O Coliseu de Lisboa acolheu-nos de forma particularmente gélida nesta quinta-feira, dia 28 de Fevereiro. O mote da noite era um concerto dos Dead Combo, parte da tour do álbum Odeon Hotel, o primeiro desta tour no presente ano. Este é o sexto disco de originais do projecto de Tó Trips e Pedro Gonçalves. Perante uma casa bem composta e de plateia completa, o concerto foi uma celebração da resiliência, da perseverança, do quanto este duo gosta do que faz – e de quanto o dedicado público os acarinha, também.

O palco apresentava-se com todos os instrumentos cobertos com lençóis brancos e as capital letters que caracterizam a capa de Odeon Hotel. A primeira melodia, ainda num quase sussurro, acompanhou-se duma neblina fina no palco, para adensar a nossa curiosidade. Eram cerca de 21h45, minutos depois da hora marcada para o concerto. Os músicos rapidamente se livraram dos lençóis e abriram a noite com “Deus me dê grana”, música que nos deixou presente, desde o primeiro momento, a importância especial da bateria em Oden Hotel.

Os saxofones ofereceram mistério a “Mr and Mrs Eleven”. Tó Trips agradeceu a presença do público com as suas primeiras palavras, avisando-nos que “The Egyptian Magician” era a terceira eleita. Com o seu já icónico fato vermelho, as suas botas brancas e o seu chapéu alto, Trips vibrava com cada acorde da música, fazendo o nosso sangue pulsar com mais força. A banda preparou-nos assim para a próxima, menos introspectiva e mais acelerada, “As quica as you can”.

“Rumbero” impôs em nós a raiva de quem corre, corre, mas sente que não pode parar por um segundo – valeu-nos o “oy” final para retomarmos o fôlego. A familiar “Rodada”, carregada de tons menores, substituiu uma guitarra pela melódica. Há muito fado nas influências desta ímpar banda, e isso torna-se especialmente evidente em músicas como “I’m a Mellotron”, que curiosamente nem partilha o título com a língua de Camões – mas também não esquecemos as influências de jazz e blues, que talvez justifiquem tal título. O quase-solo do saxofone apelou de forma eficaz às mágoas que escondemos no nosso âmago. “Cuba 1970″ e “Mrs Carmen Miranda” seguiram-na, numa sequência muito bem pensada, e levaram-nos a viajar com a ajuda das imagens que passavam na tela por detrás dos cinco músicos – para além de Tó Trips, guitarra, bateria e saxofones ou teclado.

Foi de forma claramente emocionada que Tó Trips chamou a palco “a outra metade desta banda”, conforme lhe chamou. Pedro V. Gonçalves tomou o seu lugar de direito, frente a Tó, com os seus inevitáveis óculos escuros (que só deixaram a sua face para o ajuste de som, entre músicas) a acompanharem o cintado fato de abotoadura dupla, para “tocarem músicas que não tocavam desde… Agosto” – em Paredes de Coura, atrevemo-nos a acrescentar. As arrepiantes notas da guitarra de Pedro pautaram este segundo momento do concerto, tanto em “Esse teu Olhar” como em “Povo que cais descalço”. O carinho e a sensibilidade do público foi especialmente notório neste pedaço de concerto, em que apenas os dois músicos povoavam o palco – e que intensos que eles são, na sua arte.

Mark Lanegan atravessou o Atlântico para oferecer a sua caracteristicamente rouca e grave voz ao terceiro momento deste concerto. Este trouxe os restantes músicos de regresso a palco e presenteou-nos com “Fire of Love”, “Wedding Dress” e a muito esperada “I know, I alone” – música que conta com um lindíssimo poema de Fernando Pessoa, que o próprio Lanegan escolheu do livro de poemas que Trips lhe entregou em mão, quando Odeon Hotel era ainda um projecto. Extremamente interessante como a música dos Dead Combo, na maioria das vezes preenchida por diversas camadas que nos dispensam a presença duma voz, duma letra, para que lhes entendamos o sentimento, encaixa tão bem com a voz de Lanegan, quase como se fosse esta a formação tradicional da banda.

Dead Combo no Coliseu de Lisboa — festa no Odeon Hotel

O quarto momento do concerto iniciou-se com o cair da tela que na música anterior nos tinha intrigado com as sombrias personagens de Odeon Hotel, que pelos contornos reconhecíamos estarem em traje, convivendo entre si num cenário semelhante à capa do álbum – de facto, estavam em palco uns andaimes que imitavam de forma fiel esse cenário. Este cair de tela pareceu-nos um momento de viragem no concerto. Se, até aqui, os demónios se exteriorizavam de forma mais sóbria, introspectiva, daqui por diante tal foi feito numa forma mais próxima da celebração, com os decibéis mais elevados, com músicas ainda mais preenchidas por instrumentos. Já sob este mote, “Desassossego” e “Mr Eastwood” deram destaque à guitarra de Alain Johannes, músico e responsável pela produção de Odeon Hotel, envolvendo-nos numa espiral vertiginosa.

Tó Trips tomou o seu tempo para nos introduzir ao cenário dos dois marinheiros que chegaram ao novo Cais do Sodré, garantindo que toda a nossa atenção estava com “Lusitânia Playboys”. Esta incluiu a mestria da distorção proporcionada pelo theremin, numa construção longa mas por onde não nos importávamos de ficar ainda mais tempo. Seguiu-se uma das “malhas mais antigas”, “Eléctrica Cadente”, pedaço de sobriedade e envolvência que é a definição dos Dead Combo. Um dos raros momentos em que os holofotes passearam pelo público, talvez para o lembrarem que faz parte da história destes dois.

Foi enorme, e de pé, a ovação que o público prestou aos músicos, o que acreditamos fez com que o encore não tardasse. Desta vez com todas as personagens de Odeon Hotel deambulando pelo palco, ouviu-se a embriagante “Menina Dança” – e as meninas dançavam. O concerto terminou num tom bastante alegre, com o gingar a que apela “Lisboa Mulata”, sendo que esta se prolongou alegremente bem mais do que nos lembramos no disco – e todos dançaram, com a excepção natural de Tó e Pedro, que apenas interromperam o seu quase-transe na descompressão dos agradecimentos finais.

Texto: Andreia Duarte
Fotografia: Nuno Alexandre (galeria completa no Facebook)

Alinhamento:
01. “Deus me dê grana”
02. “Mr and Mrs Eleven”
03. “The Egyptian Magician”
04. “As quica as you can”
05. “Rumbero”
06. “Rodada”
07. “I’m a Mellotron”
08. “Cuba 1970″
09. “Mrs Carmen Miranda”
10. “Esse teu Olhar” (apenas Tó Trips e Pedro V. Gonçalves)
11. “Povo que cais descalço” (apenas Tó Trips e Pedro V. Gonçalves)
12. “Fire of love” (com Mark Lanegan)
13. “Wedding dress” (com Mark Lanegan)
14. “I know, I alone” (com Mark Lanegan e Alain Johannes)
15. “Desassossego” (com Alain Johannes)
16. “Mr Eastwood” (com Alain Johannes)
17. “Lusitânia Playboys”
18. “Eléctrica Cadente”
19. “Theo’s Walking”
(Encore)
20. “Menina Dança”
21. “Miúdas e Notas”
22. “Lisboa Mulata” (com Alain Johannes)