O vento gélido soprava acompanhado de alguns pingos de água, vindos do céu – assim estava aquela noite de quinta-feira, que teimava em não aquecer. Entrou-se no Lux Frágil e a água continuou a fluir perante nós – mas, desta vez, acompanhada ela por uma potente e bela voz que nos cantava acerca da sua universalidade, e muitas outras coisas. A voz também aquecia, e logo fez parecer uma memória distante, a sensação do corpo gélido, que anteriormente nos massacrava. Foi no dia 7 de Março que a Selma Uamusse apresentou à capital Mati, o seu extraordinário disco de estreia.

Todos somos donos de um mundo particularmente nosso, e por isso se torna este, curioso aos olhos dos demais que vivem fora dele. A Selma Uamusse não é excepção à regra – e ela, como uma minoria faz, decidiu transformar o seu mundo em arte cantada, tocada, sentida através de acordes que tanto dizem quanto aquelas palavras que nos despertam o calor do coração. Mati foi o título concedido ao seu mundo – porque significa água no dialecto moçambicano changana. A artista acha que a água é universal e que nos enche e limpa, criando em nós uma ponte espiritual que nos liga às nossas crenças. E foi a propósito dele que ela rodou a maçaneta da porta principal do seu universo e nos convidou a entrar. A explorar, a sentir e a entender um pouco mais do que ouvimos em casa.

O relógio marcava as onze da noite e lá estava ela acompanhada dos seus habituais músicos e, pelo menos, de mais cerca de trinta pessoas (Gospel Collective) no palco do Lux Frágil. Nunca se imaginaria que tanta gente caberia a musicar num palco que parece pequeno, e que dá vertigens a quem observa: “e se alguém cai dali?”. Mas claro que ninguém cairia. Se caísse, havia de ser das eufóricas emoções que transbordavam, fruto do enérgico concerto. Inacreditável, lembravam uma pintura ao fundo do palco que mais tarde se ofuscaria com as vibrantes danças de Selma. Ela irradia um bonito brilho, e torna-se inevitavalmente na pessoa que nos rouba o olhar de todas as outras coisas que acontecem em palco.

O disco foi sendo revisitado e a Selma ia introduzindo-nos às canções e contextualizado-as, com diálogos quase tão grandes quanto as músicas. Há quem dê concertos e tenha poucas palavras para dar ao mundo, mas a Selma não é uma dessas artistas. Dizia-se ela nervosa a dada altura no concerto – fossem os nervos do mundo sempre tão bem canalizados, como a Selma consegue fazer, e mais vezes se seria feliz. O público parecia inacreditado e a artista, claramente emocionada, ia contando-nos mais histórias sobre tudo e sobre as suas raízes e, como estas, mais do que em sítios, vivem nos tantos pedaços da sua alma. O orgulho é notório e preenche quem observa e ouve atentamente, consumindo as suas histórias – que no final de contas, de certo modo, agora faziam parte de todos os que lá estavam.

“Ngono Utane Vana Kadima”, “Mozambique” ou “Mati” fizeram-se ouvir e houve quem acompanhasse verbalmente. Dizia a Selma que nem todos cantavam, mas os que cantavam até podiam cantar desafinados que o que interessava é que estavam a ser felizes. Quando “Funkier than a Mosquito’s Tweeter” invadiu o espaço, dizia a cantora que quem não dançasse ao som desta não dançavam com mais nenhuma. Tinham de dançar – e a multidão, que abarrotava o Lux, assim cumpriu. E lá ia a artista, por várias vezes, visitando a plateia e dançando com as pessoas.

Foi passando o tempo, do que parecia um encontro espiritual com a vida e a felicidade que esta nos vai dando a beber, e a intensidade foi aumentando até não caber mais nos nossos peitos e espalhar-se em formas de sorrisos e danças que acompanhavam a cintilante explosão que a Selma é. Acabado o concerto, ela volta para nos brindar com um encore repetindo o tema “Mati” – agora numa outra versão, com menos tempo.

Pura magia em forma de riqueza musical, foi o que a Selma Uamusse decidiu servir-nos como ementa por uma hora e largos minutos. E que bonito foi, que bem resultou. Fica a vontade de rever as múltiplas expressões que relembram tudo o que é bom neste mundo. Parabéns à Selma.

Texto: Alexzandra Souza


Fotografia: Ana Pereira (Música em DX)