A habitual azáfama das ruas que circundam o Coliseu dos Recreios, uma das mais bonitas salas da capital, fazia-se sentir. O jantar foi servido cedo nesse dia, para que se pudesse estar pronto a tempo e horas para se ver as bonitas melodias de Ólafur Arnalds a serem tocadas, e sentidas. O calendário datava o dia 13 de Março – dia de muitos afazeres, ou não, e também um dia que abria o apetite para se finalmente ouvir esses belos e ansiados pianos tocados pelos delicados dedos de Ólafur, músico islandês. O concerto foi transcendental, e contou com o selo da UGURU.

São os países nórdicos conhecidos por começar escrupulosamente a horas todos os seus compromissos – concertos, incluídos. Qual a nossa admiração quando passavam já vinte minutos da hora marcada – e decide Ólafur Arnalds, com o ligeiro atraso, subir a palco e começar a dedilhar as teclas do piano e a produzir aquelas calorosas notas musicais. Onde outrora estava um Coliseu dos Recreios completamente escuro, bastou a entrada do músico para que alguma luz se fizesse – não só o espaço se iluminou, como todas as caras dos presentes que observavam maravilhados. Começou assim o concerto que se dedicava à apresentação do disco re:member.

Uma forte salva de palmas acompanhou este pontapé de saída do concerto, fazendo o músico expressar timidamente um sorriso. Logo após este primeiro impacto, entraram quatro músicos acompanhados dos seus instrumentos de corda – falamos de três violinos e um violoncelo. Havia um quinto, o baterista. Ora entrava, ora saia – e quando entrava, marcava vividamente as canções que, por sua vez, ganhavam ainda mais corpo e emoção. Para além dos instrumentos tocados por pessoas, haviam ainda os dois célebres pianos que o têm vindo a acompanhar nesta tour. Pianos que se tocam a eles mesmos, programados através do software Stratus, desenvolvido pelo músico e por Halldór Eldjárn.

Cedo, Ólafur Arnalds mostrou-se uma pessoa comunicativa e afável. Lá ia ele debitando palavras com uma pitada de humor, para quebrar o gelo com a audiência e provocar gargalhadas que se ouviam e iam multiplicando. A dada altura, pediu ao público uma gravação para complementar umas das canções que tocaria a seguir, “Only The Winds”. O público cumpriu e o músico elogiou – nem todas as salas se portam tão bem, já dizia o islandês.

Ainda ia o concerto no início e surgiram problemas técnicos com o Stratus – os pianos recusavam-se a tocar. O compasso de espera deve ter durado vinte minutos, mas pouco, ou nada, se sentiu. Ólafur, e a sua simpática veia comunicativa, foi-nos contando histórias acerca de tudo e mais alguma coisa e distraiu os espectadores do problema que poderia ter provocado o precoce fim do espectáculo.

Resolvido o problema o foco voltou-se, de novo, para os instrumentos que nos contavam, em formas musicadas, todas as emoções que o músico quer e consegue transmitir. O concerto ia de vento em popa, emocionando e cativando até os mais frios corações. Existe uma beleza transcendental na música que Ólafur produz. Os pianos dão vontade de sonhar e montar um céu só nosso. Um que tenha o nosso gosto e jeito, que contenha todos os nossos sonhos e caminhos perfeitos, que nos despertam os sentidos e nos guiam para os felizes berços, com aquelas coisas que só a nós faz sentido e alegra. Um que seja aquele cantinho especial que só a nós pertence, onde podemos chorar as mágoas e animá-las. Dá vontade de expressar todas as emoções, até aquelas que achamos não conseguir deitar cá para fora. Quase garantido que faria até nascer todas as plantas, e renascer as flores mais murchas do jardim, que pareciam ter passado do seu prazo de validade. Ouviram-se as monumentais “nyepi”, “brot”, entre muitas outras.

Como se não bastassem as notas musicais para nos guiar nesta viagem, que não necessita de uma voz para atingir os escombros dos nossos corações, as luzes do espectáculo estavam programadas para seguir as melodias. Quando as canções explodiam e chegavam ao seu expoente, também as luzes seguiam as suas pisadas. Qualquer fosse o caminho escolhido pelas músicas, lá iam elas atrás, como uma sombra que nos acompanha perante a fonte que nos ilumina. O público continuava ali, sentado, completamente arrebatado e boquiaberto com o que ia acontecendo em palco. Nunca se imaginaria que o Coliseu dos Recreios pudesse ser tão mais belo do que já o é, por si só. Pois bem, Ólafur Arnalds enfeitou o nosso querido Coliseu, tornando-o ainda mais estonteante – e lágrimas de emoção teimavam em escorrer pela cara. Não se viverá tão cedo uma noite como esta foi. Uma daquelas inesquecíveis e que nos aquece e dinamiza a mente, e a alma.

O músico abandonou-nos após um encore, onde homenageou a sua avó com uma música que escreveu para ela. Tocou-a e o silêncio foi a chave de ouro para um momento que merecia ser ouvido, sem nada mais a distrair à volta. Oxalá tivesse sido sempre assim. No final, todos se levantaram e seguiu-se uma acérrima salva de palmas que chorava o fim do concerto. Ólafur Arnalds é um músico musculado de excelência musical que merece ser ouvida e apreciado. A noite foi o que já se antevia: bem sucedida, com muitos suspiros e sorrisos à mistura. Missão cumprida.

Texto: Alexzandra Souza

Fotografia: Luís Sousa (Música em DX)