhecer e o for ouvir.

Nota: 9,5/10

Pedro Dias