O álbum NU é apresentado em duas versões, numa versão mais standard em áudio e numa versão visual com um vídeo no Youtube, onde todas as músicas estão presentes e num filme produzido por membros da banda através do conjunto criativo Casota Collective. Se só a parte áudio podia valer aos First Breath After Coma uma distinção de relevo, a apresentação do álbum visual eleva este conjunto a um patamar superior. A banda de Leiria é talvez um dos projectos musicais mais ambiciosos em Portugal. Não só pela sua estética e pela música que se propõe a fazer mas, sobretudo, por não se impôr limites às suas ideias e ao que quer transmitir ao seu público. Neste seu novo trabalho explora as fragilidades humanas, a sua crueza e como estamos vulneráveis.

A ideia de álbum visual não é nova. Os Paus no seu último álbum Madeira também concretizaram essa ideia de forma muito eficaz e muito bem feita. Também há o caso de Beyoncé com Lemonade tornou este conceito mais mainstream. Nestes três casos os artistas e bandas apresentam esta componente visual para completar o seu trabalho musical e fazer com que este fique mais rico. Mais do que enriquecer dá uma outra dimensão à mensagem transmitida. Mas um dos aspectos importantes a seguir deve ser a coerência narrativa, que complemente a música de forma lógica. Os First Breath After Coma conseguem preencher todos esses requisitos com este seu vídeo.

Este conceito começa numa casa degradada, onde tudo parece frágil. Ao longo de 38 minutos conseguimos ouvir as 8 músicas que fazem parte deste trabalho e vemos várias paisagens e actores, que nos transportam para esta realidade muito particular. Os cenários são sempre muito crus com protagonistas difíceis de decifrar, mas muitos ricos. Uma das personagens centrais é um homem interpretado pelo artista e ator Rui Paixão, que já tem um percurso nas artes performativas com algum relevo. O seu trabalho com o palhaço Godot já o levou até ao Cirque du Soleil na China. Neste trabalho consegue pôr uma carga física e psicológica notável, visto que não fala e é apenas a sua linguagem corporal a exprimir os vários sentimentos. Ele é central nesta trama, mas há outras pessoas que vão surgindo e vão criando uma narrativa com várias interpretações e hipóteses.

Entre cada música há um separador com uma palavra que descreve um pouco daquilo que a música seguinte quer dizer. Esta palavra é um guia para não deixar o público perdido perante a riqueza de todo o filme. Há essa preocupação de procurar o espectador e não deixar uma interpretação completamente livre. Este álbum quer essencialmente mostrar as fragilidades de cada um de nós. Não é uma missão fácil, mas consegue mostrar várias facetas da complexa psicologia humana.

Há três temas que se destacam. Primeiro a terceira faixa, “Change”, a palavra usada no separador é “empowerment”, aqui a necessidade mudança é vista como algo positivo. No vídeo vemos uma criança com uma vontade de descoberta, havendo aqui uma ligação clara entre mudança e a descoberta de nós mesmos. Na canção a seguir, “Howling for a chance” a palavra associada é “attraction”. É um tema muito físico e de certa maneira sexual, mas sem ser explícito. A questão do corpo e atração são visíveis, vemos um casal que se relaciona de forma estranha e tem uma ligação muito própria. “So get out of your skin, And talk with me, Part of us will be, Eternal”. Nesta parte há uma luta constante, que acaba romper a ligação entre os dois. O terceiro tema que se destaca neste disco é “Heavy”. É a sétima e penúltima faixa e foi o primeiro single a ser lançado. O separador mostra-nos a palavra “anguish”. Há raiva, há frustração, há sofrimento e há uma luta interior nesta música. A personagem de Rui Paixão tem uma multidão de pessoas perante si e só se quer ver livre delas. No fim consegue afastá-las e depara-se com uma enorme planície, nu avança para enfrentar a natureza.

Todo o álbum visual está cheio de nuances, que só vendo são perceptíveis. A história acaba com o homem deitado nu, no centro de um labirinto. Há várias interpretações e há espaço para cada um fazer a sua. A mensagem é acessível, mas é um trabalho para ser ouvido e visto do princípio ao fim. Quando acaba conseguimos sempre tirar algo, que nos intriga e que nos faz pensar.

Os First Breath After Coma conseguem com este disco mostrar um rock que explora caminhos mais alternativos e que converge estilos. Os leirienses construíram uma sonoridade muito própria não só neste disco, mas ao longo do seu percurso. Este é o seu trabalho mais ousado, que supera quaisquer expectativas a nível sonoro, visual e lírico. Não só este trabalho põe a banda num novo patamar, mas abre portas para um crescimento gradual. Esta é a prova que fora dos grandes centros urbanos há centros criativos e com meios para os jovens artistas criarem e desenvolverem os seus projectos. Seja em Leiria, em Lisboa, em Vila Verde ou noutro canto qualquer de Portugal, a boa música vale sempre a pena ser partilhada.

Nota: 9.0 / 10

Rodrigo Toledo