Das cinzas do Lisboa Dance Festival, que nos acompanhou por três bons anos, nasceu o  festival ID_NO LIMITS, da Live Experiences. Apelida-se como um festival que “se foca na música eletrónica e urbana, procurando o mais relevante no campo das artes, sem limites, fronteiras ou rótulos estáticos”. O compasso de espera foi bastante grande – o festival foi-nos brindando com confirmações que aumentavam o desejo pelo final de Março. Foi nos passados dias 29 e 30 de Março que finalmente aconteceu. Os termómetros do Centro de Congressos do Estoril sentiram uma subida que resultou num fim-de-semana explosivo, ao som dos ritmos mais escaldantes da música eletrónica e urbana. Sem limites, a música foi ouvida, sentida e explorada em danças feitas até à última gota de suor.

Aos motivos curiosos que fazem com que todos os anos nos queiramos mover para descobrir qual a proposta deste fomato, no presente ano, para além do cartaz, juntou-se o espaço que escolheria a organização como palco. Este ano com imagem e nome renovados, o lugar escolhido para esta primeira edição do ID_NO LIMITS foi o Estoril ou, mais especificamente, o Centro de Congressos do Estoril.  A viagem, fosse ela efectuada por que meios fosse, era longa, mas a promessa do bom serão valeria a pena – e a beleza do sítio em si, também. O cartaz era forte, cheio de nomes que cintilam e ressaltam os sentidos.

O primeiro dia prometia ser uma rampa de aquecimento que elevaria a alma e a mente. Madlib era o grande destaque do primeiro dia, mas não só de grandes destaques se faz um bom festival. O início da noite começou com um leve cocktail, de nome Colónia Calúnia. O hip-hop e a eletrónica reinavam – e, tudo isso, ficou bem sobressaído neste início. Um saltinho até ao auditório havia de ter valido a pena, houvesse tempo para tudo – estava Vessel a tocar, um pouco antes de Madlib começar. No entanto, a vontade de não perder nem uma pitada de Madlib fez-nos ficar diante do palco principal a aguardar pelo começo do grande nome da noite. O espaço estava cheio e a fila lá fora denotava isso mesmo – crescia e irritava o público que queria, ansiosamente, entrar, mas ainda aguardava que a fila se mexesse. Era este o bom sinal de que realmente o festival tinha conseguido chegar a todos – e todos queriam ali chegar. Assim que Madlib sobe a palco, o ensurdecedor histerismo da plateia ressalta-nos e embala-nos numa festa que durou pouco – uma hora e alguns minutos – mas que rebentou os termómetros e provocou danças sem fim. Era só um dj set, imagine-se o que seria se fosse realmente um concerto. Madlib não só encantou como foi, também, o protagonista de um dos grandes momentos do festival. As passagens entre as músicas eram de tal forma absorvidas que o som parecia não estar alto o suficiente. Queria-se consumir cada segundo do momento e assim foi. Completamente explosiva e efusiva, a energia do artista transbordava até ao público, que acabava a multiplicar essa energia e a formar, assim, as mais eletrizantes danças que o ID viu, este ano.

O momento da noite tinha acabado – mas a música continuava até ao raiar do sol. Era a vez da eletrónica portuguesa brilhar com o dj set de Moullinex, numa pequena sala que estava cheia e extravasava calor e boa música.

IAMDDB teve a cortesia de nos interromper o serão proporcionado por Moullinex – e pelos melhores motivos. A artista, com raízes portuguesas, subiu a palco para nos dar a beber do seu r’n'b que já conquistou grande parte dos corações portugueses. A sala estava bem composta para a receber e ninguém a foi capaz de a abandonar até ao final do concerto. Completamente explosiva, do início ao fim, a artista recebeu amor e amor retribuiu. As canções eram religiosamente sabidas pelos fãs que acompanhavam cada sílaba que IAMDBB ia debitando. Por uma vez, a cantora juntou-se ao público e com eles dançou e cantou, provocando uma alegria eufórica dos fãs que mais junto dela conseguiram estar. Não fosse Madlib, e teria ela sido premiada com a atuação da noite. Leva, assim, a medalha de prata para casa.

Na mesma sala, onde outrora tinha estado o dj set de Moullinex, seguiu-se o nosso roteiro com Jacques Greene e a sua atuação deslumbrante. Decorreu ao mesmo tempo que Shaka Lion e, talvez por isso, se sentia que não estava ali toda a gente que deveria estar para ver o músico. No entanto, a festa nem por isso se deixou de fazer. A noite seguiu ao som do DJ Nigga Fox e a primeira noite estava assim finalizada, com garantido sucesso que apenas se viria a confirmar e a duplicar na segunda noite.

E, se a primeira noite não desapontou, a segunda fez o favor de continuar na mesma linha. O cartaz do segundo dia era forte e prometia atrair ainda mais público ao Estoril. E sentiu-se isso mesmo ao entrarmos naquele Centro de Congressos. Estava cheio e pouco faltava para que estivesse esgotado, desconfiamos. O leque de escolhas era extenso e a vontade do público de se desmultiplicar, muita.

Arca foi uma óbvia escolha e lá estavámos nós. Entrámos no momento exacto em que Arca ascendia aos céus (literalmente, numa plataforma elevatória). Alejandro Ghersi, artista venezuelano, fez-nos imediatamente mergulhar num ambiente onírico, assente algures entre o sonho e a rave, com uma banda sonora industrial e inquietante que nos deixa com um entusiasmo daquele que mistura o receio com a maravilha. Uma mistura de performance com uma experimentação eletrónica em palco, acompanhada no fundo com visuals do VJ Carlos Sáez. Ao som de um “Hollywood” (de Madonna) remixado, Arca pede que desliguem todas as luzes da sala enquanto faz um pedido, “Sir, let us party”. As luzes continuam acesas mas a festa não pára, um espectáculo para todos os sentidos, que nos faz sentir como se a noite se tivesse virado do avesso e começássemos pelo fim. O artista aproveita o palco e dá tudo de si até ao último minuto de espectáculo, tornando-o numa das mais memoráveis prestações da noite. O fim chega, e ele agradece a todos os que se juntaram para festejar, arruma tudo na sua mala e assim nos deixa.

Dino D’Santiago trouxe ao auditório do ID o calor que se tem sentido pelas ruas de Lisboa, e isso chamou muita gente para apanhar um pouco do concerto do artista, causando uma fila de tamanho considerável. Aproveitamos então para dar um saltinho pela Cascais Silent Disco, onde Progressivu e DJ Respeito se iam desdobrando tanto pelo hip-hop como pelos ritmos africanos e brasileiros, passando por hits do contemporâneo português e indo até ao “Sexy Back”, do Justin Timberlake, gerando um engraçado desafio de ver quem dançava que estilo, o que ao fim de um tempo já se tornava fácil de distinguir (especialmente quando o público se distraía com o som dos fones e cantava bem alto aquilo que ouvia).

Já com a fila dissipada, voltamos ao Auditorium para matar a curiosidade do concerto de Dino D’Santiago. O calor humano abraça-nos de imediato e poucas são as pessoas que resistem ao ritmo contagiante que vai bamboleando pelo ar. Com “Nova Lisboa”, o público junta-se a Dino e entoa a melodia, com palavras e com o corpo. O amor, carinho e boa vibe quase são palpáveis e é com um sorriso no rosto que passamos ao próximo espectáculo.

Little Dragon e a sua eletrónica pop não cativaram todo o público de imediato, o que se refletiu numa sala menos cheia; mas isso não os impediu de deixar a sua marca em palco, com os movimentos suaves e hipnotizantes, tanto das mãos como da voz de Yukimi. Os Little Dragon são excepcionais e verdadeiros fãs não faltaram, pelo meio da plateia. Poucos, talvez, mas as canções foram acompanhadas por esses poucos fãs, que freneticamente dançavam e transformavam o concerto numa bonita celebração que merecia muita mais energia da parte do público. A banda quase que preenchia as necessidades todas – não fosse, faltar, a belíssima “Twice”. Entende-se a falta: estamos perante um festival de música eletrónica, que quer celebrar e dançar as felicidades da música. “Twice” não é propriamente um tema alegre, muito pelo contrário. Quem sabe da próxima não nos brindarão com este momento que promete lavar a alma em lágrimas. Passaram por vários pontos altos da sua discografia, tais como “High” e “Wildfire”, que colocaram todos – até os que não pareciam entusiasmados – a dançar e a cantar cada sílaba. Podia ter sido o concerto do festival e assim se esperava que fosse, mas quis o público galardoar outro artista com isso, e de forma merecedora – e pensamos que esse terá sido mesmo Arca.

Se, na noite anterior, o som urbano reinou e chegou à sua culminação com IMDDB, nesta a veia eletrónica do ID sobrepôs-se; Xinobi e Anna Prior acompanharam a nossa despedida prematura (mas sempre dançante) desta estreia do ID, que já nos deixa com a vontade de voltar na próxima edição.

O sucesso é a palavra de honra que retrata tudo o que esta organização já fazia com o Lisboa Dance Festival e que continua a fazer com o novinho em folha ID_NOLIMITS. O limite nem o céu é para esta organização, que nos continua a deixar de queixo caído, ano após ano. Até para o ano e um voto de parabéns a quem faz um dos melhores momentos do ano acontecer.

Texto: Alexzandra Souza e Sofia Espada
Fotografias: Alexandra Tavares