Oito artistas, todos estrangeiros, mostraram durante seis dias a sua arte num prédio antigo na Rua Dom Carlos Mascarenhas em Campolide. Esta foi a 5ª edição da Casa Dona Laura, sob o nome Mellifluous Elephant. A iniciativa foi criada por Francisca Aires Mateus com objectivo de promover jovens artistas. “Na verdade foi mesmo precisar de sítios para expor, porque aqui (Lisboa) era super difícil fazer coisas com estudantes ou pessoas que ainda não estão carimbadas” explica Francisca para justificar o surgimento deste projecto.

Para perceber o que se passava neste velho edifício em Campolide, era quase preciso fazer uma espécie de visita guiada pelos vários pisos, deixando-nos levar pelas várias performances e instalações que vamos encontrando. Todos estes artistas tentam estimular os nossos sentidos através do som, de provocações e estímulos pouco habituais.

Começando pelo piso menos um, Katarzyna Perlak tinha duas instalações. Na primeira entrávamos numa sala escura, colocávamos uns auscultadores e ouvíamos uma série de pessoas a dizer a palavra vulnerable repetidamente. Havia ali uma clara intenção de deixar a pessoa numa certa solidão e exposta aos seus medos. Numa sala ao lado, uma instalação em vídeo mostrava imagens reais de uma Polónia violenta, crua e de uma certa frieza.

No primeiro andar tivemos a oportunidade ver a performance de Milan Tarascas, artista que usou vários instrumentos criados por si para desenvolver sons e músicas muitos próximos da ambient music ou do noise. Fosse com instrumento de criança, com um sintetizador ou até mesmo com uma espécie de guitarra, que era tocada com uma pequena bola. As pessoas que entravam e saíam da sala ficavam um pouco hipnotizadas com a performance de Milan, que estava todo vestido de preto. Um dos momentos mais marcantes desta performance foi quando o Milan comeu um limão. No segundo andar também tivemos a oportunidade de experienciar uma instalação mais noise, pois havia uma sala onde só ouvíamos um som seco e contínuo, criação de James Rollo. O som de facto era uma palavra, era a palavra now, mas digitalmente modificada para ser dita durante oito horas.

No telhado da casa havia uma performance onde três pessoa mascaradas andavam de um lado para o outro e mexiam em diversas cordas coloridas. Havia uma barulho de fundo que fazia lembrar aliens a comunicar entre eles. Esta performance foi criada pela artista Eloise Lawson.

Durante a semana também houve oportunidade para ver performances extras e participar em workshops. Ricardo Jacinto trouxe o seu violoncelo e, num momento muito intimista, desconstruiu o instrumento, mostrou sons únicos e explorou a sua arte. Os artistas plásticos Milas Tarascas e Josh Vyrtz deram dois workshops sobre “Ceramic sound – Ocarina Workshop” e “The class clown is not a payed position – Performance Workshop”, respectivamente.

Não foi possível descrever todos os trabalhos e obras com o detalhe que eles merecem, pois este é um tipo de evento que era preciso ser experienciado. Contudo, ir e descobrir faz parte do processo. Esta edição foi especial por conseguir trazer vários artistas de fora, mas também por ter o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Mais do que dar espaço a novos talentos, o que fica marcada é a hipótese de jovens poderem errar, descobrir-se e darem-se a conhecer num espaço pouco usual. O Mellifluous Elephant mostrou ser um sítio de experimentação onde os artistas e público ficaram a ganhar.

Rodrigo Toledo