Na calma batida da sua música, Sofia Ribeiro, de nascença, faz-se Lince, a letrista e cantora. Com a sua voz aguda, mas que não treme (como muitos a apresentam), fica redutor etiquetá-la de cantora, compositora ou letrista, sendo mais apropriado o termo artista, devido às várias facetas que mostra e que vão desde as artes plásticas à dança, passando pelo canto lírico.

Nascida e criada na Cidade-Berço, tornou-se pianista autodidata quando, percebendo o seu bichinho por melodias, os seus pais lhe deram um piano. Hoje em dia, faz a sua vida pela cidade do Porto. Foi aqui que, depois de alguns projetos amadores, se tornou teclista dos We Trust, um projeto de André Tentúgal e mais tarde dos There Must Be a Place, um consórcio dos We Trust com Best Youth.  Conta com dois álbuns dos We Trust, são eles These New Countries e Everyday Heroes. No entanto, é em 2016 que se aventura em pleno no projeto com nome de felino.

Tendo já participado enquanto Lince nalgumas ocasiões (como o álbum Pratica(mente), de Sam The Kid), lançou o seu EP Drops, em 2017, com as músicas “Earth Space”, “Puzzles” e “Call Me Home”. Este é um EP cheio de voz, onde o padrão passa por um crescendo em cada música que, mesmo sabendo, nos surpreende sempre. Em “Puzzles”, é solto um desejo, “Want you to find all the secrets left unsaid”, mas é exatamente no instrumental que o segredo nos é revelado: um início calmo transforma-se numa parte cheia de energia, onde os agudos sobressaem, uma transição que nem se dá por ela de tão suave e, na falta de outro termo, bonita, simplesmente. Com um estilo sonhador e equilibrando o piano com sintetizadores, as suas músicas faziam antever que algo promissor estava a chegar, prometiam um álbum que não desiludiu.

Em 2018 conhecemos Hold To Gold, o primeiro LP de Lince, com onze músicas como “It Feels Like Looking At Scupltures” e “Overrated Love”. Nota-se um álbum mais trabalhado, com mais elementos em cada música, que nos levam a um mundo novo a cada vez que ouvimos, ou porque certa vez nos prendeu a letra, ou porque da vez seguinte ficamos absortos naquela melodia calma com uma batida contagiante. Damos por nós a abanar a cabeça ao ritmo de “Lift Me Up” ou “Float” enquanto ouvimos ao longe uma voz que avisa “Estação Terminal”.

Sempre com o seu estilo etéreo, Sofia traz-nos algo bastante autobiográfico, onde as músicas vêm de experiências mais ou menos concretas e onde o sentimento nos entra pelos ouvidos. Lince deixa em quem a ouve uma sensação semelhante à que descreve em “Earth Space”: “But I am enjoying so much that I can’t let it go”.

Vasco Lucas Pires