O dia 24 de Abril celebrou, por Lisboa, os vinte anos do lançamento do terceiro álbum da banda de culto dEUS, The Ideal Crash. A maioria do público que acorreu ao Coliseu exibia com orgulho os cabelos brancos e as rugas de quem ouviu este álbum, pela primeira vez, em 1999, conferindo uma aura ainda mais especial ao concerto. A banda belga, já com 28 anos de existência, mantém da formação inicial o frontman Tom Barman (voz, guitarra) e Klaas Janzoons (violino, teclados, voz), e conta actualmente também com Alan Gevaert (baixo, voz), Stéphane Misseghers (bateria, voz) e Bruno De Groote (guitarra, voz). A banda, como um todo, exibiu nesta noite uma forma absolutamente invejável.

A primeira parte ficou a cargo de Trixie Whitley. Esta cumprimentou-nos de voz doce e atacou as suas músicas de ritmo, em geral, bem mais acelerado do que reconhecemos aos compatriotas dEUS. Acompanhada apenas por um músico em palco, a multi-instrumentista de voz segura, ao longo da meia-hora de concerto, passou pelos teclados, a guitarra e até a percussão. Numa fase da noite em que o público ainda chegava, calmamente, cumprimentava velhos amigos e bebia a primeira cerveja, Trixie não nos pareceu cativar todos. Ainda assim, principalmente em músicas como “Touch“, os aplausos ferverosos, seguidos dos agradecimentos comovidos de Trixie, traduziram uma conquista interessante.

dEUS The Ideal Crash tour no Coliseu de Lisboa - Trixie Whitley

Os dEUS subiram a palco pouco depois das 22h, abrindo as hostes com a música que inaugura o álbum, “Put the Freaks Up Front”, antecedido por um “Boa noite!” bem ensaiado. Um grupo de bailarinos vestidos de preto povoavam o palco, pelo meio dos cinco elementos da banda. “Obrigado Lisboa, tudo bem?!” coincidiu com os aplausos – deixando-nos com a dúvida se Tom Barman também já terá casa na nossa capital. Seriam, aliás, muitos os momentos em que Tom nos mostraria quão confortável se sente a falar em português, ao longo da noite, nomeadamente para incentivar o público a dirigir-se ao “confession room” e registar as suas vivências com o álbum, a incluir num documentário da tour.

dEUS The Ideal Crash tour no Coliseu de Lisboa

Seguiu-se “Sister Dew”, num alinhamento que confirmava a agradável previsibilidade do álbum. Não temos a certeza se estas músicas envelheceram mesmo muito bem, se a experiência adquirida pela banda, e voz cada vez mais rouca de Tom, as apurou, mas não conseguimos atribuir apenas à nostalgia o prazer que este retrato de The Ideal Crash trouxe aos presentes. Foi o próprio Tom que apontou como único problema do álbum este ter sido gravado em Espanha: “what were we thinking?!” – demonstrando mais uma vez conhecer muito bem o público a quem se dirigia.

“The Magic Hour” trouxe-nos de volta o estonteante e confortavelmente familiar arpejo das guitarras, acompanhado pelo delicado violino. Tom Barman não era, de todo, o único membro da banda que demonstrava à vontade em palco. A banda usufruía genuinamente da performance, demonstrando conforto perante as músicas, leveza nas transições e, para além disso, uma postura de comunhão com o público que assistia ao concerto. Este correspondia, acompanhando de cor as letras de hinos como “The Ideal Crash” (Stay by my side, it’s sexy / The way that we talk about stuff / The way that we laugh with love / The way that we’re falling off) ou a inconfundível “Instant Street” – na qual regressaram os bailarinos, de coreografia próxima do videoclipe, que contagiavam o público ainda mais na vertiginosa aceleração da música, à medida que o final desta se aproximava.

dEUS The Ideal Crash tour no Coliseu de Lisboa

O concerto prolongou-se para além dos dez temas do álbum, passando ainda por músicas como “The Architect”. Entre temas, a banda reunia-se momentaneamente para decidir o tema seguinte, com direito a high-five entre os músicos que ganhavam a discussão – a descontracção, a alegria em palco, mais um vez. No total, o concerto durou cerca de 90 minutos, que nos pareceram ainda mais por terem sido praticamente ininterruptos. Este terminou, ironicamente, com “Nothing Really Ends” (And do I have a chance / Of doing that old dance again / Is it too late for some of that romance again / Let’s go away, we’ll never have the chance again / I take it all from you / I take it all from you).

Foi um gosto rever esta banda, para mais numa sala como o Coliseu de Lisboa. Apesar do mote vincado ser a celebração do vigésimo aniversário de The Ideal Crash, o concerto revelou-se mais que um singelo retrato do álbum. O público saiu de coração cheio e sorrisos nos lábios, ainda a entoar, repetidamente, I take it all from you / I take it all from you.

Texto: Andreia Duarte
Fotografias: Joana Viana (galeria completa disponível no Facebook)

Alinhamento:
01. “Put the Freaks Up Front”
02. “Sister Dew”
03. “One Advice, Space”
04. “The Magic Hour”
05. “The Ideal Crash”
06. “Instant Street”
07. “Magdalena”
08. “Everybody’s Weird”
09. “Let’s See Who Goes Down First”
10. “Dream Sequence #1″
11. “Quatre mains”
12. “Constant Now”
13. “Fell Off The Floor, Man”
14. “The Architect”
15. “Nothing Really Ends”