MIL e uma conversas, e outros tantos concertos, decorreram na semana passada na zona do Cais do Sodré, em mais uma edição ao abrigo da Lisbon International Music Network. Num movimento cada vez mais internacional e participado, músicos, promotores, radialistas e toda uma miríade de agentes do mundo da música, debateram temas como a lusofonia, o marketing e as redes sociais ao serviço da música, ou os direitos de autor. Durante três dias, de 27 a 29 Março, os debates deram posteriormente lugar a dezenas de concertos espalhados pelas salas e bares da zona, com especial foco em dar palco a novos projectos, nacionais e estrangeiros, que grande parte público desconhecia, ou tinha oportunidade de apreciar ao vivo pela primeira vez. Destacámos dez das actuações a que tivemos o prazer de assistir.


LETRUX @ B.LEZA (Brasil)

Era apenas a noite de aquecimento, mas a artista brasileira colocou prontamente a fasquia extremamente alta com um brilhante concerto. Quiçá fosse este o trampolim que lhe faltava para se apresentar convenientemente a Portugal, dado que no seu país granjeia de um gabarito notável. Acompanhada de uma banda à altura, Letrux teatralizou impecavelmente os temas extraídos do seu álbum de estreia a solo (após a separação do grupo Letuce), e ainda tivemos direito a uma versão para “Express Yourself” de (nossa) Madonna. Letrux convidou ainda Lula Pena (que tinha aberto a noite) para declamar algumas das frases em “Ninguém Perguntou Por Você”. Uma noite de grande clima.

BLU SAMU @ LISBOA RIO (Bélgica/Portugal)

Chegámos com o concerto em andamento, a sala estava bastante composta e a rapper luso-belga tinha a plateia na mão. Dona de uma voz extremamente dinâmica, capaz de debitar rimas de forma majestosa e, logo de seguida, de nos aquecer o espírito em momentos mais virados para o R&B, Blu Samu conquistou-nos facilmente. Não se cansou de puxar pelo público nos momentos mais fogosos, e podemos dizer que pogo fogo ao Lisboa Rio.
Aguardamos nova visita, se possível com banda, de forma a engrandecer ainda mais a sonoridade criada por Salomé Dos Santos, a cidadã por detrás de Blu Samu.


OMAR JR @ ROTERDÃO (França)

Este trio sediado em França era-nos completamente desconhecido e, tendo apenas escutado o seu single, arriscámos passar neste club da Rua Nova do Carvalho. Afinal de contas, o festival MIL serve para isto mesmo: dar de caras com novas bandas e artistas. Eles apelidam o seu som de mezcal-pop e, se esta é uma nova corrente musical, ficámos fãs de imediato. A energia das canções e dos três elementos (duas guitarras e um teclado/sintetizador) é contagiante e irresistível. As batidas oriundas do sintetizador são catalisadas na perfeição pelo fuzz do duo de guitarras e desaguam infalivelmente em refrões orelhudos, numa mistura localizada algures entre os seus conterrâneos Phoenix e uns Weezer, existindo inclusivamente um ou outro rasgo de teclado à la Daft Punk. Saímos extremamente satisfeitos.

 

FOGO FOGO @ ESTÚDIO TIME OUT (Portugal)

Não foi o primeiro nem o segundo concerto desta aventura pelo universo quente do funaná liderada por Francisco Rebelo, João Gomes e David Pessoa, mas não nos cansamos de dançar sempre até ao último instante, até à última gota de suor. Misturando os covers com que deram início à banda com os temas originais extraídos do EP Nha Cutelo, o quinteto levou a cabo um gigantesco baile na sala do Mercado da Ribeira.


2DE1 @ ROTERDÃO (Brasil)

Nova passagem pelo Roterdão para assistir a outro projecto do qual pouco ou nada conhecíamos, mas do qual saímos novamente recompensados. A pop electrónica dos gémeos Fernando e Felipe Soares entranhou-se comodamente nos nossos sentidos, mercê de uma delicadeza e bom gosto assertivos. Com maquilhagem devidamente exagerada, os manos Soares movem-se num contexto sempre político, com especial enfoque na liberdade sexual, contrastando com a doçura geral da parte sónica, acabando por formar um embrulho agradável.

CAVE STORY @ TOKYO (Portugal)

A juventude sónica das Caldas da Rainha proporcionou-nos um concerto de mão cheia, num recinto que se tornou pequeno para todos quantos queriam deglutir os rasgos rock desta máquina verdadeiramente oleada. O quarteto que compõe os Cave Story mostrou ao que vinha, fez o seu trabalho sem necessitar de grande palavreado e restam somente vocábulos elogiosos para caracterizar a sua performance. Há que constatar que Punk Academics, quer o disco, quer o tema, é um dos temas mais clinicamente baptizados dos últimos anos da música portuguesa, dado que são verdadeiros workshops da corrente musical em questão.

RUBEL @ TITANIC SUR MER (Brasil)

Enquanto saíamos do concerto prévio à actuação do cantautor brasileiro, ouvimos o seu nome repetido à exaustão. Confirmava-se que o espaço do Titanic iria estar repleto para receber o adorado Rubel, algo que seria previsível dada a rapidez com que esgotaram algumas das datas da sua actual digressão por Portugal. Apesar de um atraso assinalável, a moldura humana não se desfez e, aos primeiros acordes, as cantorias em coro começaram. Notava-se que a tour ainda vai no adro e que a química entre os músicos ainda não está perfeita, mas tal não impediu que o trompete do português Diogo Duque executasse um sublime solo durante a actuação. Ainda assim, a qualidade das composições de Rubel, a atenção que coloca em cada palavra que escreve ao longo das letras, são qualidades que sobressaem e logram tornar vitoriosas mesmo noites que não correm nas condições que qualquer artista deseja.

CONJUNTO CORONA @ ESTÚDIO TIME OUT (Portugal)

De Santa Rita para Lisboa é um pulinho, especialmente quando se possui um Seat quitado e não nos perdemos nas variantes. O colectivo liderado por dB e Logos trouxe na bagageira as novas rimas e batidas do recente álbum, além da fundamental garrafa de hidromel para partilhar com os seus militantes, até porque nem toda a gente bebe coca-cola. Entre o pano de fundo musical e a poesia bem sui generis do Conjunto Corona, há sempre algo de atraente para testemunhar. Por vezes parece que alguém deixou um instrumental de Massive Attack a rodar em fundo, noutras parecemos estar em sítios de má fama, mas apadrinhados pelos heróis dos Corona. dB controla as operações a partir do seu púlpito, enquanto a restante turma entusiasma o público com a sua narrativa desconcertante. Um pacote bem completo.

LA YEGROS @ TITANIC SUR MER (Argentina)

Era grande o interesse para assistir ao concerto do grupo argentino, incrementado pelo facto de terem estreado o novo disco, Suelta, há escassos dias. Devido aos cruzamentos de horários, que são um mal necessário de qualquer festival com conteúdo valoroso, lográmos apenas assistir à segunda metade da performance de La Yegros. Ouvimos relatos contraditórios relativamente à etapa inicial, mas a fracção que apanhámos do concerto não foi abençoada com uma qualidade de som muito positiva. As percussões soavam normalmente estridentes e, não sabemos se seria por alguma deficiência também na munição do palco, a banda parecia demasiadas vezes perdida no seu próprio labirinto sonoro. No entanto, a boa disposição da banda e os ritmos calientes que são apanágio da mesma foram chegando para as encomendas, e fizeram mexer os corpos presentes de forma desenfreada.

PEDRO MAFAMA @ ROTERDÃO (Portugal)

O MIL Lisboa é perfeito para nomes emergentes, e se há alguém que cabe nessa categoria no panorama nacional é Mafama. O rapaz que ousa mesclar o espírito do fado com ritmos de outras origens, criando um imaginário muito próprio ao qual agrega ainda poesia de rua, que à primeira vista pode parecer simples, mas que contém bastante riqueza. Temas como “Jazigo” ou o recém-lançado “Lacrau” são canções de indubitável qualidade que exemplificam o mar onde Pedro Mafama se banha. Apesar de ainda ter aspectos a limar ao vivo, Mafama conseguiu tornar “Arder Contigo” uma canção ainda mais interessante quando interpretada no reduzido palco do Roterdão, sendo que é provavelmente o tema mais denso da sua ainda curta discografia. Temos a certeza que coisas muito boas esperam Pedro Mafama num futuro bem próximo e, por conseguinte, coisas boas esperarão aqueles que o sigam. Nós lá estaremos!

Álvaro Graça