Os miúdos dos anos 90 andavam de skate, jogavam gameboy e vestiam roupas largas. O estilo grunge estava na moda e ser alternativo não era uma escolha, mas sim uma atitude. O videoclip do primeiro single dos Too Many Suns, Garden, mostra essa realidade. Os miúdos da cidade de Lisboa que andavam de skate e queriam faltar às aulas para saltar mais um vão de escadas que parecia impossível. A sonoridade dos Too Many Suns vai buscar inspiração nesta nostalgia dos verões longos, a uma cidade que naquela altura ainda não tinha descoberto os seus encantos e a uma certa simplicidade dos anos 90 onde tudo parecia mais fácil.

Garden também dá nome ao primeiro EP e estreia absoluta dos Too Many Suns, a banda Lisboeta que é composta pelo trio: Hugo Pereira (voz e guitarra), João Cardoso (voz e bateria) e Vasco Rato (baixo). Neste conjunto de canções indie rock/pop, há leveza e frescura, sabe a verão e apetece pedir duas imperiais e ver esta banda num festival perdido numa aldeia interior enquanto o sol se põe. Tudo neste EP “sounds good and feels good”. A produção ficou a cargo de Gonçalo Formiga, membro dos Cave Story e percebemos uma certa influência na produção, no tipo som apresentado, mas dando sempre espaço para a banda ter a sua voz.

Este primeiro trabalho tem somente cinco temas com “Garden” logo a abrir. Começam com esta canção que é simples e eficaz. A cena do skate e boa onda movida por esta tribo sentem-se neste primeira canção e parece ser esse objectivo principal. O aspecto visual também contribui para que este single conseguisse resultar. É a música perfeita para as imagens que vemos no videoclipe, a inocência daqueles jovens conjuga bem com a sua simplicidade. De seguida vamos para “South”. Uma canção que explora um rock mais alternativo, mais lento. As guitarras levam-nos para um compasso certo durante toda a canção, mas a meio rasgam dando um som distorcido e cru. Este é talvez o tema onde está presente um rock mais alternativo.

Durante todo este EP podemos sentir as influências dos anos 90, seja um rock mais alternativo ou o grunge que caracterizou esta época. “Holy Grass” é a música mais melancólica e sem dúvida a que transporta melhor o espírito grunge do princípio da década de 90, com bandas como Nirvana ou Pearl Jam a virem logo à cabeça por representarem o expoente dessa corrente, os Too Many Suns conseguem captar esse estilo, mas sem ser óbvios.

Há muitas facetas neste EP e uma delas tem um lado mais lúdico e leve. O quarto tema “Mr. Fibbles” representa esse lado cómico e que leva a música para um lado muito interessante. Aqui também se nota uma influência dos Pavement, que tinham músicas dark, inquietantes, mas por vezes divertidas. A banda mostra aqui que tem uma certa versatilidade e se sente bem a tocar de diversas formas. Por fim acabamos com “Trainwreck” uma canção mais punk, com várias variações rítmicas e com toque especial de Cave Story. É uma reflexão sobre o que realmente o que precisamos e no fundo tudo o que precisamos por vezes é uma boa canção pop.

Os Too Many Suns deixam-nos com cinco canções bem construídas, que nos levam para imaginários da nossa infância e de um passado recente. São canções com algum saudosismo, mas sobretudo com muita alma. Talvez não possamos andar de skate com o mesmo entusiasmo de quando o fizemos pela primeira vez, mas os “Suns” conseguiram captar esse espírito e os exercícios de memória quando são bem feitos valem sempre a pena.

Rodrigo Toledo