April Marmara é Beatriz Diniz. O nome não é português porque as canções também não o são. Beatriz quis criar uma personagem e associar-lhe algo que estivesse relacionado com o mar (Marmara é uma zona da Turquia banhada pelo mar Egeu). Deste ponto de partida tão simples já temos percepção da linha que conduz a música da artista portuguesa.

Esta aventura começou, como confessou a própria ao Ípsilon, quando foi ver um concerto de Angel Olsen à Galeria Zé dos Bois numa noite quente de verão. A garra que a cantautora norte-americana demonstrou em palco e o facto de se apresentar sozinha em cima do mesmo cativaram o coração da lisboeta. Nessa noite nasceu April Marmara. Contudo, esta não é a sua primeira experiência na esfera musical. Em adolescente tocou em bandas com colegas da escola, colegas esses que eram Teresa Castro e João Farmhouse, dos Mighty Sands. Mais tarde, estando já envolvida na Spring Toast Records, tocou com Jasmim e as Savage Ohms. Escolheu a folk como meio de transmissão da sua mensagem por sentir que era esse o processo instintivo a realizar. Por isso e por se inspirar em artistas como Nick Drake, Josephine Foster ou a supracitada Angel Olsen.

New Home é o nome do seu primeiro trabalho e este constitui uma afirmação da sua autora. Neste espaço encontra-se na sua nova casa e traz-nos uma folk comovente e deslumbrante. A sua voz suave, mas potente, é sustentada por guitarras dedilhadas e pontuais riffs que transportam consigo apontamentos sóbrios de percussão e teclados. Para completar este arranjo, encontramos momentos de viola de arco que adornam toda a sonoridade apresentada. As canções refletem um ambiente onírico e romântico irradiadas com uma naturalidade invejável. “Blossoms” coloca-nos no centro do domínio da cantora enquanto a mesma, de forma serena, nos encaminha ao som da guitarra. “Bad Scorpions” chama-nos a atenção pela clareza com que canta este tema enquanto nos embala à toada das suas cordas. Por fim, “Mistery Girl” é o folk inocente feito clássico rock ’n roll com um arranjo de extremo cuidado.

Rapidamente nos apercebemos da influência que os seus companheiros de editora tiveram no ambiente sugerido pela Beatriz, mas essa presença não a impediu de criar um universo bucólico muito à parte dos restantes. April Marmara é muito honesta naquilo que faz. As suas canções não têm artifícios. Canta o deserto e a nostalgia da mesma forma que os vive, desprendendo-se daquilo que poderia ser o adorno da forma crua como, muitas vezes, vivemos várias situações da nossa vida. April Marmara canta a vida como ela é.

Francisco Sousa